Quando questionado sobre o que acha mais difícil em seu dia-a-dia, o jovem Klaus Magrini, 12 anos, responde logo que é resistir aos doces, balas e chicletes disponíveis na cantina da escola e agüentar as várias picadas diárias pelo corpo. Klaus descobriu que era diabético aos 9 anos e desde então, toda a sua rotina teve de ser alterada.
Hoje, comer na quantidade e horários certos, fugir dos açúcares, checar a taxa de glicemia várias vezes por dia, praticar atividade física e tomar injeções de insulina diariamente são condições fundamentais para sua saúde e seu bem-estar.
O pai, Maurício Magrini, conta que Klaus nunca demonstrou muito interesse por doces nos primeiros anos de vida. “Antes do diagnóstico, enquanto ele podia comer, ele não curtia muito. Mas parece que só porque não pode, agora ele diz que dá vontade”, comenta.
Para driblar a vontade do garoto, a família passou a abastecer os armários de produtos naturais e dietéticos. “E a partir do momento em que ele não pôde mais comer açúcar, nós também não podíamos. Passamos a seguir a dieta dele, que é a mais saudável”, argumenta o pai.
Mesmo citando os doces da escola como a parte mais difícil, Klaus afirma que consegue lidar bem com as restrições alimentares. No lanche da escola, ele pode comer os mesmos salgados que os amigos, só troca o refrigerante normal pelo diet. “E lá também tem doces dietético”, admite.
Muito querido por todos, quando tem festa na casa de um amigo, sempre encomendam uma tortinha sem açúcar especialmente para ele. Mesmo assim, ele confessa que, às vezes, quebra as regras e come um doce tradicional. “Mas aí eu conto para minha mãe para ela aplicar mais insulina”, garante o menino.
Vencida a vontade de comer doces, Klaus reclama das quatro a seis picadas que leva pelo corpo todos os dias ininterruptamente. Para controlar a taxa de glicemia ele faz três a quatro testes diários. O exame é feito com uma gota de sangue extraída da ponta dos dedos. Para obter o sangue, é preciso espetar o dedo com uma lanceta e depois apertar o local do corte e isso dói.
Além dos exames, ele também tem que tomar uma ou duas injeções de insulina por dia. Para ele, é a pior dor. Klaus afirma que a injeção (aplicada no braço, coxas ou nádegas) é semelhante a uma picada de abelha. “E incha muito. Se eu tomo de manhã, vai desinchar à noite. Se eu tomo à noite, desincha de manhã e fica muito dolorido”, reclama.
Maurício salienta que está sempre à procura de opções de tratamento que possam minimizar o sofrimento do filho. Ao invés da seringa convencional, por exemplo, ele comprou uma “caneta” para a aplicação da insulina. “Agora saiu um aparelho que precisa de menos da metade de uma gota de sangue para dosar a glicemia e devemos comprá-lo assim que chegar ao Brasil”, garante.
Todo esse cuidado, porém, custa caro, segundo o pai. “As agulhas, lancetas e fitas para exame são descartáveis. Uma caixa com 50 fitas custa R$ 75,00 a R$ 115,00 e a gente usa quatro por dia. Em média, são R$ 200 a R$ 300 por mês. Quem ganha salário mínimo não consegue ter os aparelhos”, estima.
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Entenda a patologia
O diabetes é uma doença em que o organismo não produz (tipo 1), produz pouco ou torna-se resistente (tipo 2) a um hormônio chamado insulina. A principal função deste hormônio é levar a glicose que está na corrente sangüínea até o interior de cada uma das células do corpo humano.
Quando se faz uma refeição, tudo o que é ingerido é depositado no estômago. Lá, enzimas e ácidos processam os alimentos para que o organismo possa separar e extrair deles as substâncias mais importantes (vitaminas, minerais, água, glicose, fibras, etc.). Boa parte do que se come, principalmente os carboidratos, frutas e doces, é transformado em glicose - substância que funciona como “combustível” para as células.
Depois de metabolizados (durante a digestão), estes nutrientes são capturados pela corrente sangüínea, de onde serão levados e distribuídos para cada uma das incontáveis células que constituem o corpo. Quem “leva” a glicose até as células, então, é a insulina.
Na pessoa diabética, esse “transporte” não funciona ou é muito precário. Com isso, as células não recebem seu “combustível” e enfraquecem. Enquanto isso, o sangue fica saturado de glicose e acaba tendo suas funções também prejudicadas.
Com o tempo, essas alterações começam a afetar outros órgãos do corpo. Se de um lado eles ficam sem combustível, de outro o sangue saturado não consegue carregar os demais nutrientes de que as células precisam e surgem o que os médicos chamam de complicações.
Entre as mais comuns estão as disfunções cardíacas, os problemas renais, a dificuldade de cicatrização (que pode levar até à amputação de membros) e a retinopatia (principal causa de cegueira atualmente).
Essas complicações causaram a morte de milhares de pessoas até que, na década de 30, cientistas conseguiram reproduzir a insulina artificialmente em laboratório. Com isso, foi possível desacelerar a evolução da doença.
Graças à insulina artificial, que vem sendo aperfeiçoada ano a ano, uma pessoa pode conviver com o diabetes por toda a vida. Basta que, junto com as injeções, ela mantenha hábitos saudáveis e uma rotina rigorosa. O controle da doença exige abstenção do açúcar, alimentação balanceada e distribuída em várias refeições diárias e atividade física regular.
Estima-se que 8 milhões de brasileiros sejam diabéticos atualmente. De acordo com a endocrinologista infantil Maria Cristina Crês, entre as crianças, a incidência é de uma a duas para cada 100 mil habitantes. Na maioria dos casos, o diabetes na infância é de tipo 1, mas ela alerta que a obesidade infantil tem aumentado o registro das formas tipo 2 nesta faixa etária.
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Sintomas
• O desequilíbrio no transporte de nutrientes às células faz a criança emagrecer muito repentinamente
• A perda de peso pode causar fraqueza e dores musculares
• A glicose no sangue desregula o funcionamento dos rins e a criança passa a urinar muito mais que o normal
• A perda de urina causa desidratação, o que faz a sede parecer insaciável - a criança chega a levantar no meio da noite para beber água