No início do século passado, no dia 18 de junho de 1908, aportava em Santos o navio Kasato-Maru, trazendo a bordo 165 famílias de imigrantes japoneses para trabalhar no Brasil. Dessas famílias, algumas chegaram à Bauru, indo labutar na lavoura de uma fazenda, quando a cidade tinha 12 anos. Além da mudança da paisagem, foi na língua e na comunicação as maiores dificuldades encontradas. “Nandeska?” A shaberu precisaria virar pá, a kama foice e a kuwa enxada. Desses colonos, alguns vieram para a cidade, abriram pensões, fábrica de móveis e outros pequenos negócios. Mas a maioria dos que vieram para a nossa região, localizou-se na lavoura, exercendo a arte adquirida no berço milenar.
Primeiro o café, depois o algodão. Nos anos 20, em Tibiriçá, Hirakazu Shintaro e Hissaharu Aoki possuiram uma fazenda de 280 alqueires com 130 mil pés de café. Muito tempo depois, foram plantados a melancia e o abacaxi, com os irmãos Oda e Yochiura. E os produtos hortigrangeiros, nas feiras da cidade, onde testemunhamos até hoje, a presença ativa dos descendentes da Terra do Sol Nascente. Nas atividades agropastoris destacaram-se Kazuiti Abe, Mititoshi Yanase, Tatsuo Honda, Riitiro Kawakami, Tadashi Takahashi, Massaki Kuhama, Eizo Sakai, Kazuo Fujimaki, Shigueo Matsuda e tantos outros. Na avicultura, Sampei Togashi, Minoru Nagamuna, Kiyoshi Suzuki, a família Yaginuma, os irmãos Adachi.
Bauru não foi a principal cidade que acolheu os japoneses. Proporcional à sua população, Bastos, no Estado de São Paulo, tem uma parcela muito grande de cidadãos com olhos amendoados e Assaí, no Paraná, é a mais japonesa das cidades brasileiras. Em quantidade de famílias, Maringá e Londrina predominam. Mas, em 1927, Bauru teve um cônsul japonês: Tetsusuke Tarama. Nesse ano também, fundou-se o primeiro jornal local imprimido em escrita japonesa, o “Seichu Shimpô”, dirigido pelo por Rokuro Koyama.
Foi em Tibiriçá, nos anos 20, e na Vila Independência, a partir da década de 50, que a colônia japonesa aglutinou a sua mais forte representatividade local. O majestoso templo nacional da Igreja Tenrikio ali está, na Rua Tenri, nome mudado por iniciativa de meu pai, no seu primeiro mandato de vereador, para a anterior Rua Guaianás, por solicitação de um jovem nipônico residente na Vila Independência: Giro Ishicava.
Giro, depois, ingressou na política bauruense, foi vereador em diversas legislaturas e detém o maior tempo de mandatos: 27 anos e 8 meses. Depois dele, Kempe Togashi, Akira Kawasaki e Futaro Sato ocuparam uma cadeira na Câmara. No Executivo, o Professor Paulo Kavauchi foi eleito vice-prefeito, em 1996. Foi de Giro a iniciativa do projeto de lei que transformou Tenri em cidade irmã de Bauru, na administração de Alcides Franciscato. O Parque Ecológico de Bauru, por iniciativa do vereador João Parreira de Miranda, denomina-se “Tenri-Cidade Irmã”. Numa visita das autoridades dessa cidade a Bauru, na administração Tidei de Lima, o jornalista Célio Gonçalves incumbiu-me de adquirir uma tela de artista nissei, para dar aos visitantes, no momento de troca de presentes. Escolhi uma da artista plástica Sumie Matsuko Komono. A propósito, no campo das artes plásticas, não devem ser omitidos os nomes dos três Nakata: Milton, Sérgio e Marisa.
Aliás, a presença japonesa está hoje difundida em todas as atividades de nossa cidade. Destacando-se nas sociais e esportivas, projeta-se o Clube Cultural Nipo-Brasileiro, no quarteirão 9 da Rua Monsenhor Claro, atualmente dirigido pelo dinâmico Futaro Sato. Seu pai, Nenpuko Sato, foi uma das glórias da poesia haikai no Brasil. Nos esportes, principalmente no judô, onde temos bons representantes que defendem o nome de Bauru, não pode ser olvidado o precursor dessa técnica milenar, Riosaku Mori, que, em 1935, se instalou numa casa da rua Floresta; nas comunicações, descendentes como Maria Dalva Hatore, Heraldo Nakano, Quioshi Goto e Seichi Hito; no ramo fotográfico, entre outros, Cherry e Koichi Kobayashi (do Foto Falcão).
No comércio e nos serviços, sendo este espaço pequeno, fica difícil relacionar os negócios conduzidos pelos descendentes japoneses. Idêntica dificuldade com os profissionais liberais, constituídos por médicos, dentistas, engenheiros, professores, advogados e outras nobres profissões. No ramo industrial ousamos citar um empreendedor do passado, Sadazo Sakai, com o seu guaraná King e uma empresa de grande porte na atualidade, a Ebara Corporation, dirigida nacionalmente por um bauruense: Nelson Reginato do Canto Júnior. No campo religioso a crença japonesa é marcante, pois, além da Tenrikio, existem a Seicho-No-Ie, o templo budista, a Igreja Messiânica Mundial Brasil e a Perfect Liberty.
No urbanismo, na mesma região da Independência há, nas imediações do córrego da Água do Sobrado, a Vila Nipônica, que tem nome de ilustres pioneiros nas suas ruas: Gentiki Takahashi, Kaneaki Ijuim, Hirofume Fussamae, Riosaku Mori, Sadazo Kasai, Shimpei Okiyama, Tohiti Sawao, Tomegiro Sugano, Tihiro Koikeda, Manshi Kanashiro, Seikiti Miagui, Teisho Tokuhara, Ei Kurosawa, dentre outros. Na rotatória da entrada para as Vilas Falcão e Independência, a Praça existente denomina-se Primaz Chujiro Otake. Do outro lado da cidade, existe o Núcleo Habitacional Nobugi Kagasawa, nome dado por iniciativa do vereador Futaro Sato. Nobugi teve indústria de alimentos e foi noroestino fanático, além de sensível orquidófilo. Seu filho Jungi, foi meu colega na Faculdade de Direito.
Curiosamente, nos anos recentes, num processo inverso de integração, descendentes nipônicos, os dekasseguis, têm emigrado para o Japão em busca de trabalho, num movimento envolvendo hoje 270 mil pessoas, que ganham em dólar na Terra do Sol Nascente e remetem para nosso País em torno de U$ 2,5 bilhões anuais, valores que, além de movimentar a economia nacional, melhora o nível de reserva do Brasil.
Se a ida dos dekasseguis provocou um choque cultural àqueles que aventuraram partir, mais forte foi o impacto dos que antes vieram. Nesses 95 anos de mútua integração, aprendemos a saborear o Suchi e o Sachimi e, por influência dos dekasseguis lá e da convivência aqui, os nipônicos degustam o churrasco e a feijoada. (Irineu Azevedo Bastos - consultor na Câmara Municipal de Bauru)