A história da política brasileira, especialmente no período republicano, é de uma vulnerabilidade impressionante. Em 112 anos (a contar da promulgação da constituição de 1891), apenas nove presidentes da República eleitos cumpriram integralmente seus mandatos, sendo que apenas três foram eleitos pelo voto direto e secreto. São eles, a saber: Eurico Gaspar Dutra (1946/51); Juscelino Kubitscheck (1956/61) e Fernando Henrique Cardoso (1995/99), reeleito para o período (1999/2002). Sendo assim, em apenas 16 anos o Brasil foi governado por representantes escolhido pelo voto direto e secreto conferidos pela vontade popular.
Nas onze décadas de Republica constitucional, a nação foi governada por 37 brasileiros, considerando Getúlio Vargas e Fernando Henrique Cardoso apenas uma vez, e excluindo os primeiros ministros do parlamentarismo de 1961 a 1963. Isso significa que, mesmo contando os 18 anos em que o Brasil foi governado por Getúlio Vargas, temos uma média de um governante a cada 3 anos.
A partir da Revolução de 1930, apenas três presidentes eleitos pelo voto direto e secreto concluíram seus mandatos: Eurico Gaspar Dutra; Juscelino Kubitscheck e Fernando Henrique Cardoso por dois mandatos por dois. Desconsiderando-se os governos interinos, além desses de 1930 em diante, houve o primeiro governo de Getulio Vargas (1930-1945), o segundo período Vargas (empossado em 51, suicidou-se em 54), Jânio Quadros e sua vassourinha (da posse até a renuncia, ambas em 64), João Goulart (vice empossado em 61 e deposto em 64), governos militares (de 64 a 85), José Sarney (vice de Tancredo Neves, ambos eleitos indiretamente com Sarney governando de 85 a 90 devido ao falecimento de Tancredo que sequer foi empossado), Fernando Collor (empossado em 90, renunciou em 92 com a iminência de sofrer impeachment), Itamar Franco (vice empossado em 92, governando até 95).
Dos três presidentes eleitos pelo voto direto e secreto que concluíram seus mandatos, dois passaram por situações que podem ser consideradas comprometedoras para o reconhecimento da plena vigência das instituições democráticas: sob o governo Dutra, o partido comunista cujo o candidato à Presidencia havia obtido 9,7% do total dos votos foi colocado na ilegalidade; JK só teve sua posse assegurada graças a um ato de força do ministro da Guerra e enfrentou duas rebeliões militares no início de seu governo.
É certo que nem todos os sobressaltos registrados na sucessão de Presidentes desde a Proclamação da República foram decorrentes a crises institucionais. Houve no transcorrer afastamentos por doença e mandatos interinos, por exemplo os casos de Afonso Pena, que faleceu durante o mandato e de Epitácio Pessoa, eleito para um mandato mais curto, a fim de completar o quadriênio que corresponderia a Rodrigues Alves (1919-22), que falecera sem tomar posse, sendo temporariamente substituído pelo vice Delfim Moreira (1918-19).
Mesmo assim, parece inacreditável, mas é verdade: em 114 anos de vida republicana e 112 sob seis constituições republicanas, tivemos apenas um presidente eleito e reeleito da República, Fernando Henrique Cardoso, que foi eleito pelo voto direto e secreto, completou seu mandato sem qualquer incidente institucional, com absoluta liberdade de organização partidária, funcionamento autônomo e ininterrupto dos poderes Legislativo e Judiciário e plena liberdade de expressão. É a primeira vez na história republicana do Brasil que um presidente teve dois mandatos conferidos completos com eleições diretas e voto secreto, sem qualquer incidente institucional no seu transcurso. E agora Lula??? (Mauro Sérgio dos Santos - RG-27.997.680-X)