Seja numa sala lotada ou praticamente vazia parece que a maioria dos freqüentadores dos cinemas pensa que estão assistindo ao filme no sofá de sua casa.
Risos fora de hora, conversas o tempo todo, chutes nas costas do vizinho da frente, celulares tocando, gente atendendo, o mastigar das pipocas, o abrir das latas, o desembrulhar das balas... Isso tudo quando o cinema também resolve não colaborar e falha a exibição, “edita” a fita, corta os créditos, deixa o filme sem som. Aí, a casa cai e não se tira a razão do freguês.
Um show de vaias, gritos e até palavrões se inicia e é difícil controlar os ânimos mesmo depois que a fita volta a ser exibida.
Em mais de uma década morando em Bauru, sempre tive sorte de enfrentar poucas e rápidas interrupções, mas em contrapartida, no início do ano durante a exibição de “Femme Fatale”, de Brian de Palma a fita parou cinco vezes e por duas delas as luzes foram acesas. Ninguém se explicou ou pediu desculpas, mas alguns espectadores se levantaram e foram embora furiosos.
Passeio e matinês
Nos cinemas localizados em shoppings centers, o problema é ainda maior, pois ir ao cinema faz parte do giro, como se fosse uma visita obrigatória. Entretanto, o público que está a passeio, principalmente a moçadinha, se esquece completamente de que existe alguém sentado ao seu lado ou numa fileira bem próxima que se deslocou até ali, muitas vezes enfrentou uma fila quilométrica para assistir a uma película e observar detalhes que vão além da beleza dos astros e estrelas de Hollywood.
Outro problema sério são as matinês. É claro que em filme infantil é preciso ir de espírito preparado. Mas o interessante é que muitos pais e acompanhantes acabam dando um “show” maior que as crianças. Aliás, muitas delas já chamam a atenção dos companheiros, quando o barulho fica além da conta.
Pipocas
A mania das pipocas no cinema começou com os americanos e hoje já não se dissocia uma coisa da outra. Muitas pessoas já contabilizam o dinheiro do cinema, como sendo o pacote completo: filme, pipoca, refrigerante e bala.
Para desespero de muitos cinéfilos, as grandes salas das redes de cinema, que já se proliferaram nas capitais e começam a invadir o Interior têm o maior esquema para vender pipoca: baldes plásticos imensos, que dão direito a refil, toda vez que você encara levar a “bacia” ao cinema. Outras já vendem pipoca dentro da própria sala.
Apesar de apaixonado por pipoca Hector Babenco, o diretor de “Carandiru”, afirma que detesta ouvir a onomatopéia de sua mastigação durante a exibição de um filme e muitas vezes deixa de assistir a uma fita pela falta de respeito da platéia.
Falhas humanas
Entretanto, o que mais revolta os responsáveis pelas salas de cinema e a platéia da sessão seguinte é a sujeira que o público anterior deixa na sala.
Segundo a gerente dos cines Bauru 1 e 2, Suzana Mara Rodrigues Rosa, a cada intervalo é feita uma limpeza onde se recolhem latas e papéis do chão e das poltronas e tenta-se retirar todas as pipocas que ficaram nos assentos. “Em dia de movimento, como finais de semana e quarta-feira, são dez sacos de 100 litros de lixo de cada sala. Nove e meio retirados pelos funcionários. Pois as pessoas não aprendem a jogar suas coisas na lixeira. Aliás, ainda tem gente que fuma dentro do cinema! Esses nós temos que expulsar se for advertido e não parar”, conta. Ela revela que o carpete do cinema foi retirado justamente para evitar que aconteça um incêndio em uma das salas.
Rosinéia Vieira também aponta a mesma proporção de lixo retirada de suas salas pelos funcionários e diz que pelo menos um cliente por semana é expulso de uma sessão por indisciplina. “O público está cada dia pior, parece que vem ao cinema para conversar. Antigamente as pessoas até se arrumavam para vir ao cinema. Era um evento. Hoje, não existe mais aquele glamour”, relata a gerente dos cines Center 1 e 2, que há 15 anos trabalha com cinema.
Elas atribuem aos operadores os cortes nos filmes e problemas com som. “Não pode acontecer, a gente faz de tudo para que não aconteça, mas quando um projetor está quebrado avisamos antes, quando está tudo ok é culpa do operador. Falha humana mesmo”, admite Suzana.
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Para comprovar a tese do mau comportamento nos cinemas, o Caderno Ser foi a três sessões nas duas últimas semanas e, propositalmente, em horários alternativos e sem assistir a filmes arrasa-quarteirões como “X-Men” e “Matrix Reloaded”
Cine Bauru 2 Segunda-feira, 18h Filme: “Carandiru”
Havia apenas 13 pessoas na sala e o Metallica fazia fundo musical. Mas o barulho das pessoas mastigando pipoca era mais alto que bateria de Lars Ulrich e as poderosas guitarras e voz de James Hetfield em “Enter Sandman”.
Pontualmente, às 18h, a projeção foi iniciada. Entretanto, os atrasados com dificuldade em escolher uma poltrona vaga num universo de mais de 200 cadeiras vazias faziam questão de discutir em voz alta qual lugar ocupar.
Latas de refrigerante eram abertas e algumas chegaram a “cair” no chão após ficarem vazias.
A projeção, durante quase uma hora, ficou levemente tremida. Às 19h30, riscos negros na vertical cortavam a cena.
Como o público era formado em sua maioria por adultos e casais, não tivemos ataques histéricos nas aparições do galã Rodrigo Santoro. Mas em outras sessões, o cinema veio abaixo principalmente quando seu personagem, o travesti Lady Di se casa em cena com o detento Sem Chance (Gero Camilo) e beija o marido na boca. Sob este aspecto foi uma exibição tranqüila e a platéia reduzida foi beneficiada por uma apresentação sem intervalos. Mas é lamentável que dos muitos sacos de pipoca e latas de refrigerantes, adquiridos no início do filme só um jogo foi parar no latão de lixo.
Cine Center 2 Quinta-feira, 20h Filme: “Como Perder um Homem em Dez Dias”
Entre muitos acessos de tosse, barulho de pipoca e conversa, a projeção começou às 20h05. Pouco mais de 40 pessoas ocupava a sala, que já estava suja.
Como o filme era uma comédia, o riso foi inevitável durante muitas cenas. Uma briga também motivou reações mais entusiasmadas. Mas às 21h11 uma luz além do normal saiu da sala de projeção e permaneceu por algum tempo. Apesar do incômodo ninguém chiou.
No final do filme, mal começaram a subir os créditos, as pessoas já se levantaram e foram embora, mesmo aquelas que estavam ao lado de espectadores que se interessam pelas informações adicionais da produção. É estranho, mas parece estar errado quem opta por saber quem fez o quê no filme.
No quesito limpeza, apenas dois casais jogaram latas e papéis no lixo.
Cine Bauru 2 Domingo, 17h15 Filme “Recém-casados”
Éramos aproximadamente 60 pessoas na sala com muitas pipocas pelo chão.
Às 17h11 começa o som do Iron Maiden e os ruídos das latas, pipocas e muita conversa, apesar do som do cinema estar muito alto. O trailler começa a ser exibido às 17h14, a conversa continua e as pessoas atrasadas fazem questão de ficar escolhendo o lugar em voz alta.
O filme começa a ser exibido às 17h27 e só às 18h16 paramos de ouvir o barulho das pipocas.
Logo depois, uma barata em cena no rosto de um personagem arrancou gritos enojados. Até aí se dá um desconto. Mas um celular tocando no meio do filme, às 18h20, é inadmissível.
Minutos mais tarde, às 18h26, a fita parou e obviamente um longo “Ahhh!!!!” ecoou pela sala. Mas às 18h46, o filme falhou novamente e ninguém conteve a vaia. Até o final da fita, tosses e barulho de papéis de bala também entraram em cena.
Ao final da sessão, de todo mundo que estava na sala, apenas uma garota de rabinho e blusa branca jogou no lixo o saco de pipoca na lixeira que estava cheia. Afinal, a turma da primeira matinê havia passado por lá.