A guerra contra o Iraque, recém-terminada, poderá ser uma das últimas ações bélicas do mundo destinadas a garantir o suprimento de petróleo. É o que os conflitos – armados ou diplomáticos – futuros terão como causa bens infinitamente mais essenciais à vida no planeta, como, por exemplo, água doce, terras para produção de alimentos, e o uso da biodiversidade em benefício da qualidade de vida das pessoas, dentre outros. Imaginar o cenário do mundo dos nossos netos não requer qualquer exercício de futurologia, nem complicadas simulações apocalípticas. Basta-nos apenas razoável conhecimento do presente e boa dose de bom senso para antever esse futuro que esta tão próximo de nós.
Um exemplo atual dos conflitos que aguardam a humanidade é o de Angola, que acaba de comemorar um ano de paz. Senão, vejamos: após 37 anos de ações bélicas (dez pela independência de Portugal e mais 27 de sangrenta guerra civil), Angola é hoje uma espécie de espelho que ao refletir o presente também antevê o futuro. Este país era rico, principalmente, em petróleo de boa qualidade e em diamantes. Hoje, após quase quatro décadas de barbárie bélica, seu povo é obrigado a trocar diamantes por água.
Exageros à parte, esse será mais ou menos o cenário do mundo de nossos netos e também dos descendentes dos habitantes de países que, como o Brasil, ainda não conseguiram se desenvolver plenamente. Chamo a atenção dos leitores para que façam uma reflexão crítica sobre a possibilidade de tal cenário tornar-se um passado real, se nada fizermos (governo, setor produtivo e sociedade civil) contra isso desde já. O Brasil, a Argentina e quase toda a América Latina têm terras disponíveis para a agricultura e consequente produção de alimentos; dispõem de mais de um terço de toda a água doce existente no mundo, e contam ainda com áreas nas quais está concentrada a mais rica biodiversidade conhecida no planeta, como a do Peru. Mas tudo isso só não basta.
A soberania de países e de blocos regionais (nos quais o uso de recursos naturais comuns, como a água, por exemplo, exige certo grau de administração compatilhada) hoje e – muito mais no futuro próximo – só será plena se houver tecnologia capaz de transformar riquezas potenciais em vantagens estratégicas reais.
Restam como candidatos a objetos da cobiça internacional as terras agricultáveis, a água doce e a biodiversidade. Por falta de espaço, vou abordar neste artigo apenas os alimentos. Por enquanto, não há qualquer evidência científica séria sobre eventuais malefícios dos alimentos transgênicos à saúde humana ou dos animais. Por tal motivo, defendo opinião parecida com a do presidente do PPS, deputado Roberto Freire, sobre o assunto. Acho que - pelo menos enquanto nada for provado contra os transgênicos - essa questão deveria ser resolvida pelo mercado.
Além disso, não se pode descartar, a priori, a possibilidade de, no médio prazo, ocorrer uma aliança tecnológica entre a biotecnologia, que produz alimentos saudáveis (mas caros) com a transgenia, que poderia elevar a produtividade dos alimentos orgânicos. E, para concluir, deixo aqui uma questão para ser respondida pelos leitores: o que é mais nocivo à saúde humana e dos animais: alimentos transgênicos ou derrame de toneladas de soda cáustica e outros efluentes industriais, resultantes da fabricação de papel e celulose, nos rios de Minas e do Rio de Janeiro? Isso foi feito pela Cataguazes, sem qualquer condenação de entidades de preservação do meio ambiente. (O autor, Miguel Ignatios, é presidente da Federação Nacional das Associações dos Dirigentes de vendas e Marketing do Brasil - FENADVB)