Araraquara - Por maiores que tenham sido os esforços e avanços da revolução sexual dos anos 60 e 70, o universo da sexualidade ainda permanece um tema em que a desinformação e o conservadorismo predominam.
Pelo menos é o que diz a dissertação de mestrado “Sexo na universidade: um estudo sobre a sexualidade e o comportamento sexual do adolescente universitário”, apresentada pela psicóloga Maria Cristina Zampieri, na Faculdade de Ciências e Letras (FCL) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), câmpus de Araraquara (125 quilômetros a Nordeste de Bauru).
Diante de indagações sobre o primeiro beijo, relação sexual, parceiros, contraceptivos, gravidez e aids, entre outras, os 1.067 entrevistados, jovens universitários com idade entre 18 e 23 anos, de várias regiões do Estado de São Paulo, revelaram possuir pouca informação.
Essa constatação contradiz a expectativa baseada nas relações sociais que preconizam a liberdade no plano da sexualidade. “Os jovens mantêm condutas vinculadas às regras convencionais”, diz Maria Cristina, que, em seu doutorado, pretende enfocar a questão da sexualidade especificamente entre alunos da Unesp.
A pesquisa mostra um descompasso entre o relacionamento social erotizado presente na mídia e a maneira como os jovens efetivamente se comportam em suas relações afetivas.
A psicóloga acredita que a falta de diálogo entre pais e filhos estaria na origem de muitos desses conflitos. “Sem abertura para discutir os problemas em casa, os jovens têm o hábito de sanar suas dúvidas com os amigos mais ‘experientes’, perpetuando, desta forma, a desinformação”, afirma.
Segundo o psicólogo Paulo Rennes Marçal Ribeiro, orientador do mestrado e coordenador do Núcleo de Estudos da Sexualidade (Nusex), do Departamento de Psicologia da Educação da FCL, o estudo tem o mérito de enfocar sem rodeios as práticas sexuais no meio universitário.
A dissertação também revela que 50% dos jovens entrevistados acreditam que a mulher deve mesmo ser educada de forma diferente do homem. “Décadas após a chamada revolução sexual, isso é realmente surpreendente”, diz a psicóloga.
Ainda de acordo com a pesquisa de Maria Cristina, homens e mulheres concordam que a virgindade, sobretudo a feminina, tenha deixado de ser requisito para o casamento. Porém, quando o assunto é o uso de métodos contraceptivos, os rapazes mantêm uma postura machista, atribuindo às moças a responsabilidade.
O argumento masculino contra a idéia da utilização de preservativos é que a solicitação da mulher de que eles utilizem a camisinha revela a falta de confiança dela no parceiro.
“Os rapazes vêem a camisinha apenas como uma prevenção contra a aids. E nunca acreditam que eles possam ser atingidos pela doença”, comenta Maria Cristina.
Quanto ao papel de jovens e moças no relacionamento, segundo a pesquisa, as opiniões se dividem entre as formas tradicionais de conduta, pelas quais o homem se coloca como aquele que busca a sua parceira livre e abertamente, e as atuais, com a mulher manifestando, com maior liberdade, as suas preferências.
Os conflitos apontados pela pesquisa entre atitudes mais conservadoras, como a importância atribuída à fidelidade, e menos convencionais, como uma maior liberdade na troca de parceiros, não atingem, para a psicóloga, moças e rapazes apenas enquanto universitários, mas permanecem durante a vida adulta.
“Uma forma de enfrentar esse conflito é que o tema sexualidade passe a ocupar um lugar significativo na grade curricular escolar”, afirma Ribeiro. A pesquisa de Maria Cristina revela indicadores para que isso possa de fato ocorrer.
“Aproximadamente 70% dos adolescentes reconhecem haver falta de informação e erotização precoce no discurso da mídia”, aponta. “Acima de tudo, eles se mostram conscientes da necessidade de efetiva orientação sexual.”