A discussão sobre as taxas de juro tem deixado em segundo plano algumas questões interessantes, substituídas pelo jogo de apostas quanto à data da decisão do Copom baixando a Selic. É claro que esta decisão é importante, pela sinalização que oferece ao mercado, mas na realidade o juro básico interessa mesmo ao Tesouro Nacional, pela influência no custo da Dívida Pública. Para o setor privado da economia, para que as empresas voltem a investir e ampliar sua capacidade de produção, o que vale é saber em quanto vai ficar a diferença entre as taxas de captação dos recursos e de sua aplicação no sistema bancário. Todos sabem das dificuldades de baixar o “spread”, dos problemas que o sistema enfrenta com a cunha fiscal e os altos níveis de inadimplência, mas o fato é que, se ele não for reduzido, podemos abandonar a idéia de crescimento este ano.
O primeiro trimestre terminou com um nível de atividade econômica muito baixo e não tivemos nenhum sinal de recuperação nos dois meses seguintes. O Ipea acaba de divulgar uma revisão de sua estimativa para o crescimento do PIB este ano, situando-a em apenas 1,6%. Se isso se confirmar, vamos repetir praticamente o crescimento zero da renda per capita dos brasileiros. Será o décimo ano de patinação de nossa economia, em que a renda per capita estagnou ou cresceu muito pouco, diante de um crescimento populacional de 1,4%. Se considerarmos a evolução da produção industrial e do emprego em São Paulo, esta revisão do Ipea chega até um pouco defasada, porque todos os indicadores já registravam a queda do nível da atividade no primeiro trimestre.
É possível que se possa começar a inverter o sinal neste segundo semestre, já num clima de maior estabilidade, a partir da mudança de expectativa proporcionada pelos excelentes resultados da política fiscal e, obviamente, pelo início do processo de redução das taxas de juro. Não deve haver muita ilusão a respeito da rapidez desse processo, devido a circunstâncias conhecidas: primeiro se permitiu uma alta concentração no sistema bancário, o que desequilibrou o relacionamento com o setor produtivo ao qual impõe o maior custo de capital do mundo; segundo, vai exigir a desmontagem desse sistema antropofágico em que o governo consome o grosso do crédito bancário. As linhas de crédito ao setor privado estão desinformalizadas: é a grande cadeia de varejo que empresta ao seu fornecedor, a indústria que é obrigada a financiar o comprador e o fornecedor de adubo que financia a safra. É um sistema cuja ineficiência constitui um enorme obstáculo à retomada do crescimento brasileiro. (O autor, Antonio Delfim Netto, é deputado federal pelo PPB-SP e professor emérito da USP - E-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br)