Bairros

Privações geram exclusão psíquica

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 3 min

Exclusão psíquica é o termo que o psicólogo Celso Zonta, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), utiliza para definir as carências psicológicas dos moradores do Núcleo Fortunato Rocha Lima.

Ele afirma que as privações materiais geram problemas de participação. “A carência material vem acompanhada de uma carência de participação. São pessoas que não têm participação social, cidadania. No máximo, o que lhes é cobrado são os impostos públicos”, expõe.

“Com a exclusão material, acaba surgindo um subproduto que é a exclusão psíquica”, acrescenta o professor.

Segundo Zonta, o problema faz a pessoa sentir-se inferiorizada, incapaz e fracassada diante das circunstâncias da realidade.

É importante que as pessoas pobres percebam que são produto da sociedade - certos agrupamentos sociais têm mais oportunidades e outros têm pouca ou nenhuma oportunidade social.

“Eles imputam a si mesmos as justificativas para o fracasso. Colocam como sendo um fracasso individual, pessoal, quando na verdade são as determinações da sociedade que produzem essa exclusão material e, por conseqüência, a exclusão psíquica”, explica o professor da Unesp.

Zonta enfatiza que a dificuldade de acesso à educação, à cultura e aos meios de comunicação dificulta o exercício da cidadania.

“Como a pessoa não teve acesso aos meios e informação, de comunicação e de educação, ela não conhece os caminhos e pouco sabe de seus direitos. Isso dificulta a percepção das coisas que estão acontecendo com ela e com o local de moradia dela”, observa o psicólogo.

Zonta está orientando um projeto de educação popular e desenvolvimento da identidade psicossocial de um grupo de moradores do Núcleo Fortunato Rocha Lima. Um dos objetivos da iniciativa, apoiada pelo Projeto Girassol, é a formação de lideranças.

O professor explica que o trabalho, iniciado no ano passado, faz com que as pessoas aprendam a se comportar em grupo, organizar suas necessidades, definir prioridades, buscar formas de resolver seus problemas e formar de fato uma comunidade.

De tempos em tempos, o professor e os alunos de psicologia da Unesp mudam o público-alvo. “Quando o grupo se forma, vai aprendendo, formando lideranças e se transformando num grupo autônomo, capaz de resolver seus próprios problemas, a gente vai para outro bairro”, conta Zonta.

A exclusão psíquica não é uma característica restrita aos moradores do Fortunato. Geralmente, ela pode ser observada em toda a população explorada, que relaciona a pobreza à incapacidade individual.

“Eles pensam que o povo não tem as coisas porque é incapaz. Vão atribuindo às próprias pessoas as responsabilidades pela situação. Na verdade, não é assim”, salienta o professor.

Um dos sintomas comuns, nestes casos, é o sentimento de resignação fatalista. “Eles acham que as coisas são assim, sempre serão assim, nunca vai haver mudança. Não percebem a capacidade de transformação”, expõe.

Como reverter a situação? Uma das alternativas, de acordo com Zonta, é a formação de grupos de reflexão sobre a realidade com o objetivo de criar maneiras de resolver os problemas.

“A reflexão tem um compromisso prático de transformação. Não é um grupo de reflexão intelectualóide”, destaca.

O resultado é que os moradores que participam do grupo de reflexão aos poucos percebem e assumem a carência psicológica e o processo de transformação. Mas a maior parte da comunidade do bairro, que não participa do trabalho com os alunos de psicologia, não necessariamente tem essa clareza.

Após alguns meses de trabalho no Fortunato, frutos começam a ser colhidos. A população está se mobilizando e tendo iniciativas para resolver problemas comuns. Um exemplo é a reivindicação da volta do posto de saúde para o bairro e a exigência do médico de família.

O grupo está fazendo uma pesquisa sobre a saúde da população do bairro com o objetivo de sensibilizar a cidade e, é claro, a Prefeitura de Bauru.

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