Diante das diversas ações e das estratégias montadas por grupos políticos, tanto dos favoráveis quanto dos contrários à cassação do prefeito Nilson Costa, o que mais chocou foram os golpes baixos de tentativa de coação, de patrulhamento e até de cerceamento de liberdade. Fora os panfletos apócrifos que, covardemente, foram espalhados na calada da noite, na tentativa de coagir vereadores a mudarem seus votos, com acusações infundadas, também foram levantadas suspeitas até sobre a atuação dos jornalistas de alguns órgãos de imprensa da cidade. Mas tudo isso faz parte do jogo. Um jogo muito sujo, diga-se de passagem. Até a junção de três ou quatro grupos políticos diferentes (pelo menos é o que cada um deles diz), na frente para a derrubada do prefeito é compreensível.
Afinal, para essas pessoas “os fins justificam o meio”. Mas que fique claro, os fins não são os interesses coletivos, não. Os fins, neste caso, é a sucessão do governo municipal em 2004. E as composições políticas fazem parte de um processo natural, fazem parte da democracia. O que não podemos aceitar e que não faz parte da democracia é o patrulhamento dos votos de cada vereador e, muito menos, a vigilância da vida privada das pessoas, com arapongas seguindo e fotografando os passos de cidadãos.
Não sei se o vereador Clemente sabe, mas isso era prática do serviço nacional de informação (SNI), na época da ditadura militar. Também não sei onde estava o nobre vereador na época em que os partidos políticos, clandestinos, eram obrigados a realizar reuniões às escondidas, porque a Lei não permitia reuniões políticas. Mas hoje, nobre vereador, a nova Constituição Brasileira, graças à luta e morte de muita gente, não proíbe que membros de um partido se encontrem para um almoço, inclusive com a presença de vereadores, para conversarem sobre o que quiserem. Em qual Lei o vereador Clemente se apegou para justificar que um seu assessor seguisse os passos daquelas pessoas e ainda por cima os fotografasse, como se estivessem fazendo algo ilícito? Não questiono o papel do vereador como fiscalizador da coisa pública, é para isso que foi eleito. Mas daí a fazer o papel de araponga e ainda por cima assumir em sessão na Câmara que tem as fotos do encontro, como isso representasse uma ameaça aos vereadores que participaram do almoço, além de lamentável, foi também uma forma de coação.
Aliás, gostaria de saber, enquanto cidadã, se entre as funções do assessor parlamentar está a de seguir e fotografar os adversários políticos. Talvez o vereador Clemente ainda queira justificar que o grupo de pessoas seguidas são membros da administração municipal e vereadores, e daí? Todos pertencem ao mesmo partido e, mesmo que não pertencessem, onde está escrito que não poderiam se reunir? E antes que alguém fale, já vou logo esclarecer que sou jornalista e filiada ao PPS desde 1988, a minha ficha de filiação ao partido é a número um, e não estou questionando e nem criticando o trabalho do vereador Clemente na CEI da Carne. Quero crer que ele, enquanto cristão, que diz ser, deve estar em paz com sua consciência.
Só estou indignada com a utilização de práticas tão antigas, reacionárias e que são uma violência à liberdade de ir e vir. Fico aliviada que o PPS não conte mais com a filiação deste vereador. E espero que, para a próxima semana, as ações aconteçam dentro do estado democrático, sem panfletagens anônimas, sem arapongagens, sem mentiras, porque, num passado, não muito distante, todas essas práticas terminaram em bombas caseiras, atentados e prisões. Não queremos voltar ao passado. (Cleide M. Portes Souza - jornalista - MTB 22.062 - RG 12.431.764)