Bairros

Cadeirantes têm cotidiano difícil

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 3 min

Até mesmo em locais adaptados para os deficientes físicos há erros quase imperceptíveis, mas que já representam um grande problema para essa população. O dia-a-dia torna-se difícil.

Supermercados de Bauru, por exemplo, têm vagas reservadas para deficientes, mas nem sempre há o espaço suficiente ao lado do veículo para que a porta seja completamente aberta e a cadeira de rodas posicionada ao lado.

“Eles deixam a vaga mas, se outro carro estaciona ao lado, não tenho como tirar a cadeira. Tem que ter vaga para o carro e espaço para retirar a cadeira”, diz Nelson Budoya, que ficou paraplégico após um acidente de trânsito.

Ele encerrou a conta corrente em um banco porque a agência tinha rampa de acesso, mas não tinha estacionamento adequado.

Há rampas que facilitam a entrada, mas para alcançar os produtos nas gôndolas é preciso de ajuda devido à altura das prateleiras. Ainda assim, Budoya afirma que vai sozinho ao supermercado quando a compra não é muito grande e se vira bem.

O cadeirante Paulo César Fernandes insiste na situação das ruas e calçadas. A cadeira de rodas dele precisa de manutenções freqüentes. Ele explica que a cadeira sofre danos cada vez que ele desce degraus onde não há rebaixamento ou quando o piso é muito irregular devido aos buracos. Em três anos, cinco motores novos já passaram pela cadeira de Fernandes.

Ele vende sacos de lixo em bares da região central e por isso tem bastante experiência pelas ruas de Bauru. Diariamente, vai andando da Vila Independência ao Centro e volta de ônibus. “Se não for com ajuda, não tem jeito”, afirma.

Fernandes prefere andar pelo asfalto. “Outro dia eu fiquei sem ação na calçada porque atrás tinha um buraco e na frente tinha uma valeta enorme. Só quem anda para dar um salto”, acrescenta.

O cadeirante atesta a dificuldade de entrar em estabelecimentos, como lanchonetes. “A coisa mais difícil que tem é ver uma lanchonete com acesso para deficiente. As pessoas pensam que a pessoa que usa cadeira de rodas não deve andar por onde ela quer”, avalia.

Fernandes também reclama do preconceito que o morador de Bauru ainda tem contra os deficientes. “Você passa e as pessoas ficam observando com aquela cara de dó. Eu trabalho com vendas e as pessoas compram o produto por piedade. Ou então você está na cidade e as pessoas te dão moeda”, conta.

Mais experiências

O paraplégico Luiz Aparecido da Silva diz que conhece cadeirantes que nunca saíram na rua ou andaram em ônibus coletivo devido à dificuldade de acesso. “Eles sabem que não vai ser fácil”, expõe. “Os outros não sabem que na cidade existem tantos cadeirantes”, diz Silva.

Budóya diz que não se arrisca mais a andar pelas calçadas de Bauru. “Já tentei, mas você vai andar no calçadão da Batista e não tem condições. É muito irregular, as rampas estão fora de padrão. Aquilo foi feito para subir carrinho de transporte e não para cadeira de rodas”, critica.

Ao Calçadão ele só vai com o filho, que tem força para subir e descer a cadeira onde não há rampa e onde a rampa é inadequada.

Budóya tem um carro adaptado para paraplégico e conta que antes de adquiri-lo suas dificuldades eram imensas. “Para eu sair de casa, dependia das outras pessoas. Sempre elas têm ocupações e não têm tempo disponível para atender às suas necessidades naquele momento”, diz.

O carro tem câmbio automático e as funções de freio e acelerador são controladas através de uma lavanca. “Eu vou para onde quiser. Se for enchendo o tanque, nós podemos rodar o Brasil”, garante.

Nelson diz que quando o deficiente consegue ter acesso aos locais, ele torna-se mais independente e sente-se mais útil. “Você não se sente tão preso a uma cadeira de rodas”, revela.

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