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De Cultura, borboletas e furacões


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A ciência admite que fenômenos inocentes e comuns, em condições especiais, causem efeitos incomuns e perigosos. Como o conhecido “efeito borboleta”, de Lorenz, segundo o qual o simples bater de asas de uma borboleta, num hemisfério, é capaz de provocar furacões no outro.

Essa é a teoria do caos. O governo do PT parece que tem medo do bater de asas das borboletas. Veja o exemplo da sua política cultural. Nem bem foi esboçada, recuou. Receio de que o bater de asas de algumas borboletas provocasse furacões. Refiro-me ao “dirigismo cultural” de que foi acusado o Partido dos Trabalhadores pelos cineastas Cacá Diegues e Luiz Carlos Barreto. Apenas porque houve orientação às empresas estatais para priorizar ajuda a produções artísticas com contrapartida social. Por exemplo, um filme que possa chamar a atenção para a fome que grassa nos grotões do Brasil ajudaria, indiretamente, ao “Fome Zero”. Por isso teria preferência.

“Uma audácia autoritária que nem a ditadura militar foi capaz de ousar”, segundo o desabafo de Cacá. A contrapartida social ao dinheiro público seria a própria obra que é um bem cultural autônomo, argumentou o cineasta.

Também não é bem assim. Todas as ações do homem são, a rigor, manifestações da arte e, não por outra razão, fala-se na “arte do poder”, na “arte da política”, na “arte de amar”. Em certas reflexões, trabalho e arte se ajustam e se contrapõem. Como em tudo mais, os gregos fixaram, nas relações entre o poder e a arte, o roteiro do futuro. Fídias expressou na arquitetura do Paternon a pujança de Atenas sob Péricles, deixando à posteridade o mais vivo documento daquela época. O estado democrático grego considerava a arte indispensável à cidadania. Da mesma forma subvencionava a montagem das peças de Sófocles e Ésquilo, de Eurípedes a Aristófanes, para que o povo pudesse assisti-las sem pagar ingresso. Miguel Ângelo, Bernini e Rafael trabalharam sob encomenda da Igreja. Seria estranho se Miguel Ângelo quisesse dar em contrapartida ao dinheiro do Papa uma estátua de Príapo enlaçado a Afrodite (sua própria mãe segundo algumas versões do mito) em lugar da Pietá.

A contrapartida ideológica existe desde a Antigüidade. O patrocínio do Estado, em certos momentos de mobilização da sociedade democrática, é instrumento aceitável. É verdade que os regimes totalitários mais recentes utilizaram a arte como propaganda política. Hitler foi um mestre. Mas Roosevelt, para obter a coesão da sociedade americana, nos duros anos de recessão, investiu muito dinheiro público no teatro, na subvenção de escritores, no cinema. Steinbeck escreveu “Vinhas da Ira” sob encomenda para promover a solidariedade nacional, combater as injustiças e recuperar o orgulho do povo. Ajudou a restaurar o poderio norte-americano.

O mecenato não é exclusividade do Estado. A Lei Rouanet existe para todos. Os maiores bancos dela se valem para promover sua imagem. Seria interessante saber se alguns desses bancos está disposto a financiar um filme que mostre o drama dos bancários que têm que se sujeitar a trabalhos estafantes sem ganhar hora extra e depois são demitidos sem contemplação. Quantos gerentes de bancos viraram garçons, camelôs ou exercem funções das quais se envergonham por não conseguirem continuar na profissão depois de tantos enxugamentos?

Luiz Carlos Barreto tem dado entrevistas contra essa política cultural do PT logo abortada face a celeuma. No seu filme “O Quatrilho” fez Patrícia Pilar vestir uma sandália Azzaléa para satisfazer o patrocinador, embora a história se desenrole no século XIX, no início da imigração italiana.

Os artistas têm o direito de criar o que desejarem, mas com o seu próprio dinheiro. O Estado, assim como os particulares, tem o direito de escolher projetos culturais para aplicar os recursos disponíveis. No caso do governo a responsabilidade é maior porque deve atender ao interesse da população a fim de proteger o que ainda resta da sua identidade, de seus valores, de suas esperanças e até mesmo de suas angústia. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)

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