Tribuna do Leitor

"Antes tarde..."


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Década de oitenta. Professoras de História e Geografia atentas ao conteúdo programático do segundo semestre. Consultam livros, mapas, fazem anotações, acertos derradeiros visando à perfeita integração do trabalho didático centrado no estudo do continente africano, com ênfase especial para a luta dos negros no Brasil e contribuição do africano na formação da nacionalidade nacional. Perguntam se não tenho textos concernentes ao trabalho que pretendiam realizar.

Vou além. Quero, também, participar da integração curricular. Para tanto prometo oferecer-lhes cópias dos poemas “O Navio Negreiro” e “Vozes D’África”, de Castro Alves, adiantando que não fizera o trabalho por falta do apoio logístico das disciplinas que dessem ao educando a percepção segura de tempo e de espaço para a perfeita intelecção do texto. Falo-lhes mais. Falo da consulta à Bíblia, já que o poeta refere-se a Cam, filho de Noé e a Agar, escrava de Abrão, eternizada nos versos:

“Como Agar sofrendo tanto

Que nem o leite do pranto

Tem que dar para Ismael...”

“Vozes D’África, uma apóstrofe em que o poeta, de maneira acintosa, faz uma interpelação a Deus: “Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?” A desditosa África atribui sua desgraça ao amor irreprimível por Cam, o “viandante negro, pálido, sombrio, arquejante, que descia do Arará”. Cam, antepassado de um dos três ramos da humanidade, os camitas, povo que, provavelmente, se formou no nordeste da África, de onde se espalhou pela África oriental.

E incursão pela mitologia grega. O poema fala-nos de Prometeu, herói e semideus que roubou o fogo dos céus para entregá-lo aos homens e que, como castigo, foi acorrentado a uma rocha do Cáucaso onde uma águia vinha todos os dias devorar-lhe o fígado que à noite se reconstituía. Prometeu leva-nos até Pandora, mulher criada por Vulcano, dotada de todas as perfeições (do grego: pan “todo” e doron “dom”). Os objetivos foram alcançados. Ponto culminante: declamação de “O Navio Negreiro” por dois alunos, um moço e uma moça. Isso, há mais de vinte anos... Hoje, a Secretaria da Educação coloca no currículo “História e cultura afro-brasileira”...

O escritor, sociólogo, conferencista e acadêmico, dr. Adelino Brandão, hoje em Jundiaí, apresentou em várias cidades o espetáculo “O Negro na Cultura Brasileira”. Danças, cânticos, magias, capoeira ao som do berimbau finalizando com a declamação de “O Navio Negreiro”, um grito de dor do irmão negro. Sabe-se: a Secretaria da Educação não se inspirou no trabalho despretensioso desses professores abnegados e tão mal-pagos que há mais de vinte anos anteciparam a “descoberta” dos doutores que decidem o que se deve e o que não se deve fazer no intrincado campo da política educacional. Deveriam, isso sim, albergar o ensinamento de Michel Quoist: “Livra-nos de pensar que fomos nós que os inventamos sozinhos” (in Quadros Verdes - Poemas para rezar). Há mais de vinte anos... Enfim, já nos ensina o consagrado adágio popular: “Antes tarde...” (Álvaro Baptista Pontes - RG 2.477.567)

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