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Sem-terra vão para margem da estrada após reintegração

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 4 min

As famílias de sem-terra que estavam acampadas no Horto Florestal, na divisa de Bauru com Pederneiras, desde abril, saíram pacificamente da área ontem, cumprindo a liminar de reintegração de posse. Os sem-terra, do Grupo Terra Nostra, que tem apoio da Central Única dos Trabalhadores (CUT), montaram as barracas na beira da estrada que liga o Jardim Chapadão ao Esquadrão da Vida e dá acesso ao horto, a cerca de 1 quilômetro do antigo acampamento.

A área do horto que estava ocupada pelo grupo pertence à Ferrovia Paulista S/A, que cedeu o direito de exploração a duas empresas. A liminar concedida pela Justiça atende o pedido do loteador Luiz Carlos Pagani, que se apresentou como proprietário do terreno. Um oficial de Justiça e policiais militares acompanharam a saída dos acampados, que foi pacífica.

As famílias, 190 pelas contas da liderança do grupo, e 130 pela contagem da polícia, prometem aguardar uma decisão definitiva sobre a área do horto antes de deixarem a região, frisou um dos coordenadores do movimento, Klinger Bueno. “Temos esperança de que a área seja destinada à reforma agrária”, afirma.

Porém, eles reclamam de falta de infra-estrutura no local onde as barracas foram instaladas. “Não tem segurança nenhuma para as crianças porque na estrada passam caminhões de madeira. Também não sabemos onde vamos pegar água”, relata Itamael Paulo, diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de Bauru.

Apesar das dificuldades, os sem-terra vão continuar reivindicando terra porque não têm para onde ir, de acordo com Bueno. “Vamos ficar na beira da estrada. A luta continua. Fomos pessoas compreensivas e aceitamos a decisão judicial pacificamente”, ressalta Bueno.

Ele diz que o cumprimento da ordem judicial vem de encontro à filosofia praticada pelo movimento. “Não queremos conflitos e não vamos resistir para não contabilizar pontos negativos para nós. Acreditamos na democracia e na diplomacia. Queremos que o governo reconheça a nossa luta e destine a área para reforma agrária”, frisa.

A diplomacia empregada pelos acampados foi reconhecida pelo oficial de justiça Francisco Reinaldo Guerra, que deu cumprimento à ordem do juiz da 1.ª Vara Cível de Pederneiras, Gilmar Ferraz Garmes. “Os acampados saíram de forma pacífica. Tiveram bom senso e souberam negociar. Foram compreensivos conosco”, afirma.

Porém, por volta das 10h ocorreu um princípio de impasse. A nova área escolhida para montar o acampamento também fazia parte da liminar concedida pelo juiz. Tanto o oficial de justiça quanto acampados e policiais militares consultaram o mapa para evitar que a ordem judicial fosse descumprida. Após a consulta do mapa, o princípio de impasse foi desfeito e os sem-terra ocuparam a beira da estrada.

A Polícia Militar acompanhou a desocupação da área com cerca de 60 homens e nove viaturas. As negociações entre o major Pedro Batista Lamoso, coordenador operacional do 4.º Batalhão da Polícia Militar do Interior, e os coordenadores do acampamento foram importantes para que a reintegração de posse fosse pacífica.

Sete caminhões e alguns homens contratados pelos loteadores da área ajudaram o grupo a transportar as barracas e seus pertences para a nova área ocupada. As propriedades rurais da região estavam todas com vigias para evitar que fossem invadidas. As famílias acampadas receberam duas cestas básicas há menos de um mês. O único produto que faltou foi o leite em pó.

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Lágrimas nos olhos

A ex-bóia fria Olga Dias de Moura, 63 anos, lamentou o fim do acampamento no horto. “É triste ver que há tantos com muitos e muitos com tão pouco. Viemos plantar e não conseguimos. Estamos procurando um jeito de viver honestamente, mas não temos terra para trabalhar”, diz.

A mulher, que tem 11 filhos e 12 netos, diz que na cidade passa necessidade e fome. Ela se emocionou e chorou ao ter que desmontar a barraca que ocupava desde 30 de abril.

Tímidos cartazes com frases de protestos foram mostradas para a imprensa pelas crianças acampadas. Dois deles pediam a ajuda do judiciário. A destinada às autoridades dizia: “Não deixem que o dinheiro compre a Justiça de nosso País, inclusive a de Bauru e de Pederneiras referente ao horto”.

Um outro cartaz pedia para que o juiz fosse justo: “Senhores Juízes de Pederneiras: sejam justos, pois não sabemos tanto quanto vocês que o horto de Aimorés é destinado à reforma agrária.”

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