Ser

Casseta revela em livro a 'dureza' de ser pai

Júlio Maria
| Tempo de leitura: 4 min

A mulher vem com aquele brilho nos olhos, gagueja, treme as mãos e solta o grito da conquista:

Estou grávida!” O homem teria de sorrir, mas não é fácil.

Serão dias satisfazendo desejos de uma parceira que acordará à noite querendo brigadeiro com batata frita. A sogra ensinará simpatias para que o neto não nasça com a cabeça grande ou o pé redondo. Mas nada será tão desagradável quanto ver a amada se trancando em uma sala com um profissional chamado ginecologista.

A criança nasce e o mundo fica mais complicado. O pai tenta dar banho no pequeno para fazer a social com a mulher e quase o afoga na banheira. O filho mais velho tem crises de ciúmes e trava diálogos rebeldes do tipo “pedi um irmão para jogar bola, não uma bola”. Fora o preciso relógio biológico do bebê, acertado para despertar no instante em que o pai pegar no sono.

“Ser pai é uma viagem sem volta”, diz a abertura de “O Livro do Papai - Como Sobreviver a Seu Bebê” (Objetiva, 152 páginas) que o humorista Helio de la Peña, do Casseta e Planeta, lança nesta semana. Uma advertência na capa dá o tom de um manual dirigido a uma classe menosprezada pela literatura de auto-ajuda: “Mantenha fora do alcance de crianças e mulheres grávidas”. “É só uma forma de fazer com que as pessoas não levem a gravidez tão a sério”, diz Peña.

O humorista fala o que vive. É pai fresco de João, um ano e três meses de idade, e Joaquim, dez anos. O tema paternidade é pretexto para desconstruir cenas de uma família feliz ao estilo Casseta, com uma espécie de humor que faz as pessoas rirem de si próprias. O capítulo um é “Abre a braguilha e vamos fazer um filho”. O 18 é “Com o corpinho que Deus lhe deu... e o bebê tirou”. E o 24 é “Feliz Aniversário, ufa!” Só não há dicas de como fazer filhos. “Não, para isso há o livro ‘Onze Minutos’, do Paulo Coelho”, indica Peña.

Maior desafio na fase pré-natal do pai: levar a mulher ao ginecologista. Na teoria “heliodelapeniana”, de forte acento machista, o ato de pegar a esposa conquistada a duras penas e entregá-la a um desconhecido que poderá invocar as leis da medicina para fazer com ela o que bem quiser só não é pior do que morte na cadeira elétrica. Eis sua definição de ginecologista: “O ginecologista é um tarado com diploma.

Normalmente, um cara que desde jovem era muito ligado em mulher, porém nunca teve uma cantada muito convincente. Compensou o recalque se esforçando por anos na faculdade e em incontáveis noites de plantão na emergência. Assim como o cérebro danificado em uma região busca outros caminhos para realizar certas tarefas o ginecologista, impedido pela timidez ou feiúra exótica de chegar às mulheres, refaz seu caminho ao objetivo por meio acadêmico”

Sexo na gravidez é outro drama. Não estariam os pais contribuindo para que o filho nasça como um compulsivo sexual que viu tudo acontecer de um ângulo privilegiado? A questão é resolvida, segundo os fundamentos do catedrático la Peña, com a posição física dos corpos no ato sexual. “Alguns casais preferem correr o risco e continuar transando, desde que apenas na posição papai-mamãe. Consideram que é o máximo a que um casal decente deve chegar na presença de um filho.”

A época de descobrir o sexo da criança pode se tornar uma maldição se os pais não estiverem psicologicamente estruturados para ouvirem todas as barbaridades. As videntes surgirão do além para enxergar espíritos de crianças ao lado de uma grávida e definir se o bebê será menino ou menina.

Os matemáticos virão com cálculos incompreensíveis e jamais revelados para decifrarem o enigma. As vizinhas sem ocupação farão o teste da colher e do garfo e protagonizarão uma das mais patéticas cenas pré-natais.

A grávida será vendada e deverá escolher uma cadeira para se sentar. Se escolher a cadeira que tem um garfo embaixo, será mãe de homem. Se for a da colher, virá mulher. E há ainda a previsão que leva em conta o formato da barriga. Se for pontuda, é garoto. Se for redonda, menina.

O ultra-som, a saída mais confiante, esconde outro drama. O casal chega ao consultório, não vê mais do que umborrão na tela e quer saber logo do sexo.

Na conversa descrita por La Peña, o médico tenta convencer o casal de que aquela verruguinha na tela é mesmo o pipiu de um menino:

- O senhor tem certeza doutor? No outro exame jurou que era uma menina...

- Mas a imagem é clara, minha senhora...

- A imagem é embaçada, não tem nada de clara, doutor...

- Calma minha senhora...

- Minha mulher tem razão doutor...

- Meu amigo, isso é ridículo! Estamos falando de um pênis de 0,8 milímetros, não vale a pena estressar por tão pouco..

- O senhor diz que meu filho tem um pipiu de 0,8 mm e tenho de ficar calmo?

Vou é quebrar tudo!

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