As populações das periferias das cidades brasileiras e principalmente das capitais dos estados vêm sofrendo de um grande mal atualmente, que é a fome. Este flagelo está solapando vidas, originando doenças relacionadas à desnutrição e criando raízes profundas em nossa sociedade. O desespero e intranqüilidade são vividos por famílias de baixíssima renda, principalmente pelos moradores das cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, por se tratarem dos maiores contingentes populacionais do país.
Não vamos discutir aqui as causas que levaram nossos irmãos a esse estado de pobreza absoluta. Possivelmente dentre elas destacaria a má distribuição de renda em nosso país, privilegiando uns poucos e penalizando grande parte da população; a falta de oportunidades de emprego; as políticas de colonização equivocadas adotadas pelos governantes desde a época do descobrimento; as influências étnicas que ocasionaram a formação de diferentes povos nas várias regiões do Brasil; o baixo índice educacional dessa população excluída da sociedade de consumo; preconceitos de raça, de cor, de religião e de classes sociais; falta de vontade política para resolver ou amenizar esta importante questão; falta de uma política agrária permanente e consistente, que premie de maneira clara e positiva aquelas famílias, que comprovadamente, por falta de recursos e/ou tecnologias adequadas, continuam migrando para as regiões periféricas dos grandes municípios brasileiros e a corrupção desenfreada, dentre outras, que inegavelmente existem e deveriam ser também relacionadas.
O atual governo vem esboçando e tentando desenvolver algumas políticas, no sentido de atacar a fome que se alastra pelo país, por todos os estados da federação e por todas as regiões brasileiras, notadamente nas cidades de maior densidade demográfica, que são as regiões metropolitanas.
Foi neste cenário que surgiu o projeto fome zero, alinhavado pelo atual governo na tentativa de realizar algo concreto neste sentido. Este projeto é o resultado de trabalho árduo de especialistas, muitos deles engajados em ONGs, organizações populares, institutos de pesquisas e movimentos sociais vinculados à questão da alimentação e seus reflexos para a segurança em todo o Brasil. Entre outras iniciativas, colocou-se à disposição da população o site www.cidadania.org.br. para divulgação do assunto, oferecendo textos e informações técnicas, orientando melhor o tema na atual conjuntura nacional.
O Banco Mundial adotou como linha de pobreza a renda per capita dos habitantes pobres, dos países mais pobres da África do Sul, que é de menos de um dólar por dia. Em nosso país, a Embrapa divulgou alguns dados estarrecedores sobre a pobreza, pelos quais afirma que há no Brasil 44 milhões de pessoas que ganham menos de um dólar por dia e consequentemente vivem em absoluto estado de pobreza, o que é assustador.
Entende-se que a pobreza não é ocasional, mas sim resultado de modelos de crescimento perversos durante longo tempo, incentivando o acúmulo exagerado de riquezas em mãos de poucos, em detrimento de baixos salários e falta de oportunidades para muitos.
Não pregamos aqui, de forma alguma, o enfraquecimento da classe empresarial. Esta tem que ser forte para dar sustentação ao nosso modelo econômico baseado no capital e trabalho, porém, a distribuição de riquezas terá que beneficiar um pouco mais a classe representativa do trabalho, até para que possa consumir os bens produzidos em parceria com os representantes do capital e melhorar sua qualidade de vida gradativamente. Isto para o bem do Brasil e de seu sofrido e resignado povo. (O autor, Francisco Giglioti, é Administrador, Doutorando em Energia na Agricultura- Unesp -, Mestre em Gestão Empresarial e Professor da Faculdade de Ciências Econômicas de Bauru, ITE. E-mail: fgiglioti@uol.com.br)