Louis V. Gerstner Jr., o executivo que salvou a IBM, escorado na experiência de dez anos na recuperação dessa gigantesca empresa, a adorada Big Blue dos americanos, afirma que “os executivos nem sempre compreendem que as pessoas fazem o que se inspeciona, e não o que se espera.” Diz ele que sua experiência como consultor da McKinsey e depois como executivo, fez com que se defrontasse com situações de grande desperdício de tempo e de recursos porque se esperava que as pessoas fizessem o que estava nos planos e projetos, sem um efetivo acompanhamento. Isso é o que temos observado, com freqüência crescente, nos programas do governo, nas três esferas - federal, estadual e municipal. Projetos com objetivos nobres, nas áreas da saúde e da educação, destinam somas expressivas de recursos para órgãos específicos do governo, para prefeituras e para instituições de pesquisa ou assistência. Como o objetivo é sério e um bom dinheiro também é gasto na propaganda do programa, o governo fica esperando que as ações sejam efetivadas. Mas, por negligência dos que deveriam acompanhar a execução ou por falta ou insuficiência de órgão ou agente para inspeção, os recursos são desviados da finalidade, favorecendo iniciativas particulares ou indo diretamente para o bolso de malandros.
Como o governo é reativo, se surpreende ao tomar conhecimento, através da imprensa investigativa, de que o dinheiro entrou pelo ralo fedorento da corrupção. O exemplo mais recente é o da prefeitura de Porto Seguro, que desviou cerca de R$ 50 milhões em verbas da educação e da saúde, deixando escolas e unidades de saúde em péssimas condições de funcionamento. A desfaçatez do prefeito foi tão grande que até debochou do Tribunal de Contas, criando empresas fantasmas descaradamente fraudulentas como a Padaria de Salvador, a 730 quilômetros de Porto Seguro, contratada para fornecer os pães da merenda escolar.
Agora o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nomeou uma força-tarefa para investigar as irregularidades de Porto Seguro e sorteou 26 municípios para passarem por auditoria. Como quer ser reconhecido pelas ações no campo social, se não tomar tento com os ralos que estão por todos os cantos, o seu governo poderá ficar conhecido como o que mais alimentou a corrupção e desperdiçou recursos. Mas, como o dinheiro do governo é o nosso dinheiro, também a nós cabe colaborar na inspeção e não ficar esperando. Todos esses assuntos que estão sendo objeto de CPIs, tanto nas esferas mais altas quanto aqui, não existiriam nessas dimensões se os responsáveis pela execução dos planos, projetos e programas tivessem a certeza de que estavam sendo inspecionados. A apuração de irregularidades, depois que aconteceram, com todas as dificuldades de comprovação jurídica e de punição dos criminosos, mais serve para favorecer do que para combater a corrupção. (O autor, Pedro Grava Zanotelli, é administrador e ex-diretor da Faculdade de Ciências Econômicas de Bauru)