Que muitos brasileiros não ligam para a manutenção do automóvel, isso é fato. Nessa hora, sempre surgem as mais variadas e mirabolantes desculpas - falta de dinheiro e de tempo são as principais - para não levar o carro ao conserto ou àquela revisão periódica.
Nada justifica tais comportamentos, mas se há um item que não deveria ser relegado ao abandono, por motivos mais do que óbvios, são os freios. Afinal, trata-se de um dos principais componentes de segurança do veículo. Um exemplo de como o sistema é desprezado pelos motoristas pode ser visto nas inspeções veiculares efetuadas na unidade bauruense do Centro Tecnológico Mecânico (Cetem).
No órgão, credenciado pelo Instituto Nacional de Metrologia (Inmetro), são feitas, em média, cerca de 100 análises mensais em automóveis que tenham sofrido alterações de suas características originais ou sinistrados.
Os resultados são alarmantes. Cerca de 17% dos veículos leves avaliados no primeiro quadrimestre deste ano apresentaram defeitos no sistema de freios, índice que sobe para 22% no caso dos caminhões.
Segundo o diretor do Cetem, o engenheiro mecânico Luiz Cremonesi, todos os problemas encontrados são decorrentes da ausência de manutenção do sistema. “E eles não ocorrem apenas em lonas e pastilhas. Há casos também de vazamentos e falta do fluido”, afirma.
Entretanto, os mais graves são os desequilíbrios das frenagens nas rodas. “Eles podem ocorrer de várias maneiras, com uma delas freando mais que a outra e até mesmo apenas uma funcionando. Isso é capaz de provocar acidentes seríssimos”, explica Cremonezi.
O diretor do órgão acrescenta que tais comportamentos dinâmicos dos freios são difíceis de aparecer em estatísticas como causadoras de acidentes. “É algo que só é possível descobrir através de ensaios. Daí toda a importância do sistema estar sempre em ordem”, enfatiza ele.
Para conseguir manter os freios eficientes, os integrantes do Cetem fornecem uma série de dicas. O engenheiro mecânico Mateus Nobre Dal Piccol ensina que o sistema sempre “avisa” quando algo está errado. E para percebê-los, basta um pouco de atenção.
Alguns indícios de que os freios não estão bons são pedal trepidante ou baixo demais e chiados. “Podem ser pistas de disco ovalizado, falta de fluido e pastilhas desgastadas ou espelhadas”, frisa Mateus. “Se ao frear o carro tender para a direita ou esquerda, é sinal de desequilíbrio no sistema”, complementa ele.
Desta forma, torna-se fundamental olhar o sistema se um destes “sintomas” aparecerem. Para verificar as pastilhas, que devem ser trocadas normalmente a cada 30 mil quilômetros rodados, Mateus recomenda uma inspeção visual. “Basta tirar as rodas e checar sua espessura”, ensina ele.
Já o fluido de freio costuma ter uma vida útil longa - entre 30 mil e 60 mil quilômetros, dependendo das condições de uso. “Mesmo assim, é bom analisá-lo uma vez por ano”, salienta Mateus. “Também é importante verificar, no motor, o estado de conservação do reservatório do fluido para ver se não há oxidações, ressecamento ou vazamento”, acrescenta.
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Desgastes desnecessários
Além da manutenção, o modo de dirigir o veículo também influencia diretamente na vida útil e funcionamento do sistema. Segundo o técnico mecânico Ricardo Novelli da Silva, do Cetem, uma “mania” comum dos motoristas, principalmente no trânsito urbano, é desrespeitar a distância do veículo à frente. “Andar muito colado provoca o acionamento constante dos freios, gerando desgastes desnecessários”, ressalta ele.
Já o engenheiro mecânico Mateus adverte que o motorista deve destinar atenção redobrada em descidas muito íngremes, como uma serra. “Nessa situação, se extremamente exigido, o fluido pode superaquecer e provocar a formação de bolhas, o que causará a perda do poder de frenagem”, explica ele.
Por isso, argumenta Mateus, é fundamental descer engrenado, preferencialmente com uma marcha curta - segunda ou terceira - e evitar a qualquer custo a prática do “ponto morto”. “Além de constituir-se em uma questão de segurança, a medida gera economia de combustível e poupa os componentes do sistema de freios, como discos e pastilhas”, alerta o engenheiro.