Saúde

Violência é questão epidemiológica

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

O aumento da criminalidade nas últimas décadas transformou a violência em problema de saúde pública. Suas vítimas congestionam hospitais e prontos-socorros. Seus custos sobrecarregam o sistema e suas seqüelas exigem anos de reabilitação. O assunto virou tema de discussão para alunos da disciplina de Epidemiologia da Universidade do Sagrado Coração (USC) de Bauru.

De acordo com a pesquisadora Maria Helena de Mello Jorge, professora da Faculdade de Saúde Pública de São Paulo, o Brasil registrou um milhão de mortes no ano 2000. Deste total, 12% dos óbitos foram causados por fatores externos (agressões e acidentes).

“A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera fatores externos todos os atos intencionais ou não que levam à mortalidade ou morbidade (sobrevivência com seqüelas) e não são propriamente doenças”, explica Maria Helena.

Os homicídios aparecem em primeiro lugar neste ranking, com 45 mil mortes. “Eles eram a quarta causa de morte em 1960 e hoje são a primeira causa”, salienta a professora. As armas de fogo preponderam nestes crimes. Em algumas regiões do País, 90% dos assassinatos são praticados com elas.

Segundo a pesquisadora, a primeira conseqüência da violência é o congestionamento das instituições de saúde. Os fatores externos invariavelmente exigem atendimento emergencial. As cirurgias costumam ser complexas e arriscadas. Boa parte dos pacientes precisa passar algum tempo nas Unidades de Terapia Intensiva (UTI) e muitos serão encaminhados posteriormente às terapias de reabilitação.

“O gasto/dia com uma vítima de fatores externos é 50% superior ao custo médio das demais internações (causas naturais), porque os procedimentos exigidos são mais caros. O gasto/dia para uma vítima de causa natural é de R$ 68,00 em média, enquanto a causa externa requer R$ 101,00 por dia”, observa.

Maria Helena ressalta, porém, que todos estes números são apenas a ponta de um enorme iceberg. Ela destaca que as principais vítimas dos fatores externos são os jovens. Entre os 15 e 19 anos, 80% dos óbitos ocorrem por agravos externos.

“E quanto custa a perda de uma vida? Quanto custa ter um jovem seqüelado? O que se enxerga, o que se consegue contabilizar são os gastos diretos, mas o que vem atrás disso, o que está por baixo é muito maior e nós não conseguimos pesar”, afirma.

Na opinião da professora, a epidemiologia da violência vai muito além da saúde pública. É um problema multicausal e que precisa de esforços multi-sensoriais para ser revertido.

“Quando pensamos em fatores predisponentes, pensamos em déficit educacional, em falta de emprego, na pobreza, nos vícios, no comércio ilegal de armas, na promoção da violência pela mídia, na pouca recreação oferecida por espaços públicos. Qual deles é a causa? Todos. A mistura disso se reflete nos números, por isso é importante estudar tudo”, avalia.

Vítimas silenciosas

Maria Helena observa que a violência real é infinitamente mais grave do que mostram os números. Ela lembra que boa parte das vítimas permanece silenciosa diante das agressões. Um exemplo, é a criança que é levada às pressas ao pronto-atendimento com ferimentos graves. “O pai diz que ela caiu do sofá, mas você investiga e descobre que a família tem história de maus tratos”, exemplifica.

O mesmo acontece na violência sexual, na agressão que muitas mulheres sofrem de seus maridos, nos maus tratos aos idosos. “Hoje, o Conselho Regional de Medicina recomenda aos pediatras e médicos da família que se habituem a examinar melhor os pacientes que aparecem com ferimentos. É preciso verificar se não há violência camuflada. São vítimas que se calam”, lamenta.

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