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Bauru é paraíso perto do Carandiru

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 5 min

Os detentos tecem elogios à direção do presídio que as trata com igualdade, respeito e atenção.

“Quando quis morar com meu marido, fui até a chefia, eles me escutaram e disseram que se tivesse confusão tudo voltava como antes. No começo foi aquela polêmica, mas tudo ficou normal”, explica Mirandêi.

No presídio tem a população que não se mistura com elas. “Mas aqui tem a compreensão. Não é como nas outras cadeias por aí que você tem que lavar e passar. Eu passei pelo Carandiru e vou te dizer: bicha que colocava a cara pra fora no dia de visita, no outro dia estava morta. Eles chamavam de segunda-sem-lei”, confidencia Miranda.

Ela conta que só saíam da cela, se, por acaso, tivessem visita, mas tinham que receber em separado, nada de ficar no meio dos outros. Caso ocorresse, no dia seguinte era “um Deus me defenda”, tinha gente que até morria.

A companheira de cela Pollyane reforça que em Bauru apesar de existir que não goste delas, a situação é menos complicada. “Os outros presos nos respeitam e a gente pode andar sem problemas. Não tem a separação para comer que tinha no Carandiru. As bichas numa fila por último e bem longe.”

Hoje, elas comentam que conseguem colocar a cabeça no travesseiro e dormir. Afinal, estão calejadas pelo preconceito, que muitas vezes trouxeram de casa.

“No começo eu me prendia, as minhas irmãs diziam: mãe, esse menino é um viadinho e eu brigava e batia porque não queria ser. Todo dia ela me buscava na escola para não bater nos outros que me chamavam de viado. Mas depois, ela se conformou, eu me conformei também e vi que a vida é essa mesmo. Sou feliz, sou apaixonada, sou amada e é isso o que conta”, desabafa Miranda.

As aspirações

Enquanto, Patrícia e Pollyane ganhavam a vida exclusivamente nas ruas e avenidas de São Paulo. Mirandêi era costureira, trabalhava na confecção que tem em sociedade com a mãe, e eventualmente caía na noite. Seu sonho é sair da prisão e montar uma filial na Bahia. “Mas vou ter que ficar uns tempos em Bauru, até o Paulo sair daqui, depois eu pretendo é ir me embora para a Bahia.”

Pollyane sonha em fazer um curso cabelereira e manicure e montar um salão de beleza. Ela não pensa em voltar a fazer programas. “Se analisarmos friamente a vida da rua é uma prisão. A gente não tem espaço. O horário é ingrato. Durante o dia não se consegue fazer outras coisas, porque não tem disposição. Em resumo, a gente não vive, a gente vegeta. É essa a realidade. A gente pega pessoa boas, compreensivas, mas a maioria que humilhar a gente, destratar, bater. Um dos motivos que a gente está preso é esse. Eu sou uma pessoa que não tolera esse tipo de abuso.”

Miranda revela que quando se vai para a rua o único objetivo é ganhar dinheiro, mas quando isso não ocorre o bicho pega. Ela lamenta que o número de homens que pega travestis para judiar é muito grande. “Isso é uma coisa muito normal. Mas se eles querem bater, a gente mostra o que é apanhar de verdade. Quantas das minhas amigas já correram atrás da polícia por causa de cliente que chegou para fazer barbaridade. E assim, vai amiga. Muitas delas nem voltaram. Todas as vezes que fui para a avenida era a mesma coisa. Também tem a lenga-lenga entre nós mesmas, porque é uma guerra por cada espaço do quarteirão.”

Mas Patrícia a mais tímida e de pouco falar, que gosta de passar horas assistindo desenhos animados na televisão e sonha com as histórias de Aladin, parece não dividir com as amigas os ideais de mudança. Ela assume que quando tiver a liberdade da cadeia vai voltar a batalhar um ponto na prisão das ruas. “Vou ganhar a vida.”

Questionada sobre a volta ao mundo cão, ela responde com um olhar azul muito profundo: “Essa é a minha vida. A vida que escolhi. Você está do lado de fora e acha que é ruim. Mas a gente vive bem, ganha bem. Por noite a gente ganha R$ 500, R$ 600. Qual trabalhador que ganha isso? Você que é bonita e estudada ganha isso por dia?”, questiona. Mas admite que como toda vida tem o lado ruim: a polícia que quer coibir a prostituição, a humilhação dos clientes e a discriminação da sociedade.

“A gente tá trabalhando, vestindo bem, ajudando a família. Só que a gente cai na tentação... Eu mesmo fui fraco. Se naquele dia tivesse saído do carro, talvez não estivesse aqui hoje”, acrescenta Pollyane, relembrando coisas boas que viveu na rua: foi aos melhores hotéis e restaurantes, saiu com artistas, modelos e jogadores de futebol.

“Eu gosto dessa vida, sinto falta, preciso do salto alto”, reitera Patrícia.

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“'Elas' não dão trabalho”

Não existe um perfil ou delito específico que leve o travesti à prisão. Geralmente, estão envolvidos em furtos, roubos, tráfico e até homicídios, muitas vezes em decorrência da prostituição e da vida nas ruas.

Apesar de serem praticamente exceção no universo dos presídios, o diretor da Penitenciária 1 de Bauru, Wilson Erloza aponta que não tem problemas com sua pequena população carcerária travestida,

“’Elas’ não dão trabalho. Aproveitam as oportunidades e agarram as chances de trabalhar”, comenta.

Ele revela que os travestis são até os melhores funcionários das empresas em que trabalham dentro do presídio. Há algum tempo um dos empresários chegou a comentar o fato e citou o cuidado e a força de vontade além da produtividade.

Erloza aponta que os travestis são tratados como qualquer outro detento e inclusive são chamados pelo nome de registro, mas não é proibido um funcionário do raio tratá-los pelo nome de guerra.

O diretor revela que para essa harmonia ser mantida, os travestis são colocados em raios com presos de penas menores e delitos de menor gravidade. “A nossa penitenciária é de segurança média. Por isso, naturalmente tende a ser mais fácil lidar com as diferenças, temos presos menos ofensivos e nunca tivemos uma rebelião.”

Entretanto, afirma que quando chega “uma bicha bandidona” que quer mandar nas outras ou ser a “rainha da cela”, o clima esquenta, pois que está em casa jamais vai admitir que um preso novato seja o dono do pedaço. “Mesmo assim é raro precisarmos apaziguar. Elas acabam se entendendo.”

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