Nesta data, mais uma vez e até que Deus permita, há de comemorar-se o Dia de Portugal em todo o mundo, já que milhões de portugueses, esparramados pelos cinco continentes guardam este dia na alma e fazem com seja comemorado nos rincões mais distantes. Além de Dia de Portugal, o dia 10 de junho é também conhecido como o Dia das Comunidades Portuguesas, Dia da Raça e Dia de Camões.
Aos 10 de junho de 1944, na cerimônia de inauguração do Estádio Nacional, Salazar chamou esse dia, como o Dia da Raça. Mas a designação é discutível, embora perdure. Foi apenas no seguimento da Revolução de Abril, disseminada como a Revolução dos Cravos, que o dia da morte de Camões veio a conjugar-se com os festejos da nacionalidade, num conceito alargado. Por tudo isso, em Bauru, a exemplo do que ocorre nos hemisférios há muitos anos festejamos a data maior dos portugueses, como uma tradição inconteste dos descobrimentos e da epopéia lusitana, mas, também, para enaltecer um dos maiores vultos da literatura portuguesa: Luís Vaz de Camões que morreu há 423 anos em Lisboa.
Celebram os portugueses em cada 10 de junho o Dia de Portugal - isto é, fazem do dia do seu maior poeta o dia da sua Pátria. Tanto quanto sei, seremos o único povo que se revê, assim, num poeta - símbolo da sua identidade pátria e não numa outra qualquer data evocativa de uma qualquer vitória ou efeméride. É bonito que tal aconteça e é justo que assim seja, porque Camões, o grande poeta lírico, épico e dramaturgo, é considerado o maior representante do Renascimento Português. Filho de Simão Vaz de Camões e Ana de Sá, ao certo desconhecem-se com exatidão o local de nascimento e a data. Alenquer, Lisboa ou Coimbra, numa das três localidades terá nascido em 1524 ou 1525. Teria estudado na Universidade de Coimbra ou no Colégio das Artes de que seria reitor seu tio o bispo Dom Bento, embora o seu nome não se encontre no arquivo de uma ou outra instituição. Como testemunha, apenas a obra do poeta. A sua vastíssima erudição, pressupõe um estudo regular e orientado. Freqüentou o Paço, tendo vivido em Lisboa uma existência em que a boemia esteve invariavelmente presente. O desastre em que perde um olho aconteceu numa expedição a Ceuta. De seus amores várias teses, nenhuma certeza: Catarina de Ataíde, sua prima Isabel Tavares ou a formosa irmã de Dom João III, a ilustre infanta Maria.
A vida de Luís de Camões decorreu agitada e inditosa, o que conferiu à sua obra uma dimensão muito afastada do mero academismo. Catorze anos dessa vida foram passados no Oriente entre a Índia e Macau; aí conheceu a penúria, a perseguição, a incompreensão e o cativeiro, mas também a solidariedade e a fidelidade de amigos provados. Passou ainda um ano em Moçambique; é “comendo de amigos e retocando as suas Lusíadas e escrevendo muito” que Diogo do Couto o encontra. De regresso a Lisboa, em 1569, de novo teve que lutar com grandes dificuldades econômicas, para além de outras de várias ordens. Três anos após o regresso, publica o seu poema “Os Lusíadas”: testamento poético e testemunho de longa experiência e honesto estudo. Obtém a “tença régia” de 15 mil réis, em recompensa dos serviços prestados à Pátria. Morre em 1580; no seu leito de morte e na que foi uma das últimas frases que proferiu, referiu: com grande dor referido: “…Morro com a Pátria…!!”
Celebrar Camões é mostrá-lo aos lusitanos que, afinal, somos todos nós, patrícios de terra e de língua portuguesa. É que Camões soube louvar-nos na nossa real grandeza passada; soube prevenir-nos em Os Lusíadas contra vícios mil, entre eles os da corrupção, prepotência e a tirania; soube dar-se como exemplo de amor dos pátrios feitos valerosos, portador de honesto estudo, com longa experiência, coisas que juntas se acham raramente e como cantor futuro de novos feitos épicos e de novas Ilhas de Vénus, onde só é digno de receber os beijos merecidos da verdade, como diria Fernando Pessoa, quem bem ama mais o bem comum que a si mesmo.
É por tudo isso que os portugueses se sentem honrados ao identificarem-se com Camões, tornado justamente símbolo e mito de uma grandeza passada que será bom que um dia recuperemos. Lê-lo, entendê-lo e amá-lo é a melhor maneira de o celebrarmos, pois, como povo e como língua capaz de gerar algumas das mais belas páginas do mundo, segundo Amélia Pinto Pais, as suas ficarão para sempre, indubitavelmente. (O autor, Abel Fernando Marques Abreu, é delegado de polícia assistente da Seccional de Bauru e vice-presidente da Beneficência Portuguesa)