Araraquara - Com uma área bastante extensa de terra em canaviais e plantações de laranja, Araraquara (125 quilômetros a Nordeste de Bauru) tem catalogadas, segundo informações apuradas pela reportagem, pelo menos 33 pistas de pouso clandestinas. A polícia suspeita de que as pistas sejam usadas por narcotraficantes.
O número de pistas clandestinas existentes hoje é quase o dobro do descoberto pela polícia há três anos. Em 2000, durante a investigação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) Federal e Estadual do narcotráfico, com o apoio das polícias Federal, Militar e Civil, do Ministério Público e do Poder Judiciário, foram identificadas 17 pistas clandestinas no município.
Atualmente, em Araraquara, incluindo o aeroporto, existem apenas quatro pistas de pouso homologadas pelo Ministério da Aeronáutica.
O administrador do aeroporto Bartholomeu de Gusmão, Antônio Carlos Dinato, informa que uma pista fica próxima ao distrito de Bueno de Andrada. Já as outras duas localizam-se próximas de Gavião Peixoto (Fazenda Fitipaldi) e na Fazenda Itaquerê.
Dinato desconhece qualquer denúncia sobre aeroportos clandestinos, até porque, segundo ele próprio, cabe à Polícia Federal (PF) investigar esse tipo de crime.
Durante a última semana, a reportagem procurou por dezenas de vezes o delegado titular da PF local, Cláudio Cavallaro, para comentar o caso. Em um dos telefonemas, ele afirmou que estaria muito ocupado, durante toda a semana, e que não poderia dar informações.
De acordo com o comandante da 1.ª Companhia de Policiamento Militar, tenente Wagner Tadeu Silva Prado, algumas pistas foram descobertas num sobrevôo do helicóptero Águia 4 da PM, em fevereiro. Na ocasião, a intenção era levantar alguns pontos sobre possíveis desmanches de veículos clandestinos na cidade e região.
Os locais foram catalogados e o Departamento de Aviação Civil foi avisado sobre o fato, já que cabe ao órgão o controle do tráfego aéreo no Estado. O tenente lembra que a PM não tem condições de monitorar os pontos, por isso, a Polícia Federal também foi comunicada sobre o fato.
“Esse trabalho não é atribuição nossa, a não ser que recebamos uma denúncia efetiva indicando o uso de uma dessas pistas por traficantes de drogas ou contrabandistas. Neste sentido, é lógico que iremos trabalhar. Hoje, se deixarmos o pessoal do serviço velado nesses aeroportos, outros serviços serão prejudicadosâ€, diz.
As pistas clandestinas localizadas em Araraquara têm aproximadamente 500 metros. São consideradas pequenas, mas apropriadas para o pouso de pequenos aviões e ultraleves.
O chefe do serviço de investigações reservadas da PM, cujo nome foi preservado, informou que a corporação tem conhecimento de alguns pontos onde existe a possibilidade de pousos de aviões. No entanto, não há denúncias de contrabando ou tráfico de drogas via aérea na região.
Como o caso é responsabilidade da PF, a Polícia Civil, não tem nenhuma equipe ligada a investigações sobre o uso dessas pistas no município.
Segundo o titular da Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes (Dise), Gerson Guido Mattioli, os policiais sabem de alguns locais suspeitos de pousos de aviões, mas vão ao local só após denúncias. Como a PM, a Dise tem outras atribuições de combate ao tráfico de drogas.
Ribeirão tem mais de 100 clandestinas
Araraquara - Os aeroportos clandestinos são qualquer lugar em que um piloto possa descer um avião. Na região de Ribeirão Preto é possível identificar centenas de locais apropriados, pelo menos na opinião de Wilson Alfredo Perpétuo, delegado federal e presidente da Comissão de Vistoria de Controle da Segurança Bancária e Segurança Orgânica da Polícia Federal (PF).
Em entrevista por telefone, o delegado informou à reportagem que já teve vários casos de aviões que pousavam próximo a regiões de plantação de cana-de-açúcar e laranja. Segundo ele, na região bastante plaina de Ribeirão são centenas de locais possíveis de pouso, por isso, é impossível catalogar todos os lugares.
“Por exemplo, numa fazenda de 300 alqueires, o piloto elege um lugar e desce o avião, é muito comum isso acontecer. Normalmente, um membro da quadrilha faz uma medição inicial e com apoio de um aparelho conhecido como GPS o avião desce para descarga, numa ação que dura no máximo cinco minutosâ€, afirma Perpétuo.
Ele explica que os setores federais de inteligência atuam trocando informações sobre os possíveis locais de pouso. Atualmente, há investigações pendentes nesse sentido, porém, ele prefere não comentar dados dos casos por questões de sigilo. Ele admite que a maioria dos pousos é mesmo para trazer entorpecentes por traficantes internacionais.
Nesses casos, são trazidas as pastas de cocaína e os tijolos de maconha. Para o delegado federal, a maioria dos pilotos da “muamba†(contrabando) deriva para o transporte das drogas, simplesmente por ser mais rentável. Perpétuo ainda ressalta que as quadrilhas estão bem estruturadas e muito bem armadas.
“O dinheiro do tráfico propicia a compra de armas e de sistemas bastante avançados de comunicação. Algumas vezes, os aviões são adaptados com tanques extras para voar por mais tempo, inclusive, tendo motores mais possantes para decolar em pistas curtas e sem estruturaâ€. Atualmente, a delegacia da PF de Ribeirão abrange 63 cidades.