Pesca & Lazer

História de Pescador: Quem não tem medo da onça pintada? (parte I)


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“No ano de 1980, por ter prestado concurso em cartório, Marcos, que era cartorário e residia em Lins, tomou posse em cartório vago na cidade de Descalvado.

Num bar, Marcos ouviu um senhor, de nome José, dizer que não queria morrer sem satisfazer dois desejos: conhecer Mato Grosso e ver uma onça pintada, viva e solta na mata.

Marcos perguntou se ele tinha alguém que tivesse um caminhão na família. Imediatamente, seu José disse que o filho dele tinha um caminhão. Marcos falou para que ele viesse ao bar com o filho na tarde seguinte. Contado ao filho sobre o desejo do pai, tudo ficou acertado, Marcos pagava o combustível e as despesas de viagem do seu José e do filho para passar uma semana pescando no rio Miranda, no Mato Grosso do Sul.

Imediatamente, Marcos telefonou para meu sogro, Venício Augusto Ribeiro em Lins, falando sobre a pescaria. Disse que passava por Lins para pegar mais um barco com motor, barracas, tralhas e que avisasse a turma de Lins sobre o dia e hora do encontro para a viagem. Como é sabido, pescador não tem dia e não tem hora, está sempre pronto para sair.

Meu sogro telefonou para minha casa, em Pirajuí, acertamos com a família de carro, no dia seguinte à ida do caminhão. A avó de minha esposa, Ariadna Cândia Ribeiro, morava na cidade de Miranda. Todos os anos íamos e deixávamos as esposas e filhos na cidade, enquanto passávamos um mês de férias pescando nos rios Miranda, Paraguai, Negrinho, Aquidauana e Salobra.

Chegando em Miranda, recebemos recado dizendo que o barco e o motor do meu sogro estavam no boliche do Salobra para descermos o rio Miranda até o Furadão. O Furadão ficava a 15 quilômetros de Salobra, na Fazenda Miranda Estância, ninho da onça pintada, era proibido matar onças na fazenda, mesmo sabendo que elas comiam gado diariamente.

Chegamos no Furadão às 12h. Fui apresentado aos pescadores de Descalvado, cumprimentei o pessoal de Lins e logo contaram do ocorrido na noite anterior, quando dois médicos de Bauru, que não lembro os nomes, pois ficamos amigos depois do ocorrido, subiram o rio para pescar e voltaram tarde da noite.

Ao fazer a curva do rio, depararam com a luz fraca de um lampião no nosso acampamento. Pregaram fogo no lampião. Com o estampido, todo o pessoal acordou e saiu gritando das barracas. Os médicos reconhecidos dos seus enganos, atracaram o barco, subiram o barranco, caíram de joelhos pedindo pelo amor de Deus para que não fizessem nada com eles. Juraram que ao avistarem a fraca luz do lampião, não tiveram dúvidas que era uma onça sentada no barranco com o olho brilhando, pronta para pular em cima deles.

O medo da onça foi tanto que um deles atirou institivamente. Acertou o olho da onça, no escuro, com uma espingarda calibre 12, com chumbo 3T. O vidro e a cúpula do lampião espatifou, o galho que estava o lampião virou cavaco, mais um rombo de quase um metro na cumeeira de uma barraca onde tinha gente dormindo.

Passado o susto, foi tudo resolvido, até ganhamos deles uma garrafa de whisky escocês no dia seguinte. O medo da onça era tanto que eles montaram um círculo de fios com lâmpadas alimentadas por um gerador portátil em volta da barraca. A receita para acertar o olho da onça no escuro é: whisky escocês, espingarda calibre 12, chumbo 3T e muito medo da onça.

Acabada a história dos médicos, almoçamos e fomos informados sobre uma rodada de pintado à tarde. Como ainda era cedo e ninguém queria pescar, meu sogro convidou-me para tentar uns pacus em um remanso acima do acampamento. Não deu outra, pacus de tamanho médio, pegamos um atrás do outro, só paramos de pescar para participar da rodada de pintado.

Tudo pronto para a rodada de pintado, o seu José falou que não iria, ele preferia ficar no acampamento porque tinha medo de voltar à noite rio acima de barco. Dissemos que ele não podia ficar só no acampamento, porque estando só, onças poderiam atacá-lo. Disse seu José que isso não o amedrontava, ele já conhecia o Mato Grosso, só faltava ele ver a onça pintada, viva e solta na mata para satisfazer o seu segundo desejo.

Para resolver o problema, eu disse que ficava com seu José para bater um papo e assim poderia limpar os pacus para colocá-los no freezer. (continua na próxima semana). (Antonio Roldão de Abreu gosta de pescar e tem muitas histórias para contar)

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