Polícia

Vazia, cadeia revela agonia de presos

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 5 min

Grades abertas. Celas vazias. Frases solitárias escritas nas paredes. Um ar sombrio quebrado apenas pelo barulho dos vazamentos de água e um turbilhão de histórias cravadas no prédio que durante mais de 50 anos, abrigou presos de Bauru, o Cadeião, e região. Assim ficou a Cadeia Pública de Bauru após a saída dos últimos detentos para o Centro de Detenção Provisória (CDP), na manhã de quarta-feira.

O velho prédio, reinaugurado em setembro de 1986, anos após a maior rebelião registrada na casa, em 1981, já não suportava mais a superlotação e as constantes depredações frutos das revoltas internas. O pátio vazio já não lembra em nada os segredos trocados pelos apaixonados que se encontravam sob as barracas nos dias de visita.

Os problemas hidráulicos, especialmente os vazamentos e infiltrações, que durante anos persistiram no prédio, causaram bolor que marca as paredes e completa o cenário macabro que envolve a cadeia. No banheiro, garrafas pets serviam de chuveiro em algumas celas, mostrando a precariedade e a criatividade dos presos.

O chão, bastante desgastado pelo tempo, tem marcas de remendos feitos para coibir as tentativas de fuga e rebeliões - em média, duas por ano. Desde 1986, passaram pelo corredor das celas cerca de 8 mil presos. Nas camas de alvenaria estão cravados códigos que só os antigos moradores podem decifrar.

Fotos de mulheres nuas, no estilo calendário de borracharia, misturadas aos corações feitos em folhas brancas de caderno com frases escritas, em sua maioria de amor e fé, formavam um mosaico que, se decifrado, poderia revelar todo o sentimento daqueles que por ali passaram.

Porém, sem sombra de dúvida, as palavras Deus e Jesus eram as mais gravadas nas paredes das celas. Talvez por desespero ou como um pedido de socorro. Barbantes amarrados a canetas e que prendiam maços de cigarro completavam a decoração das paredes das 12 celas com capacidade para quatro presos cada uma, mas que chegaram a abrigar até 22 em dias de superlotação, quando a população carcerária alcançou os 204 detentos - a capacidade era para apenas 72.

O ex-prefeito Antônio Izzo Filho foi o preso mais ilustre da Cadeia Pública de Bauru. Por quatro anos, ele ocupou uma cela especial, em função de ter curso superior, direito previsto no Código Penal Brasileiro.

Pior momento

Um carcereiro que preferiu não ser identificado e que durante mais de dez anos trabalhou na cadeia contou que o pior momento vivido no presídio foi uma rebelião ocorrida em 2001. “O carcereiro Fernando foi pego como refém e nós ficamos muito aflitos, do lado de fora”, lembra.

Ele diz que não vai sentir saudade do local. “Mas dos amigos que fiz aqui, sim. Entre os funcionários havia muito companheirismo”, afirma. O caso de um preso marcou os anos de trabalho na cadeia. “Ele foi preso por um crime qualquer. Puxamos os antecedentes criminais dele e não deu nada anterior. Ele estava muito quieto e nós começamos a desconfiar”, conta.

A origem do preso era Goiás. “Decidimos fazer a pesquisa naquele Estado. Consultamos via fone e descobrimos que ele tinha praticado dois estupros e um homicídio. Contra ele havia dois mandados de prisão”, frisa.

A descoberta dos antecedentes criminais mudou o destino do preso. “Poucas horas depois chegou o alvará de soltura dele pelo crime que ele havia sido preso em Bauru. Caso a gente não tivesse feito a descoberta, ele sairia para a rua. Ele era um preso perigoso”, pondera.

Futuro

A cadeia ficará aberta à visitação pública até terça-feira, em horário comercial, segundo o delegado seccional Antônio Ângelo Ciocca. “Abrimos para o público ver porque há muitos mitos e histórias que envolvem a cadeia”, explica.

A desativação da cadeia, de acordo com ele, foi uma iniciativa da Polícia Civil com o apoio de vários órgãos. “As instalações estavam muito precárias. O prédio já tinha mais de 50 anos quando foi reinaugurado. O CDP vai proporcionar uma vida mais digna aos presos”, afirma.

A desocupação da cadeia foi agilizada graças ao apoio do coordenador das Unidades Prisionais da Região Noroeste do Estado de São Paulo, Antônio Paulo Veronezi, explica o delegado. “As transferências foram feitas no prazo previsto pelo governador do Estado”, diz Ciocca.

Com a inauguração do CDP, além da cadeia de Bauru, a de Reginópolis também foi desativada, na semana passada. “Só ficará ativa a cadeia de Avaí, para receber presos provisórios”, diz o delegado.

Ele ainda não sabe qual será o destino do prédio da cadeia de Bauru. “Nesta semana o imóvel passará por avaliação técnica. Só depois é que vamos decidir se o prédio será demolido ou passará por reformas”, ressalta.

Reivindicação da OAB

O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) Subseção Bauru, Edson Reis, visitou a cadeia na semana passada logo após a saída dos últimos presos. “Estamos satisfeitos de poder ver uma promessa cumprida. A desativação da cadeia pública de Bauru contou com a intervenção da OAB”, lembra.

Reis acredita que no Centro de Detenção Provisória (CDP) os presos poderão cumprir a pena de forma mais digna. “É um direito do preso ter condições dignas para cumprimento da pena. Aqui, na cadeia, a questão era até de espaço físico. O prédio não tinha mais condições de abrigar os presos”, frisa.

Frases na parede

• Deus é justo

• Deus é fiel

• Se Deus é por nós, quem será contra nós

• Ser ladrão não é só ter uma arma em punho e a maconha na mente, mas saber seu lugar e ser consciente

• As grades podem aprisionar minhas palavras, mas os meus pensamentos, não

• Jesus é pai

• Jesus vive entre nós

• Nossa Senhora Aparecida, advogada dos desesperados. Por favor, me tira daqui!

• A liberdade é um estado de espírito

• Viva a vida como ela é, com amor, paz e harmonia e Deus no coração

• Tá dominado, tá tudo dominado...

• Só os fortes sobrevivem, não de força e sim de mente

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