Você já se imaginou medindo o céu? Pois este é o trabalho da professora do Departamento de Arquitetura da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, Léa Cristina Lucas de Souza. Ela estuda o planejamento urbano e desenvolveu, junto com dois portugueses especialistas em informática, um programa que auxilia nesta tarefa.
Na arquitetura, saber qual é a área de céu que está visível em um determinado ponto é importante para calcular o conforto ambiental de uma cidade. “Precisamos dessa medida porque a temperatura das superfícies é proporcional à quantidade de céu que podemos ver. A terra troca calor com ele e, quando se constroem muitos edifícios, a passagem da radiação é impedida”, explica Léa.
Ela conta que este é o problema que causa o aquecimento urbano. “Se, da superfície, não se vê muita quantidade de céu, isso significa que há mais dificuldades para que haja essa troca de calor e, com isso, não há o resfriamento. É o que acontece em São Paulo, onde há uma geração muito forte de calor”, afirma.
O projeto desenvolvido por ela foi um dos quatro premiados no 8.º Congresso Internacional de Computação no Planejamento Urbano, realizado na semana passada, no Japão. Cerca de 120 trabalhos do mundo todo estavam inscritos.
A professora diz que já existia um método de medição da área de céu anterior ao dela, mas que é muito caro. “Ele exige que uma foto do local a ser medido seja tirada com uma lente do tipo “olho de peixe”. Eu, por exemplo, sempre tive dificuldades para utilizar esse método por causa do preço”, conta.
A saída, então, foi criar uma alternativa mais barata. “Com um software de Sistema de Informação Geográfica (SIG), que tenha informações em três dimensões, é possível fazer uma adaptação, utilizando equações e as medidas dos edifícios”, diz.
Segundo a professora, o processo de captação dos dados que serão colocados no computador é simples. “Se você está em uma área urbana, no meio da rua, está vendo um pedaço de céu. Com as medidas dos edifícios ao redor, como tamanho e arestas, é possível fazer o cálculo”, afirma.
Parceria
A criação do programa foi possível graças a uma parceria da Unesp com a Universidade do Minho, Portugal. “Em fevereiro de 2000 fui para lá e passei um ano desenvolvendo a pesquisa”, conta.
Ela explica que o começo não foi tão fácil. “Os portugueses aceitaram fazer o projeto sem saber ao certo com o que iriam trabalhar. O próprio rapaz que desenvolveu o software levou dois meses até conseguir enxergar direito qual era a minha idéia. O que demorou mais tempo foi criar as equações. Partimos de um cenário-base-hipotético e depois fizemos um teste na cidade”, revela.
Segundo ela, o método pode ser aplicado em qualquer local, seja na área urbana ou rural. “A única coisa necessária é ter um polígono representando os prédios e saber a altura deles”, diz.
Léa conta que já foi procurada por um israelense interessado no sistema. “Ele está tentando fazer algo parecido por lá. Além disso, cerca de 200 pessoas já entraram no site para tentar baixar o programa”, declara.
A professora explica que o interesse por essa linha de pesquisa vem de muito tempo. “Desde o meu doutorado, trabalho com o fator de visão do céu. Desde então, tenho essa dificuldade de visualizar o tamanho dele que é visível. Isso já me incomodova naquela época”, afirma.
Ela quer continuar seguindo essa área de estudo e já tem um novo projeto em vista. “Quero verificar a relação entre ganho de calor e gasto de energia elétrica. É um trabalho que eu estou iniciando”, diz.
Léa está há dez anos na Unesp. Antes, foi professora da Faculdade Moura Lacerda, em Ribeirão Preto.
Susto
Antes de embarcar para o Japão, a professora Léa Cristina Lucas de Souza tinha como maior receio a pneumonia asiática, que vem atingindo aquela região. Logo no primeiro dia no Oriente, porém, ela teve que se preocupar com outro problema. “Eu estava no 8º andar do hotel quando aconteceu um terremoto. A impressão é de que o prédio iria cair. Eu saí correndo e a primeira reação foi procurar a escada”, diz.
Embora o Japão não sofra tanto com a penumonia asiática quanto outros países da região, a epidemia da doença também prejudicou o congresso. “Os organizadores pediram para que as pessoas que fossem das regiões mais afetadas não comparecessem. Muitos deixaram de apresentar o trabalho”, revela.
Léa afirma que viu poucas pessoas utilizando máscaras de proteção nas ruas. “Isso era mais comum no aeroporto”, declara.
A viagem de avião também foi um tormento para a professora. “Foram 32 horas para ir e outras 36 para voltar. Só uma escala, por exemplo, durou quatro horas”, diz.