Ser

Ensinar a viver é o grande desafio

Da Redação
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Sinceridade nos relacionamentos, no lar, senso de disciplina e preparo para a educação dos filhos, os próprios ou mesmo os dos outros, são alguns dos ingredientes fundamentais para uma boa educação, segundo o diretor-executivo do Instituto Anima Mundi de Desenvolvimento Humano e Social Luís Henrique Beust, educador com pós-graduação em Planejamento do Desenvolvimento na University College (Londres) e Gestão de Assentamentos Humanos na Faculdade Latino-americana de Ciências Sociais (FLACSO-UNESCO), além de ser consultor internacional em educação e desenvolvimento junto ao Ministério de Educação e Cultura (MEC) e ao Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (ONU/PNUD).

O educador ministrou recentemente, em um colégio de Jaú, a palestra “A Comunicação do Amor entre Pais e Filhos: a atenção e a disciplina” e defendeu a idéia de que demonstrações de amor e carinho dos pais para com os filhos são fundamentais para o desenvolvimento das crianças.

“Os filhos precisam tanto de pais que os amem quanto de pais que estejam bem preparados”, argumenta. Um erro comum, de acordo com Beust, é confundir castigo e disciplina. “Castigo é apenas a pior ferramenta da disciplina, que é feita de muitos outros elementos”, explica o diretor da Anima Mundi uma instituição sem fins lucrativos dedicada à Educação para a Paz.

Aplicando conhecimentos deste importante campo da educação na prevenção e resolução de conflitos, a serviço de escolas, famílias e empresas.

Em entrevista realizada com Beust antes da palestra, ele nos dá uma aula de vida.

Imprensa - Na sua opinião, qual é o motivo de os filhos não se sentirem amados? Luís Henrique Beust - Isso acontece devido à inabilidade dos pais em demonstrar seu afeto, carinho e amor numa linguagem que seja entendida pela criança e ao despreparo deles para enfrentar as várias fases e as diferentes circunstâncias desde o nascimento até a idade da maturidade. Os pais precisam ter conhecimento de psicologia infantil, algo que não deve ser apenas do domínio de profissionais da saúde mental, psicólogos infantis, psicopedagogos ou educadores.

Os filhos precisam tanto de pais que os amem quanto de pais que estejam bem preparados. São coisas necessárias. No mundo contemporâneo, muito da sabedoria que existia tradicionalmente sobre a educação das crianças se perdeu porque as famílias não convivem em grandes grupos, as comunidades se fragmentaram e as experiências do passado não são mais transmitidas para as próximas gerações como eram antes.

O que a gente percebe no mundo todo e na sociedade industrializada são gerações e gerações de pais despreparados para lidar com este ser tão precioso e tão frágil que é uma criança.

Imprensa - O aumento de separações de casais está interferindo nesta realidade? Beust - Depende de como a separação acontece. Existem vários estudos que demonstram que filhos de casais separados não são necessariamente mais problemáticos que os filhos de casais não separados. Tudo depende muito da relação de respeito e de afeto entre pai e mãe.

Se pai e mãe continuam casados, mas todos os dias, aos gritos, às turras, às ofensas, isto tem um efeito muito mais prejudicial sobre os filhos do que se eles se separassem. Agora, se um casal se separa, não consegue mais conviver bem, mas se respeitam, o pai não fala mal da mãe na frente dos filhos, a mãe não fica falando mal do pai na frente dos filhos, as crianças conseguem passar pela separação bem.

É preciso ficar claro para todos que, embora eles não sejam mais um casal, vão continuar sendo família sempre. Sempre vão ser pai, mãe e filhos, mesmo que constituam outras famílias.

Esta perspectiva é muito vital, eu diria até mesmo fundamental. A separação, portanto, não é algo desejado. O preferível é que uma família esteja feliz com todos juntos, mas quando isto não é possível, pelo menos os casais deveriam tentar ser civilizados e transmitir isto para as crianças. Neste caso, a dor da perda do lar pode ser superada de um modo mais fácil.

Imprensa - Habitualmente o senhor fala a algumas centenas de pais sobre disciplina. Por que tanta dificuldade em lidar com o assunto? Beust – Primeiro, porque normalmente os pais confundem disciplina com castigo, e não é assim. Castigo é apenas a pior ferramenta da disciplina, que é feita de muitos outros elementos. Basicamente, a disciplina começa quando a criança se sente amada.

Nenhuma criança que se sente desamada ou desrespeitada consegue ser disciplinada. Só se consegue disciplinar uma criança que esteja tranqüila com relação ao seu valor, ela responde aos anseios de bom comportamento dos pais. Na verdade, como estávamos falando, a comunicação da criança é comportamental, então a indisciplina é a forma de expressar: “Eu estou sofrendo”, “Estou com um problema”. Ela não consegue verbalizar isto, não consegue dizer: “Eu estou angustiado por causa do desemprego do pai!” , “Estou angustiado pela doença da vovó!”, “Estou triste devido às brigas entre o pai e a mãe!”. Ela não consegue dizer isto, então acaba se comportando mal. Este comportamento é um grito que ela está dando como forma de pedir ajuda e por isso é tão importante entender tal atitude. Agora, se os pais garantem este amor, esta atenção, se cuidam em prestar mais atenção ao bom comportamento do que no mau comportamento, as coisas mudam. É fundamental haver regras no lar, que as crianças tenham disciplina no sentido de horários adequados, do que a gente chama de “a constituição do lar”.

Cada lar deve estabelecer sua constituição, quais são as dez regras que todo mundo nesta casa obedece, regras com relação ao horário de TV, horário de saída e de chegada têm que ser estipuladas por todos.

Através disto se consegue tranqüilamente uma excelente disciplina. O filho entra na adolescência de uma maneira serena e os pais desfrutam-na sem problema algum. É uma questão de cuidado: assim como nós tratamos uma boa planta e precisamos dar cuidado à criança; uma criança que não tem um bom comportamento é uma criança mal cuidada.

Imprensa - É válido deixar que os filhos percebam que os pais não são super heróis? Beust - Isto é excelente. Os encontros de capacitação de pais, em todos os lugares onde a gente tem estado, demonstram que são terapêuticos, porque muitos pensam que os problemas só acontecem dentro dos seus lares, especialmente porque filhos pré-adolescentes e adolescentes têm um chavão universal de dizer: “Ah! Só eu não posso! Só você não deixa. Todo mundo vai só eu que não.” Os pais acabam se sentindo acuados, achando que são os piores do mundo. Quando encontram outros pais com as mesmas reclamações, aquilo os desafoga e eles dizem: “Bom, o problema não é só meu!” Compartilhar estes sentimentos é muito importante para os pais. Eles formam uma espécie de grupo de auto-ajuda na educação de crianças. A sinceridade com relação às emoções e os sentimentos do dia a dia é vital. Nós não devemos transmitir mensagens cifradas, devemos sempre levar em conta que as crianças estão tentando entender o mundo e o mundo é misterioso. Elas estão tentando identificar os significados, os valores nos quais elas podem se apoiar. Se a mãe está chorando, triste, aborrecida, sei lá, por algum mau comportamento do marido ou problema no trabalho e o filho percebe que ela está assim angustiada, ansiosa e pergunta: “Mãe, o que é que aconteceu?” .

A mãe diz: “Não, nada eu tô bem!” A criança vê que ela não está bem, então ela foi desautorizada pela mãe na sua percepção. É preferível a mãe dizer: “’Eu estou muito chateada, triste, mas isto vai passar”, e reconhecer o estado no qual ela se encontra. Quando pai e mãe brigam - e os filhos logo percebem que eles brigam, porque eles não se olham nos olhos e este é um dos primeiros sinais comportamentais de que a gente está mal com alguém - vão perguntar o que aconteceu e eles dizem: “Não, não é nada!” - “Ah! Mas vocês brigaram...” “Não, quem é que disse que nós brigamos??” E eles percebem que os pais brigaram. É preferível dizer: “Ah... Eu me desentendi com o papai...” ou “Eu me desentendi com a mamãe, mas depois a gente vai fazer as pazes e vai passar”.

Desse jeito, a criança entende que a vida tem ciclos, tem tempo da gente ficar de mal de alguém, depois fazer as pazes porque gosta desta pessoa o suficiente para se reconciliar. A transparência não ajuda apenas as crianças, mas também os pais.

Imprensa -Quais sugestões o senhor daria para quem busca melhorar o relacionamento com os filhos? Beust - Bem, muitas coisas poderiam ser ditas, mas eu acho que a fundamental é que nós deveríamos nos empenhar com muita seriedade na educação dos filhos. A maior tarefa que um ser humano pode realizar na face da terra é educar seus filhos ou os filhos de outra pessoa. Porque não existe no nosso planeta nenhum outro ser mais indefeso do que um filho de homem e mulher. Todas as outras espécies, de peixes a lagartos, rinocerontes, elefantes, pássaros, depois de uma semana , ou até mesmo de algumas horas já consegue viver no meio ambiente, se defender, procurar alimento, o que não acontece com os nossos filhos.

A criança humana é absolutamente indefesa por longos anos, não existe outra comparação no mundo. É uma fragilidade tremenda. Na verdade, a infância só termina aos 18 ou 21 anos de idade. Muitos pais acham que o adolescente já é um adulto pequeno. Não é. Todos os estudos demonstram que o adolescente é uma criança grande. Ele tem o perfil emocional e psicológico de uma criança, e tem a mesma dependência dos pais que uma criança, embora tenha gritos arrogantes de liberdade, que é da natureza do adolescente.

Eu diria que o fundamental é nós nos prepararmos. Estudamos tanta coisa - matemática, física, biologia, nos preparamos para o vestibular e estudamos para o trabalho, mas para a coisa mais vital com a qual nós vamos deixar a maior marca na face da terra por gerações e gerações, que é a educação de nossos filhos, nós não nos preparamos.

É importante os pais se darem conta que necessitam de capacitação e que ela pode fazer uma diferença imensa no dia-a-dia e na felicidade de ambos os lados. Uma vez perguntaram para um grande educador americano quando é que deveria começar a educação de uma criança e ele respondeu “vinte anos antes dela nascer”. Os pais precisam se preparar muito antes, pensando em como vai ser a educação de seus filhos.

Imprensa - Por que o senhor considera os valores éticos tão importantes na formação do indivíduo? Beust - Porque não adianta o desenvolvimento acadêmico, tecnológico e científico se ele não for acompanhado por um correspondente desenvolvimento ético e moral.

Quanto mais uma pessoa tiver conhecimento, for capaz, mas quanto menor a ética e o seu comportamento moral, pior esta pessoa vai ser, enquanto que uma pessoa boa, de boa índole, de bom caráter, com uma ética adequada na vida, independente de sua colocação ou desenvolvimento, ela será sempre útil para a sociedade.

É Fundamental sabermos que este desenvolvimento tem que vir lado a lado. Os maiores males feitos pela humanidade foram feitos por pessoas muito inteligentes, muito capazes, muito talentosas, mas sem nenhum referencial ético adequado. Uma característica dos programas de capacitação do Anima Mundi é que nós tentamos trazer conhecimento científico, acadêmico contemporâneo de ponta de várias áreas do conhecimento e associar a isto as grandes tradições éticas da humanidade.

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