A psicóloga Maria Lúcia Biem, que também é terapeuta e educadora sexual, diz que uma das alternativas para diminuir o preconceito contra a homossexualidade seria a implantação de programas de educação sexual mais adequados nas escolas. “Eles envolveriam pais e alunos, o que é fundamental. Hoje, os cursos oferecidos se resumem a simples palestras. Só isso não bastaâ€, sustenta.
Ela acredita que o homossexualismo não pode mais ser considerado um tabu em sala de aula. “O que ainda existe é o preconceito, seja ele explícito ou implícitoâ€, diz.
Para Biem, os pais ainda são o principal empecilho para a contratação de professores homossexuais. “Eles acabam pressionando a direção da escola. O problema é que muitos deles ficam tão preocupados com essa questão que acabam se esquecendo de outras mais importantes, como o alcoolismo ou a desonestidade.â€
Ela defende que o educador não tem, necessariamente, que revelar sua opção sexual. “Certas coisas não precisam ser expostas. O que importa é o caráter. Desde que ele possua respeito pelos alunos, não tem nada a temer.â€
Outro lado
A psicóloga lembra que os professores heterossexuais devem ter cuidado quando estiverem trabalhando com alunos que são homossexuais. “Eles também não podem ter preconceito. O adolescente pode se isolar e acabar sofrendo em grande intensidade. É preciso compreender o sentimento do outro e o papel do educador é orientar. Ele tem que estar sempre atento ao que está se passando em sala de aulaâ€, afirma.
Ela diz ainda que o professor precisa saber se está preparado para conversar sobre a opção sexual de um aluno. “Se não estiver pronto, deve procurar ajuda. Caso não haja constrangimento das partes, pode até colocar a questão em debate e trabalhá-la em sala de aulaâ€, diz.
Pesquisa
A revista Profissão Mestre, voltada para quem trabalha na área de ensino, realizou em fevereiro uma pesquisa intitulada Homossexualidade na Escola. A consulta foi feita através do site da publicação.
Entre os professores que responderam à pesquisa, 67% disseram que sabem identificar um homossexual.
Cerca de 13% dos diretores disseram que não contratariam professores homossexuais. Entre os motivos, 47% afirmaram que os pais poderiam não gostar e 36% argumentaram que os alunos não o respeitariam.
Segundo a pesquisa, 65% dos internautas contaram já ter tido professores homossexuais.
Preconceito
Um aluno homossexual que hoje cursa uma universidade em Bauru e que prefere não se identificar diz que não chegou a sofrer discriminação em sala de aula, mas viveu de perto o problema do preconceito. “Colegas que eram afeminados eram alvos constantes de brincadeiras e constrangimentosâ€, conta.
Ele se recorda de um caso ocorrido na época em que estava no ensino médio e que mostra o despreparo de parte dos professores de ensino para lidar com o assunto. “Havia um aluno que era chamado, pelos colegas, de florzinha todas às vezes em que abria a boca. O professor se limitava simplesmente a pedir que a classe ficasse quietaâ€, recorda-se.
Para ele, a presença de psicólogos nas escolas é fundamental. “Principalmente nas que atendem adolescentes. Essa é a fase mais difícil na vida dos homossexuais, pois uma tempestade está se passando na cabeça deles.â€
O aluno homossexual defende a discussão do tema em sala de aula. “Ele deve ser debatido especialmente no ensino médio. O professor tem que saber lidar com essa questãoâ€, diz.
Ele concorda que a pressão paterna é um dos maiores problemas enfrentados pelos homossexuais. “O maior preconceito que eu já vi foi o caso de um rapaz que foi expulso de casa pelos pais.â€
Um ex-aluno, que também é homossexual, concorda. “Isso nunca vai mudar. Os pais têm a tendência de querer que os filhos se realizem como eles. Eu mesmo, se fosse pai, não gostaria de ter um filho homossexual, pois sei os problemas que ele teria que enfrentar na vidaâ€, diz.
Ele conta que nunca sofreu preconceito em sala de aula, embora os colegas soubessem de sua opção sexual. “Uma ou outra pessoa me olhava de maneira diferente, mas nunca fui agredido verbalmente.â€
O ex-aluno diz que o comportamento do homossexual pode ajudá-lo a evitar problemas. “Ele próprio deve se preservar. A postura de uma pessoa é o mais importante.â€