Disse que o “homem” é o único animal que sabe que vai morrer. Mesmo assim, preenche o cheque, pinga colírio, faz check-up, aspira por casa com piscina, carro do ano, e luta por ter coisas como se fosse viver sempre. Somos assim. Me consola saber que minhas crianças não têm o saber do seu final (será?). Então sinto que devemos ser mais amigos que nunca, enquanto é tempo. Não pense que não me dói as crianças mortas e mutiladas do Iraque. Me doem todas crianças da terra, de qualquer tipo sejam. Pensa não, que não me doeu toda essa guerra pesando sobre inocentes iraquianos, e enfartando de medo civis e combatentes, que morrem de horror, do horror.
Ontem à noite a TV me fala do medo. O governo chinês mandando matar animais de estimação. Dizem que são transmissores da Sars, a gripe que assola o mundo. O povo chinês está matando a pauladas os cães e gatos nas ruas. Medo. Tremendo, abraço Audrey e Rita Batuque, enroladas nos cobertores de minha cama. Me olham com espanto. No aconchego de mim, não sabem que pode chegar um momento em que nada poderei fazer para protegê-las. Aí, chorei, e as duas cachorrinhas me lamberam, aflitas, consoladoras. Fui ver os outros nas caixas e temi o frio que faz Toby, velhinho, tossir.
E, o terror nos cerca contundente e ninguém para dar-se conta, que o final já começou sim, e de há muito tempo. E nos vamos morrendo todas cheios de desamor, violência e egoísmo. Nós vamos morrendo de vontade viver, e já estamos meio mortos. Por isso desligo a TV (os canais) e coloco um vídeo musical dos anos 50. Sinatra, Kelles, Rogers, Charisse, Garland. Revivo Fellini, e faço Brando surgir jovem e belo como também já fui. E tento me iludir. Mas sei que está tudo se acabando em meio a sangue, tiros, facadas, estupros, assaltos. É guerra mundial, guerra pelo poder, pela ação desesperada de tornar-se imortal através de coisas tais, que apenas apressam o fim. De todos.
E fico em silêncio quando o vizinho briga por causa de minhas plantas, e pisa, arranca, quebra seus bracinhos como se quebrasse a mim. Silêncio diante da grosseria nas lojas e nas ruas. Fico quieto porque sei que são raízes do medo.
Porque sei que o homem sabe que vai morrer, e, diante do inevitável se aturde com violência, frenesi e muito barulho. Por isso ele grita, ele berra, ele mata. E o pouco de paz que poderia ter é perdido, espancando e matando animais e crianças na China, ferindo velhinhos no Iraque, decepando braços e pernas na África, assaltando e estuprando no Brasil. É o terror gerando terror, até que Ela, a face negra da Mãe venha num gesto incontido de fúria e ceife-nos todos. Para limpar a terra, prenhe de iniqüidade. (Edson Antunes Maciel - RG 4.161.922)