A saúde financeira do Hospital Beneficência Portuguesa nunca foi pior do que a atual, apesar da diretoria não informar quanto deve. Enquanto negocia dívidas com bancos, fornecedores e empresas terceirizadas, mantém ativos apenas 80 dos 200 leitos disponíveis. Para o novo presidente do hospital, Luiz Carlos Mendes, só uma gestão séria, que priorize o corte de gastos e a elevação de receitas, pode contornar a situação.
Ele, que é conselheiro da Sociedade Beneficente Portuguesa de Bauru há seis anos, assumiu a nova função há uma semana e definiu algumas estratégias para tentar reverter a escassez de recursos e retomar os investimentos. O marketing institucional do hospital, o estreitamento da relação com a Cooperativa Médica Unimed e a busca por novas parcerias estão entre elas.
“Estamos abertos para conversar com todos os convênios. Também não está fora do plano atender o Sistema Único de Saúde (SUS). Temos que estudar caso a caso. A idéia ainda é mostrar que o hospital tem ótimos profissionais em todas as áreas. Vamos ampliar fronteiras. Hoje, 90% do nosso atendimento são pela Unimed”, explica Mendes.
Segundo ele, desde a inauguração do Hospital da Unimed, a Beneficência vem perdendo paulatinamente seus clientes. A área de obstetrícia foi a que mais sofreu.
A crise enfrentada pelo País, que reduziu o poder aquisitivo dos brasileiros e afugentou os pacientes dos serviços de saúde particulares, também colaborou com as dificuldades financeiras enfrentadas pela maioria dos hospitais, destaca o atual presidente.
“Uns (hospitais) estão endividados porque estão renovando equipamentos médicos, que em cinco anos já estarão obsoletos. Outros sofrem com a inadimplência dos planos de saúde, que também têm levado calote. É uma corrente. A gente vê ainda uma gritaria geral com relação ao SUS, que vem remunerando mal. É uma crise nacional”, argumenta.
Conforme o JC publicou, para sobreviver às dificuldades, a Sociedade Beneficente Portuguesa chegou a comercializar imóveis, mas atualmente os bens disponíveis não são alienáveis – estão indisponíveis para venda. Para piorar, por ser privado, a Beneficência não tem direito a isenções fiscais nem recebe subsídio do governo estadual ou federal.
“Só quem atende o SUS tem aporte para trabalhar. Encontramos um déficit na diretoria que precisa ser trabalhado num prazo longo”, reconhece Mendes, que não menciona cifras, mas garante a manutenção de todos os serviços. Segundo ele, a idéia é ampliá-los, já que existiria mercado para os dez hospitais instalados no município.
“É uma questão de readequação. Os outros hospitais (os mais recentes, como o Estadual) vieram ocupar lacunas que existiam. A região precisa deles. A nossa prioridade é atender Bauru, onde o hospital está bem localizado, tem tradição e um corpo clínico eclético”, argumenta.
Os últimos investimentos feitos na Beneficência Portuguesa foram há pelo menos dois anos, no pronto atendimento e na área de diagnóstico por imagem.
“(Com recursos em mãos), aplicaríamos em equipamentos e reforma nos apartamentos. Eles estão bons, mas poderíamos oferecer mais conforto. Também pretendemos investir no aprimoramento do corpo de atendimento, com palestras científicas”, conclui.
____________________
Arrendamento
Em novembro do ano passado, a Confederação das Unimeds fez uma apreciação técnica do Hospital Beneficência Portuguesa para um possível arrendamento do prédio. Na época, a direção do hospital já confirmava as dificuldades financeiras, situação que resultou nos contatos realizados com a confederação. O contrato não saiu porque não foi aprovado pela assembléia das Unimeds.
Segundo o atual presidente do Hospital Beneficência Portuguesa, Luiz Carlos Mendes, se a locação tivesse sido firmada, a Sociedade Beneficente Portuguesa de Bauru teria verba para aplicar na modernização de equipamentos e em reformas.
Mesmo assim, novas parcerias com a cooperativa médica não estão descartadas. A racionalização de serviços, por exemplo, será proposta à diretoria da Unimed. “Alguns serviços que são feitos nos dois hospitais (Beneficência e Unimed), como lavanderia e nutrição, poderiam ser executados em conjunto por apenas um deles, o que traria benefícios para ambos”, conclui.
____________________
Nova administração
Luiz Carlos Mendes é bauruense e formou-se em engenharia civil na Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro. Além de exercer a profissão, ainda atua como administrador de obras. Antes de entrar para a iniciativa privada, trabalhou na superintendência da Rede Ferrorivária Federal (RFFSA). Atualmente, Mendes também é presidente da Associação de Engenheiros Arquitetos e Agrônomos (Assenag) de Bauru.
Descendente de uma família de portugueses, desde os 8 anos é sócio da Sociedade Beneficente Portuguesa, que mantém o Hospital Beneficência Portuguesa. Seguindo os passos do pai e do avô, é um dos 37 conselheiros da sociedade. Em março desse ano, juntamente com outras 11 pessoas, foi indicado para assumir a administração do hospital.
O atual presidente trabalhará diretamente com o delegado de polícia Abel Marques de Abreu, eleito para o cargo de 1º vice-presidente, e com o cirurgião dentista, Walter da Silva, 2º vice-presidente. Mendes é sucessor do advogado Anibal Alves Carvalho, que deixa a presidência e permanece no conselho da sociedade, que conta com 500 sócios.
Apenas os conselheiros têm direito à indicação para a administração do hospital, que foi fundado em Bauru em 1915 pela Sociedade Beneficente Portuguesa (formada em 1914). Mas somente em 1928 ocorreu a inauguração oficial do hospital, com oito leitos.