Estes são tempos surpreendentes para a política interna israelense. Pela primeira vez na história do país, Ariel Sharon, líder da direita nacionalista e primeiro-ministro, está falando em público sobre a “necessidade de pôr fim à ocupação”. Mais destacável ainda é o fato de ter dito que “chegou o momento de dividir a terra entre nós e os palestinos”. Estas declarações são de um general acostumado à guerra, Ariel Sharon, um pai-fundador do movimento pró-assentamentos, eleito duas vezes como primeiro-ministro para preservar esses enclaves judeus na Cisjordânia e em Gaza e a idéia de um “Grande Israel”.
Para o movimento israelense pró-paz este é um momento vitorioso. Finalmente, sua tenaz e ininterrupta luta deu frutos e sua ideologia, considerada uma traição antipatriótica por muitos no passado, obteve o reconhecimento - tão explícito - de seus adversários.
Entretanto, esta espetacular mudança na direita encontra a esquerda confusa. Depois de ter sido duramente derrotada nas eleições nacionais de janeiro deste ano, tanto o Partido Trabalhista quanto o Meretz, um partido social-democrata, travaram seguidas guerras internas e culparam seus próprios dirigentes e uns aos outros pela amarga derrota. Seus respectivos líderes, Amram Mitzna e Yossi Sarid, renunciaram aos seus cargos, mas as rivalidades internas impediram a eleição de seus sucessores.
Os sucessivos atentados suicidas por parte de militantes palestinos foram outro golpe no movimento israelense pela paz. Todas as vezes que existem motivos para a esperança ou algum sintoma de reinício das negociações, os grupos terroristas Hamas e Jihad golpeiam e espalham mais terror nas ruas israelenses.
Outro golpe no movimento pela paz em Israel veio da deslegitimação de Yasser Arafat, por muito tempo um aliado que foi reconhecido no decorrer de três décadas, protegendo continuamente seu nome e a boa vontade em curso de toda intifada. Ao ter de mudar de lealdades e defender a imposta nomeação de Mahmoud Abbas com primeiro-ministro, os pacifistas viram-se presos entre sua profunda crença de que o povo palestino tem direito a escolher seus próprios dirigentes sem interferências externas e a realidade ditada por George W. Bush e Sharon, que não encontrou resistência por parte da maioria dos políticos palestinos. Os pacifistas têm de aceitar silenciosamente as mudanças e, às vezes, se desculpando.
A recente iniciativa do chamado Quarteto, integrado por EUA, ONU, União Européia e Rússia, provocou uma viva discussão tanto nos movimentos pacifistas israelenses quanto palestinos. Apesar das muitas reservas e escassas expectativas, a maior parte das pessoas dentro da esquerda israelense aceitou este “mapa da paz” como a única carta nas mãos. Uma vez que a Autoridade Palestina endossou plenamente o plano, não pode senão voltar-se para Sharon e seu governo e pedir que façam o mesmo.
A esquerda israelense e o que resta do movimento pela paz estão agora em uma situação contraditória: seu maior rival, Sharon, está em vias de executar suas próprias idéias. Eles duvidam de sua sinceridade, mas não podem opor-se a ele porque está fazendo exatamente o mesmo que vêm pregando há uma eternidade. Eles se opõem fortemente às duras medidas de segurança tomadas pelo exército israelense, mas não podem protestar porque os atentados suicidas continuam.
A ironia desta situação é que se um acordo de paz for alcançado, o mérito será creditado à direita, que se opôs a tais acordos durante anos, enquanto a esquerda será deixada de lado pelos livros de história e fora do poder político, apesar de sua longa e inquebrantável luta pelo mútuo reconhecimento e pelo direito dos palestinos à liberdade e a um Estado próprio. (Sarah Ozacky-Lazar é historiadora especializada no Oriente Próximo e co-diretora do Centro Judeu-Árabe pela Paz em Givat Haviva, Israel)