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Economia real


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Está chegando a hora de voltarmos toda a nossa atenção ao lado real da economia, de pensar os problemas da economia física, da qual todos nós dependemos. O governo do presidente Lula tem agido de forma inteligente, administrando com cautela a crise financeira e de confiança que herdou de seu antecessor. Não criou originalidades, nem se preocupou em se diferenciar da política econômica que hoje é praticada na maioria dos países. Está tendo sucesso, obtendo a confiança interna e recuperando a credibilidade externa. O ajuste fiscal está sendo aprofundado na forma correta, com o corte da despesa pública, o risco Brasil cai lá fora e os papéis brasileiros se valorizam.

A economia real vai mal, no entanto. Basta observar o comportamento da produção industrial, em queda nesta primeira quadra do ano. Até agora, o sucesso no campo financeiro não criou um emprego novo, não produziu um prego a mais. Todos sabemos que os problemas da economia real só vão começar a ser atacados quando se abrir o espaço para a queda das taxas de juro. Acredito que este espaço está sendo construído, pois a inflação dá sinais bastante evidentes de que está em queda e com jeito que se trata de um movimento monotônico. Aproxima-se portanto o momento em que vamos poder mexer na variável mais importante que é o juro real.

A partir desse ponto, temos que estar preparados para recuperar o tempo desperdiçado no governo passado, quando o Brasil se recusou a praticar políticas de estímulo ao setor industrial. Perdemos oportunidades extraordinárias de crescimento e deixamos de aumentar os investimentos no setor exportador porque economistas de cabeça dura acreditavam que o mercado era capaz de resolver tudo. Durante seis anos, no governo FHC, eles repetiram a cantilena que “era muito difícil escolher os vencedores” ... e na verdade escolheram os perdedores. Os “vencedores” estão no setor financeiro e os perdedores no setor produtivo.

É absolutamente fundamental voltarmos a ter uma política industrial para aproveitar as vantagens comparativas que nos dão maior poder de competição. Vantagens comparativas podem (e devem ) ser criadas, sem nenhum prejuízo aos demais setores da economia, como ficou demonstrado com o Moderfrota que financiou nesses dois últimos anos as vendas de máquinas agrícolas. A expansão da produção de grãos, com forte aumento de produtividade e o crescimento das exportações da agropecuária evitaram um novo desastre cambial ao final do governo FHC. E quando fazemos as contas do programa, vê-se que o aumento da arrecadação tributária no setor e mais as receitas dos impostos dos produtos agrícolas superam o valor do incentivo do crédito que possibilitou a venda das máquinas .

Não devemos, portanto, ceder à crítica fácil que todo subsídio é prejudicial à economia. O que ela revela é uma atitude preconceituosa e uma enorme preguiça de trabalhar pelo desenvolvimento do País. (O autor, Antonio Delfim Netto, é deputado federal pelo PPB-SP, professor emérito da USP - e-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br)

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