Cultura

Leituras do desejo

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 4 min

Marcelo Bulhões, professor de Língua e Literatura do Departamento de Ciências Humanas da Faculdade de Arquitetura Artes e Comunicação (Faac) da Unesp de Bauru, lançou na última semana, no Rio de Janeiro, durante a 11.ª Bienal Internacional do Livro, o ensaio “Leituras do Desejo - O Erotismo no Romance Naturalista Brasileiro”.

A obra, publicada pela Edusp em parceria com a Fapesp, é resultado de sua tese de doutorado na Universidade de São Paulo (USP) e resgata uma série de romances quase esquecidos do final do século 19 que têm em comum um conteúdo erótico embutido.

O livro é o segundo de Bulhões, que em 1999 publicou “Literatura em Campo Minado - A Metalinguagem em Graciliano Ramos e a Tradição Literária Brasileira”, e veio como conseqüência da publicação de uma apresentação da obra de 1888, “A Carne”, de Júlio Ribeiro, no ano passado. Na entrevista a seguir, o professor fala ao JC sobre a obra.

Jornal da Cidade - Como surgiu a idéia do novo livro? Marcelo Bulhões - Pesquisando sobre “A Carne”, descobri que ao lado dele existem outros livros semelhantes, que embora não tivessem causado o mesmo escândalo, dizem coisas parecidas a ponto de configurar uma situação comum. Não vamos nem dizer que foi uma coisa inédita. Alguns críticos brasileiros já haviam falado desses livros, mas sempre com pouco de desprezo. Eu acho que uma literatura não se faz somente com os grandes nomes. Eu estou um pouco cansado de ver só trabalhos sobre Guimarães Rosa, Machado de Assis e Clarice Lispector. Não quero dizer que eles não sejam importantes, mas há um certo desprezo em relação a outras obras. E a gente não pode desprezar. Do ponto de vista da história da cultura, da literatura, não se pode simplesmente jogar para debaixo do tapete um fenômeno, que apesar dos seus aspectos desfavoráveis do ponto de vista estético, é muito interessante. Esse livro é um grande ensaio sobre essa série de romances.

JC - Quantos livros são analisados no total além de “A Carne”? Bulhões - “A Carne”, do Júlio Ribeiro; “O Homem”, do Aloísio de Azevedo; “Cromo”, do Horácio de Carvalho, aliás, um livro que não teve nem segunda edição, foi publicado em 1888 e é pouco conhecido. Li a primeira edição na Biblioteca Mário de Andrade. Além deles, “O Urso”, do Antônio de Oliveira; “O Simas”, do Júlio Ribeiro; “O Livro de uma Sogra”, do Aloísio de Azevedo; “Hortência”, do Marques de Carvalho; e talvez “O Missionário”, do Inglês de Souza, que eu também comento um pouco. Os três principais são “A Carne”, “O Homem” e “O Cromo”.

JC - O que eles têm em comum? Bulhões - Os principais têm mulheres que são histéricas. A histeria feminina era um tema da medicina do século 19. O interessante é que esses romances revelam é que existe uma grande curiosidade sobre isso. A sociedade do século 19 tem um grande sentimento de culpa mas também curiosidade em relação ao sexo, o que cria uma ambivalência escândalo-curiosidade. As narrativas acabam servindo para o leitor como forma de estimulação erótica. Há perversão, muita visualidade. Existem cenas, por exemplo, nas quais as personagens de despem... Há voyerismo por parte dos narradores. É interessante lembrar que esses romances são pré-freudianos. Freud só publicou “A Interpretação dos Sonhos” dez anos depois de “O Homem”, do Aloísio de Azevedo, um livro que tem capítulos inteiros com uma personagem que tem, durante os sonhos, realizações eróticas.

JC - Essa característica é brasileira? Bulhões - Não, nossa literatura era provinciana. O Brasil assimilou o que estava acontecendo na França, principalmente o trabalho do (Émile) Zola. De qualquer modo é interessante perceber como a literatura, como uma antena, capta o que está acontecendo na sua época. Outra coisa importante que eu destaco é que a cultura brasileira e a literatura brasileira sempre foram marcadas por uma idéia de euforia erótica. “Macunaíma”, por exemplo, um romance fundamental do século 20, fala entre outras coisas de uma felicidade sexual. Esses livros que eu analisei revelam o contrário disso. Eles mostram a frustração, o sexo é mais como uma busca, insatisfeita, com muita culpa, muito trauma... Eles têm uma espécie de expressão mórbida, doentia do sexo. O sexo é uma coisa patológica. Aí entra a histeria. Com isso, os finais quase sempre são trágicos.

Comentários

Comentários