Já tinha ouvido falar do messianismo de Lirinha, vocalista da banda Cordel do Fogo Encantado. Dizia-se de sua força no palco, olhar cativante e firme, língua ferina e gestual lânguido e rápido: a descrição de um ídolo.
Pois bem, o que vi na última sexta-feira no show da banda durante a programação da Festa Junina do Sesc não está muito longe disso. Em pouco mais de 1h30 de apresentação, ao meu lado, uma garota chorava.
Mais à frente, um grupo trocava sorrisos por ter compartilhado uma experiência sensorial, entre frases como “sensacional”, “demais”. Exagero? Não, realmente o show surpreende tanto desavisados - como eu - quanto iniciados - e eram muitos! Entre os desavisados a olhar e ouvir atentamente cada palavra e cada rufar de tambor e outros instrumentos de percussão, centenas repetiam cegamente cada trecho de canção, cada pedaço de poesia, sentindo cada sinal mínimo de música.
Os olhares, em sua maioria, absortos nos gestuais e olhares dos músicos, apresento-os: Clayton Barros, Émerson Calado, Rafael Almeida, Nêgo Henrique e Lirinha.
É de Lirinha o centro do palco. Natural, ele o domina absolutamente, sabe exatamente aonde pode ir e como ir, ora olhando fixamente para a platéia, ora conversando com ele mesmo, como aqueles bêbados que falam sozinhos, talvez dominando seus próprios demônios.
No caso do vocalista, seu exercício é refazer a palavra domada pela poesia, tornando-a fugidia, apta a ser fisgada pelo público. E ele consegue. Parte da tarefa deve-se à herança teatral da banda, a outra parte cabe ao reconhecimento da força da palavra, que é proferida, não apenas dita ou cantada. É em torno da palavra que se ordena o show.
O convite feito por Barros, o único a tocar um instrumento harmônico na banda, para que o público o acompanhasse por meio de gritos e sussurros numa música tem o sentido de lembrar isso. É como se mostrasse que palavra não é apenas representação, mas sensação, daí ser necessário exercitar os sentidos.
Por isso, o palco e a platéia são transformados num grande terreiro. Atabaques, tambores, caixas, pratos e pandeiro ajudam a mediunizar os espectadores, convidando-os a montar no som.
Em alguns momentos, para incentivar o desejo do público de agarrar-se àquelas sensações, Calado vem à frente do palco e toca a alfaia, inclinando-se sobre dezenas acotovelados bem próximos ao músico. Ao fundo, Nêgo Henrique e Rafael Almeida reforçam a percussão para liberar instintos.
Passado o impacto inicial da primeira poesia musicalmente proferida, cujas levadas ressoavam na garganta, apertando-a de maneira prazerosa, mas não menos tensa, posso confessar que compartilhei daqueles sorrisos ao final do show. Só não chorei, mas trouxe comigo o desejo de rever aquela poesia. Espero que não demore. (Jornalista e ombudsman do Jornal da Cidade)