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Reflexões na hora amarga


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O noticiário difundido pelas agências internacionais dão-nos conta de que, no projeto de Constituição a ser adotado pela União Européia, constituída, então, em uma espécie de Estado único, regido pela citada Constituição, figuram menções às contribuições à civilização de Europa, oriundas das civilizações grega e romana, pelo iluminismo oitocentista e por uma pretendida vocação humanitarista intrínseca aos povos do Velho Continente. Nem uma única palavra, pasme o leitor, à contribuição do cristianismo, na verdade, fonte e alicerce da civilização ocidental que, com berço no referido continente, espairou-se pelo, praticamente, mundo inteiro.

Como se vê, um achincalhe à consciência dos povos que, no século passado, deslocaram parcelas ponderáveis das suas juventudes para irem morrer na 2.ª guerra mundial, sob a idéia fundamental de que iriam fazê-lo para salvar a civilização ocidental cristã, ao mesmo tempo que a soberania da Polônia e a democracia...

E, sabe-o o leitor, muitos milhões de moços perderam a vida nas batalhas então travadas para derrotar o nazismo, que perseguia ferozmente os judeus, não diretamente os cristãos, além de ter invadido a Polônia à qual pretendia retomar o chamado “corredor polonês”, parte, como se sabe, do território da Prússia, adjudicada à Polônia depois da derrota alemã na 1.ª guerra mundial.

Anteriormente, já havia o nazismo anexado à Áustria, bem como Checoeslováquia e região dos sudetos, em sua ânsia expansionista, sob a batuta da férrea e desumana ditadura hitlerista. Foi fácil, então, levantar a bandeira da defesa da civilização ocidental cristã, da soberania da Polônia e da democracia.

Pois agora, sobre o sangue dos que acreditaram nesses pretextos, transformados em supostos motivos, pretende-se elidir a influência dos alicerces reais da civilização a que pertencemos, que, partindo do Oriente Médio, foram construídos pelos evangelizadores, inicialmente em grande número, judeus convertidos ao cristianismo.

Cristianismo cuja ética fulminava como pecaminosa toda atividade econômica que tivesse como motivação central o lucro, e não o bem de quem a praticava e dos seus dependentes e semelhantes. Tal ética, contraposta aos interesses dos que viviam para o lucro, criou a antinomia que denominamos de “motor de eficácia histórica”, a qual, ao longo do tempo, tem ensejado aos adoradores do “deus” mercado a realização de esforços para esvaziar a ética que lhes contraria os interesses.

Esforços coroados de sucesso exatamente pelo iluminismo, ao qual se deveu o famoso artigo 6.º da “Declaração” promulgada pela Assembléia Nacional francesa, em 1791, segundo a qual a lei é a expressão da vontade geral e, em outros incisos: “Ninguém será obrigado a fazer ou a deixar de fazer alguma coisa, a não ser em virtude de lei”. O artigo 6.º esclarecia também que a vontade geral poderia ser expressa diretamente, ou por intermédio de representantes. E pouca gente deu-se conta de que, assim, na verdade o que se fazia era o desvinculamento do processo civilizatório, das suas bases culturais, ficando tudo ao sabor das preferências de maiorias eventuais, manifestadas por assembléias volúveis, manipuláveis por quem dispusesse de instrumentos hábeis para fazê-lo, tanto quanto à sua composição, quanto à natureza das leis por elas produzidas...

Agora, na Europa, a manobra está escancarada: nenhum compromisso com o cristianismo, o mesmo que a pretexto de salvá-lo, os adoradores do mercado conduziram à morte, há tão pouco tempo, milhões e milhões de jovens. Merece reflexão, sem dúvida, tão grave realidade. (O autor, Jorge Boaventura, é colaborador do JC)

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