O eletricitário Angelo Pereto Sobrinho quer realizar nos próximos dois anos um antigo sonho. Ele pretende criar, nos fundos da casa em que mora, um museu de geladeiras antigas. O espaço para isso já existe e precisa de algumas obras de adaptação. Doze peças, todas fabricadas entre 1947 e 1958, fazem parte do acervo do colecionador. Conhecer essas verdadeiras raridades é como fazer uma viagem ao passado.
Pereto Sobrinho, que se mudou para Bauru há quatro anos, fala com paixão de cada uma delas, reformadas e conservadas em perfeito estado. Segundo ele, o interesse vem de muito tempo. “Desde pequeno, eu tinha a mania de olhar a geladeira quando visitava a casa de alguém”, relata.
Ele conta que prefere as fabricadas nas décadas de 40 e 50 porque a infância foi o período que mais o marcou. “Essa época me prende muito. Vivi muita coisa boa em São Paulo e lembro com detalhes. Cheguei a andar de bonde para ir de Pinheiros até a Praça Ramos. Morava próximo ao estádio do Morumbi em 1962 e a maioria dos torcedores ia aos jogos de terno e chapéu. Procuro ter tudo que lembre aqueles tempos.”
Na lista de antigüidades estão ainda aparelhos de rádio e televisão, um carro e outros itens.
A primeira geladeira antiga que o eletricitário comprou para guardar em casa está passando por uma reforma. “Ela é muito rara. É um modelo sueco que era montado no País. Vieram poucas unidades para cá”, diz.
A preferida dele, no entanto, é também a mais antiga da coleção. “Eu vi poucas como essa, que foi fabricada em 1947. Até minha esposa ficou apaixonada por ela, que trabalha como um relógio”, conta.
A eficiência, aliás, é apontada por ele como uma das principais vantagens desses modelos. “Essa, por exemplo, é uma DC 94, capaz de gelar uma cerveja em 15 minutos”, afirma, apontando para uma das peças da coleção.
Outras delas, que o colecionador guarda na cozinha, podem servir também como estufa. “Os alimentos verdes são colocados na gaveta de baixo. O calor do motor faz com que eles amadureçam mais rapidamente”, revela.
Pereto Sobrinho diz que recebeu duas geladeiras doadas e comprou as restantes. “Tenho um amigo que me ajuda no carreto. Vamos até cidades como Itapetininga e Sorocaba para garimpar. Ele sabe que eu gosto e que não faço isso para ganhar dinheiro”, declara.
Caminhão de mudança
Essa busca insaciável acaba provocando algumas manias inusitadas. “Toda vez que eu vejo um caminhão de mudança, paro para saber se a geladeira é redonda. Se for, já vou atrás do dono para negociar. Também não consigo passar por uma cidade sem pesquisar se existe algum lugar que trabalhe com antigüidades”, afirma.
Ele conta que as peças são encontradas nos mais variados lugares. “Uma delas estava em um estábulo, junto com os cavalos. O proprietário disse que não tinha coragem de cobrar por ela. Fechei o negócio oferecendo R$ 20,00 para ele tomar umas cervejas. Hoje ela está aqui, inteira”, lembra.
Para o eletricitário, o preço dos modelos é incalculável. “Já me ofereceram R$ 700,00 por uma delas, que tem valor de mercado de, no máximo, R$ 150,00. Enquanto estiver em boas condições financeiras, não vendo por dinheiro nenhum”, garante.
Ele estima que os gastos para reformar cada geladeira giram em torno de R$ 180,00. “São R$ 150,00 para a pintura e o restante para aniquilar alguma peça ou maçaneta. Normalmente, o estado do motor é bom”, afirma.
Para protegê-las, ele cobre cada uma delas cuidadosamente. Nos finais de semana, costuma escolher uma para colocar em funcionamento. “Ligo uma só para não sobrecarregar a rede elétrica, pois o gasto de energia é 20% maior do que o gerado pelas mais modernas”, calcula.
Na época do racionamento de energia elétrica, o colecionador foi obrigado a adotar outra prática. “Passei a ligar uma delas por mês”, relembra. Segundo ele, mesmo se não fosse possível colocá-las em funcionamento, o prazer seria o mesmo. “O simples fato de olhar para elas já me satisfaz”, revela.
Pereto Sobrinho diz que o espaço físico da casa é a única barreira capaz de deter essa paixão pelas geladeiras antigas. “Vou até onde ele permitir. Calculo que terei, no máximo, 15 peças”, avalia.
Ele próprio admite, porém, que pode rever esses planos. “Uma alternativa seria utilizar barracões de amigos para guardá-las, mas acho que aí já seria loucura. É que se eu acabar encontrando alguma que me interesse mesmo, vou pegar, não tem jeito”, afirma.
Apaixonado também por futebol, ele utiliza uma comparação esportiva para tentar explicar essa “fome” por geladeiras antigas. “Questionar quantas eu quero ter é a mesma coisa que perguntar a um artilheiro quantos gols ele quer marcar. Eu não sei, elas vão pintando.”
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Origens
O primeiro compartimento frigorífico do mundo foi inventado pelo australiano Thomas Mort, por volta de 1840. Os custos para a produção em série da máquina, no entanto, não atraíram nenhum investidor.
Mort também passou 30 anos tentando montar uma instalação similar em um navio de transporte. O objetivo era fazer com que os produtos perecíveis resistissem mais tempo às viagens longas. Problemas técnicos acabaram fazendo com que ele desistisse da idéia.
O primeiro modelo doméstico só foi comercializado a partir de 1923, quando a General Eletric lançou a novidade.