Os poetas afirmam que o ciúme é medo disfarçado em amor. Mas para a psicologia o ciúme é um sentimento universal e até certo ponto normal, que se manifesta já nos primeiros meses de vida. Esse comportamento é irracional e involuntário. Mas o ciúme nem sempre é ruim. Tudo depende do que fazemos e de como agimos em relação a esse sentimento, que a maioria das pessoas já experimentou pelo menos algumas vezes.
A psicóloga Júlia Rodrigues Hernandez explica que o ciúme está intimamente relacionado com as sensações de perda. E este processo se manifesta já nos bebês que não querem dividir o amor, o carinho e a atenção de sua mãe com outras pessoas, sejam elas irmãs, amigas ou estranhos.
“Esse sentimento vai se desenvolvendo e se manifestará nas relações de amizade e de amor. Toda vez que se tem um triângulo, ou seja, uma outra pessoa para dividir, já se desencadeia ciúme em maior ou menor escala”, revela, explicando que o ciúme é provocado pelo menor sinal medo e insegurança. “E quanto mais significativa a pessoa, maior o grau de ciúme.”
Para exemplificar a situação, os amigos do casal Claudia Meschini e o marido Ricardo Barnabé dizem que eles são o exemplo perfeito do par ciumento.
Por sua vez, Claudia acha que não é nada ciumenta e ficou surpresa com a impressão que passa para a turma. Mas aos poucos acaba cedendo e confessa que tem ciúme sim, principalmente porque Ricardo é coordenador regional de uma multinacional de alimentação e trabalha somente com mulheres (e nutricionistas!) e, por causa do trabalho, viaja muito.
“Não gosto, por exemplo, quando ele está fora de casa, que fique saindo, chegando tarde no hotel. Quando ele viaja, ele está a trabalho e eu fico em casa. Então, quero igualdade. Acho que meu ciúme é normal, mas acho que o Ricardo não tem ciúme de mim. Acho até que, às vezes, ele age de maneira tão indiferente”, comenta.
Mesmo assim, quando tem uma crise de ciúme, Claudia adota a postura de nunca chamar a atenção do marido no local. “Tento evitar para não brigar. Não sou daquelas que dá show. Mas quando chego em casa, eu falo.”
Claudia não se esquece de que, no começo do namoro, teve uma menina que tentou agarrar e beijar Ricardo e ela ficou furiosa. Mesmo assim não brigou por ciúme.
Ela confessa que comenta com suas amigas suas inseguranças, mas evita, por exemplo, num restaurante dizer para o marido que tem uma moça olhando e ela não está gostando. “Não vou deixar que ele se sinta o tal, o bonitão.”
Aliás, além do charme natural do marido, Claudia ressalta que o fato de andar sempre de terno e gravata (hábito pouco comum na nossa região) faz com que ele fique ainda mais “chamativo”.
“Não crio uma situação constrangedora, mas quando percebo que ele está sendo paquerado, eu o abraço mais, beijo mais, rio ainda mais para deixar a moça morrendo de inveja, com mais vontade. Faço tudo para que ela veja que ele tem dona e está feliz.”
Já Ricardo tem uma reação diferente ao sentir ciúme da mulher. “Eu me fecho, fico extremamente introspectivo, calado e ela já percebe.”
Mas admite que apesar de Claudia externar mais o seu ciúme, é ele quem sofre mais. “É muito fácil ter ciúme. Ela é uma mulher bonita e uma pessoa pública, que é assediada”, explica, ao lembrar o fato da comerciante ser muito conhecida na cidade.
Embora não use o ciúme como tempero, Ricardo acredita que todo relacionamento precisa de demonstrações de afeto.
Mas acha complicado quando a esposa encana com coisas que não procedem. “Mas isso faz parte.”
Dessa maneira, ele até diminuiu as saídas para não fazer a companheira sofrer e evitar discussões entre o casal.
“Mas no começo do relacionamento, eu era bem mais neurótico e até me envolvi numa confusão”, revela o gerente, que há oito anos deu um tapa em um cara bêbado, que estava importunando Claudia numa festa de faculdade.
“Eu sou extremamente tímido. Mas até pela ajuda que a gente procurou, hoje a nossa relação é extremamente equilibrada no sentido do respeito. E, às vezes, o que mais se cobra num relacionamento é a atenção. E o ciúme muitas vezes se manifesta por deixar de dar atenção. É uma forma de ‘punir’ a pessoa. Você castiga a pessoa pela falta de atenção, se isola. Eu sou assim”, conforma-se.
“Mas esse isolamento é comigo. Se estamos em uma festa, ele brinca o tempo todo com todo mundo, mas não liga para mim. Ele me abandona”, retruca Claudia.
Em contrapartida, Ricardo afirma que o ciúme sem grandes excessos é uma das formas de equilibrar a relação e diz que dá risada quando o motivo do ciúme é, na opinião dele, infundado.
“Ele ri de mim, está vendo?”, indigna-se a esposa enciumada. “Rio mesmo”, debocha o marido ciumento.
Posse
Ciumento assumido, o auxiliar administrativo Emerson Antonio da Silva, 21 anos, “morre” por causa de suas coisas, roupas e principalmente de seu carro, um Opala 73, que comprou dois dias após ter conquistado a carteira de habilitação.
“Foi meu primeiro carro, comprei com meu dinheiro e meu sonho é ter uma coleção deles”, revela o apaixonado, que até preside o Opala Clube Bauru.
Emerson admite que tem até uma relação doentia com suas coisas e principalmente, com o carro. Não empresta para ninguém, nem mesmo para o irmão mais velho que é seu melhor amigo. Não deixa ninguém comer no interior do veículo. Quando estaciona usa duas vagas para ninguém chegar perto e correr o risco de bater, amassar ou riscar. E não suporta que ninguém encoste no carro. Nem de leve... (a reportagem comprovou).
Ele não tira o automóvel da garagem em dia de chuva. “Se estiver chovendo, vou de ônibus”.
Aliás, a paixão e o ciúme do carro acabam fazendo com que os relacionamentos de Emerson não sejam duradouros. Ele ainda não encontrou uma namorada com quem não brigou por causa do veículo. Afinal, assume que muitas vezes deixou de sair para ficar lustrando sua máquina, ritual que leva, no mínimo, duas horas.
O auxiliar é tão exagerado que, se um dia passar mal e precisarem transportá-lo, já avisa para que usem outro carro. “Eu espero a ambulância, porque se outro dirigir meu carro, aí é que morro!”, brinca, num tom meio sério demais.
Sobre este tipo de ciúme, a psicóloga pondera que o sentimento tem mais relação com a possessividade. “O ciúme é um sentimento entre pessoas.”
Relacionamentos amorosos costumam começar com uma atração mútua que, com o tempo, pode aumentar e sugerir a idéia de posse. Qualquer ameaça ao “nosso” sonho pode gerar medo ou verdadeiro pânico sobre a possibilidade de se perder o objeto de nosso desejo.
O psicanalista-filósofo Theodore Reich dizia que “o ciúme é um sinal de que alguma coisa está errada, não necessariamente deteriorada, no organismo do amor.”
Normalmente, somos ciumentos por nos acreditar “donos” do ser amado. Mas precisamos nos conscientizar de que ninguém pode “possuir” outro ser humano. Mesmo que a outra pessoa concorde em ser “sua”, isso é apenas uma figura de linguagem.
Nesse sentido, Júlia Hernandez revela que há pessoas que se sentem desprotegidas se o outro não manifesta o medo de perdê-las.
Deve-se confessar o ciúme ao parceiro, pedindo-lhe para evitar determinadas condutas que o afetam negativamente, despertando tal sentimento.
O ciúme pode resultar da falta de confiança no outro, mas principalmente em si próprio. Demonstra a precariedade da relação, pois quanto menos se confia, menos se deixa conhecer e menos se ama. O ciumento passa a se dar cada vez menos e a exercer uma acirrada vigilância sobre as atitudes do outro. Uma relação onde se desconfia de tudo, o tempo todo, não sobrevive.
“É preciso assumir o ciúme, desenvolver a capacidade de aprofundar o diálogo, sem culpar um ou o outro e perceber como é importante se conhecer para entender seus próprios problemas e comportamentos, senão se cria um ciclo vicioso”, orienta.
O ciúme ocasional é normal e natural. Toda pessoa que ama e se importa com o ser amado, sente ciúme uma vez ou outra.
O grande desafio consiste em não permitir que esse “monstro de olhos verdes”, como Shakespeare o denominou em Othelo, acabe minando a sua felicidade e a de quem você ama.
Dominando os extremos do ciúme, você estará abrindo as portas de seu coração e será mais fácil se tornar uma pessoa mais forte, segura e mais saudável psiquica e amorosamente.
____________________
Conceitos
“Os ciumentos sempre olham para tudo com óculos de aumento, os quais engrandecem as coisas pequenas, agigantam os anões e fazem com que as suspeitas pareçam verdades.” (Cervantes)
“De todas as enfermidades que acometem o espírito, o ciúme é aquela a qual tudo serve de alimento e nada serve de remédio.” (Montaigne)
“Da vida, o amor é o mel, do amor o ciúme é o fel.” (provérbio brasileiro)
“Ciúmes são tempestades de suposições e de suspeitas, levantadas pelas mesmas paixões que supõe defender.” (Soror Maria de Agreda)
“Quem um pouco de ciúme não mostra se arrisca a perder o que ama.” (Provérbio argentino)
“Não tem ciúme só quem ama, mas também quem deseja amar.” (Provérbio mexicano)
“Para o ciumento, é verdade a mentira que ele vê.” (Calderón)
“Amor sem pitada de ciúme nem é grande nem verdadeiro.” (Carbonell)
“Os ciumentos não precisam de motivo para ter ciúme. São ciumentos porque são.” (Shakespeare)