A automedicação sempre foi alvo de crítica e combate das entidades médicas. Elas acreditam que a compulsão do brasileiro em se automedicar é de ordem cultural e envolve questões educacionais e falta de cumprimento da legislação, que já prevê a exigência de venda de medicamentos mediante a apresentação de receita médica. No entanto, o que as entidades médicas não têm levado em conta é o comportamento dos profissionais de Saúde frente aos pacientes. É comum, no cotidiano dos consultórios médicos de convênios mais populares ou do serviço público, inexistir o diálogo entre médico e paciente e a única comunicação possível entre estes dois mundos tão distantes ser o receituário.
Não raras vezes os pacientes relatam que, depois de horas de espera em salas desconfortáveis, são atendidos em poucos minutos por médicos estressados que mal olham para os seus males e receitam medicamentos padrões ou novidades da indústria farmacêutica. Os genéricos, geralmente com preços menos inacessíveis, quase sempre são esquecidos pelos médicos e muitas vezes são lembrados quando o paciente exige. A sensação que dá é que a Saúde do brasileiro está na sua orfandade médica e nas mãos da indústria farmacêutica. Ou seja, a cura da doença do paciente está na farmácia e não na habilidade que a Medicina deveria apresentar. Daí, possivelmente, as pessoas preferirem ir direto à farmácia não passando pela via crucis do atendimento médico deficiente.
O Brasil conta aproximadamente com 208 mil médicos, sendo a média nacional de 13,3 médicos para cada 10 mil habitantes. Um índice considerado satisfatório pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que preconiza dez médicos para cada 10 mil habitantes (ou um para cada mil habitantes). No entanto, a distribuição é desigual. Na região Sudeste a proporção é de 18,75 médicos para cada dez mil habitantes enquanto na região Norte é de 6,16. A concentração dos médicos nas capitais brasileiras é da ordem de 65%, restando às demais cidades uma proporção de 35%. O que não indica que nas capitais a maioria da população tenha Medicina de qualidade.
A vida do médico também não tem se mostrado saudável. Segundo estatísticas do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Recursos Humanos de Saúde, mais de 47% dos médicos para obterem uma renda satisfatória, têm entre três e quatro atividades. Este ritmo impossibilita o profissional de dar maior atenção ao paciente prejudicando procedimentos como anamnese e um atendimento mais personalizado a todo e qualquer paciente.
Por outro lado, a indústria farmacêutica, apesar de alegar prejuízos com a crise econômica, tem tido crescimento superior a de outros setores industriais. Segundo dados da Federação Brasileira da Indústria Farmacêutica (Febrafarma), as vendas de medicamentos em 2002 foi de R$ 5 bilhões e 200 mil. O laboratório Aché, por exemplo, teve um faturamento, em 2001, de R$ 687,5 milhões; além de comemorar mais de cinco milhões de receitas médicas expedidas anualmente, por médicos, a seu favor, o que representa entre 6 e 7% do receituário gerado em todo o mercado nacional.
Algumas questões ficam em aberto. Nas mãos de quem está a Saúde ou doença do brasileiro? Será que o médico tornou-se garoto-propaganda da indústria farmacêutica, sendo capaz apenas de prescrever remédios para o seu paciente? (Ricardo Alexino Ferreira é jornalista, professor de Jornalismo Especializado da Unesp e doutor em Ciências da Comunicação pela USP)