Ser

Sincero à sua verdade

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 11 min

Seu sobrenome verdadeiro é Santos. Santos também é o time do coração desse devoto da música e de São Sebastião. Baleiro ele sempre foi desde criança, mas o apelido que adotou como sobrenome veio da época da faculdade de agronomia em que não parava de chupar bala. Também sempre tinha uma no bolso para dar aos amigos, que acabaram lhe dando o nome artístico.

Segundo Zeca, essa coisa da religião é muito forte e inevitável no Interior do Nordeste. A casa onde nasceu em Arari, no Maranhão, ficava a 50 metros do rio e do outro lado ficavam os terreiros. Zeca Baleiro dormia embalado pelos tambores, mas não perdia uma procissão pela mágica e pela brincadeira. Fez primeira comunhão, ia às missas. Hoje, tem um interesse mais cultural que místico pelas crenças, mas não deixa de fazer o sinal-da-cruz em várias ocasiões, principalmente ao subir num palco ou avião.

A produção de Zeca Baleiro é meio ao acaso. Ele gostaria de ter disciplina, mas não tem. Diz que fica semanas sem tocar violão, mas é capaz de absorver as mais diversas informações, até mesmo de uma frase do porteiro do hotel ou de um jornalista durante uma coletiva. Para se ter uma idéia, todas as canções de seu último álbum “Pet Shop - Mundo Cão” foram feitas na estrada.

Baleiro não tem preconceitos musicais, “Lenha” por exemplo foi gravada por Simone, Rita Ribeiro e Rio Negro e Solimões, que confessa ter achado a versão sertaneja a mais adequada. “Talvez o destino dela fosse esse mesmo. Acho bobagem rotular, o grande lance é pular a cerca dos estilos”, confessa e justifica a gravação de “Proibida pra Mim”, do Charlie Brown Jr.

Aos 37 anos, admite que os três prêmios Sharp recebidos pelo álbum de estréia “Por onde andará Stephen Fry?” lhe deram um empurrão, mas procura não dar mais importância do que a devida a eles.

Sobre a coletânea “Perfil”, que recentemente chegou às lojas, Baleiro aponta que aceitou fazê-la para tapar a lacuna deixada pela Abril Music (que fechou) em “Pet Shop”. Ele revela que palpitou na montagem do repertório e escolheu “Bicho de Sete Cabeças” para a faixa bônus.

Zeca Baleiro não faz música para a crítica e a sua autocrítica e exigência beiram a paranóia. Ele delega tarefas, mas acompanha tudo do começo ao fim. Acompanhe os principais trechos, da conversa que o cantor teve com o caderno Ser, pouco antes de levantar um público de mais de 3 mil pessoas que participaram do show na Festa Junina do Sesc.

Jornal da Cidade - Na sua discografia temos “Por onde andará Stephen Fry?”, de 1997, “Vô Imobolá”, de 1999, “Líricas”, de 2000 e “Pet Shop - Mundo Cão”, de 2002. Pelo menos a cada dois anos há algo de novo, o que a gente pode esperar para 2004? Zeca Baleiro – Para 2003 ainda tem. Eu estou com dois projetos especiais. São dois discos: um em parceria com a escritora paulista Hilda Hilst, que tem poemas maravilhosos, traduzidos no mundo todo, mas pouco conhecida no Brasil. A gente criou uma relação de amizade há um tempo atrás e ela me mandou um disquete com toda a sua obra poética, falando que queria ser minha parceira, que queria ser compositora, porque ser escritora não dava dinheiro e tal... E eu realmente escolhi dez poemas de amor de um livro dela, musiquei as poesias e chamei dez cantoras para cantar cada qual uma canção.

JC – Quais seriam essas mulheres? Zeca – Pois é, o disco já está sendo feito. Hoje mesmo eu saio daqui para gravar amanhã no Rio com a (Maria) Bethânia, que topou. A Nana Caymi vai cantar também. Já gravei com a Zélia Duncan, com a Olívia Bygton, Verônica Sabino e Jussara Silveira, que é uma cantora baiana nova, que eu acho fantástica. E aí... falei quantas mesmo? Ah! Tem a Zizi (Possi) que também vai cantar uma e as duas restantes, eu ainda não fiz o convite, mas pretendo fazê-lo para a Adriana Calcanhoto e para a Rita Ribeiro, ou seja, um dream team. Esse é um projeto, mas que não tem pressa. Não tem gravadora por enquanto. O outro é um disco com o Fagner, um trabalho de parcerias, que já está sendo feito também. No ano passado, a gente fez sete shows por algumas cidades, num roteiro aleatório, de Porto Alegre até Fortaleza, com um encontro de gerações no palco e na platéia e como a gente já vinha compondo alguma coisa juntos, resolvemos registrar essas canções. É um disco de feitura bem simples, sem muito aparato. A gente mesmo está produzindo e deve sair até setembro, por aí. Serão trabalhos mais centrados e concentrados, não são grandes produções no sentido de maquiagem, de trabalho de estúdio.

JC – Aliás, você curtiu essa sua fase eletrônica? Zeca – Eu gosto muito de música eletrônica. Ela é para o músico um parque de diversões, um lugar onde você fica, se diverte, acha coisas. É um lugar muito curioso que lhe permite descobertas e experimentações. O risco disso é você soterrar demais as canções, a poesia das letras, das melodias e tal. Mas eu gosto muito de lidar com ela e mexer com a eletrônica. Obviamente, ainda vou usá-la em meus próximos trabalhos. Talvez, no próximo disco solo.

JC – Você já comentou algumas vezes sobre um disco para crianças. Existe um projeto nesse sentido? Zeca – Existe, existe sim, e vai ser realizado. O disco está bem simples. Eu pensava em fazer para este ano, mas como as coisas se acumularam e existem algumas prioridades: a Hilda está bem doente e eu queria fazer o disco com ela em vida. Estou correndo porque juntar a agenda de dez cantoras não é uma coisa fácil. O disco com o Fagner também se impôs pelo próprio frescor do começo. As coisas estão aí e se a gente não grava logo, talvez perca essa urgência, essa importância. Por isso, o disco infantil ficou... Mas ele está prontinho, é só ir para o estúdio.

JC – E vai ser um trabalho só seu? Zeca – É, em princípio são canções que eu fiz, dirigidas para o público infantil. Convidei o Laerte, cartunista, para ilustrar e ele já topou. Então, são coisas vão surgindo e você tem que... (risos).

JC – Nesse disco você vai resgatar o menino Zeca Baleiro? Como foi o Zeca Baleiro criança, aquele que ainda não era baleiro, ou era...? Zeca – (risos) Não, era só Zeca. Na verdade, eu acho que mesmo nas canções adultas, meu trabalho conserva muito de criança, é uma coisa muito lúdica. As músicas agradam muito as crianças, vão muitas delas no show, têm suas músicas preferidas: “Mamãe Oxum”, “Vô Imbolá”. Tem essa coisa minha que também tem um pouco da herança nordestina, da brincadeira com as palavras, dos trava-língua, esse negócio da imbolada, do ritmo, que desperta as crianças. Mas o disco infantil é voltado para criança, tem linguagem infantil, o que é um exercício muito interessante para o artista. Você tem que comunicar para o público mais exigente que existe, que é a criança, que não tem meio termo. Se ela gosta, ela gosta. Se não gosta, ela te fala na cara. É um grande exercício de linguagem também, você se aproximar das crianças sem ficar Xuxa, aquela coisa pueril, idiota demais. Mas eu continuo sendo um menino, mesmo quando eu faço “Pet Shop - Mundo Cão” tem um menino ali.

JC – Já que estamos falando em menino, em tradição do Nordeste, você veio para cantar numa Festa Junina, eu queria saber de alguma coisa das festas da sua época de menino... Zeca – Era lindo, muito lúdico, muito interessante. Tinha aquela coisa da fogueira, que na minha rua era uma tradição. Tinha um cara que era o fogueteiro, que se chamava Jesus Fogueteiro. A gente ia para a pracinha... Eu vivi até os 8 anos em Arari, uma cidade do Interior do Maranhão, onde nasci e vi muita coisa que hoje vejo no meu trabalho. Mas não é um processo consciente. Eu me lembro também dos docinhos, do rolete de cana que era um pau espetado como um pirulito. Tinha os arraiais, com as barraquinhas de comida típica e a música, o forró mesmo. Mas duas coisas, mais visuais que sonoras, são bem marcantes: a fogueira, que era feita desde a tarde do dia 24, dia de São João, quando a gente ficava recolhendo gravetos pela rua, pelo mato e pelos matagais. A gente fazia a fogueira e depois tinha que pular, aquela coisa toda. E depois vinham os foguetes no fim da noite, disparados de uma casa. Isso é uma lembrança muito forte para mim.

JC – Você tem marcado presença nas trilhas de novela... Zeca – Três músicas.

JC – Mas você tem quatro discos. Tem uma pancada de gente que está há anos no mercado e nunca colocou uma canção numa trilha. Mas por outro lado, existem músicos que criticam essa história de música na novela. Como é que você encara isso? Até mesmo porque você e Lenine que chegaram ao mercado como alternativos, têm cadeira cativa. Zeca – Eu já tive mais. Faz tempo que não tenho música na novela. Tive “Bandeira”,em “Por Amor”. Depois, “Heavy Metal do Senhor”, que era tema de um padre. Mas é bom frisar que foram músicas que não tocaram muito. Às vezes, a música de novela faz um efeito danado na carreira de um artista, mas quando toca muito, ou é um personagem muito vivo. Com as minhas músicas não foi assim.

JC – Mas os discos de novela têm venda de massa e muitas vezes um público que não ouviria Zeca Baleiro, acaba ouvindo, gostando e até se interessando... Zeca – Isso é bom, não é? Eu acho que toda forma de divulgar o trabalho é legítima. Quando eu cheguei ao disco, caí num nicho meio alternativo, não por minha vontade, mas por acaso. Entretanto, as pessoas desse nicho são um pouco xiitas e cobram muito. Quando lançamos o “Perfil”, pela Som Livre, que é da Globo, muitos vieram me questionar: agora você virou global? Uma coisa meio esquerdista demais. Em Belo Horizonte, depois de um show, uma garota me pediu: por favor, nunca vá ao Faustão. Mas eu acho que o artista tem que ampliar. Se você puder ir ao Faustão legitimamente, sem lobby de gravadora, sem ter que fazer micagem e mostrar seu trabalho, por que não? Eu não vou pagar para ir, absolutamente. Mas se for convidado, eu vou. Vou dar popularidade ao meu trabalho em qualquer lugar, no Raul Gil... Mas tem uma patrulha muito grande em cima disso e esses espaços deveriam estar veiculando essa música, o que o Lenine faz, o Chico César faz. Outrora, Caetano foi na Discoteca do Chacrinha, os Paralamas foram, o Arrigo Barnabé também. É um espaço legítimo. O que não é legítimo é pagar jabá. Você acha que na MTV não tem jabá? A música em novela é uma forma a mais de divulgação.

JC – Já que a gente falou do Lenine e o projeto “O 5 no Palco”? Zeca – Morreu!!! (anuncia, imitando Nerso da Capitinga e caindo na gargalhada)

JC – Por conta de quê? Zeca – Do Lenine. (risos). A gravadora dele não queria, pediu a alteração do projeto, mas aí passou o timing. Quando a gente estiver velho, decadente, precisando de dinheiro, talvez a gente se reencontre e faça outro. (gargalha)

JC – Em que pé ficou a sua faculdade de agronomia? Zeca – (Gargalhando novamente) Fiz um ano, briguei com um professor e desencanei. Depois fiz jornalismo mais um ano, mas já estava gravando e não deu para levar.

JC – E a música começou nesse processo universitário ou já vinha com você? Zeca – É anterior. Na verdade, eu não sabia, mas era muito anterior, era da infância. Eu respirei muita música. Era o rádio ligado o tempo todo, mãe que cantava o tempo todo, a família dela era de músicos amadores. Tinha tio flautista, violonista, meus irmãos também tocavam e ela cantava.

JC – Ela ainda é viva? Zeca – É sim e é jovial, gosta de Titãs, sabe?

JC – E o que ela achou de cantar em um dos seus discos? Zeca – Ela ficou meio acanhada. Aquela voz (na última faixa do CD Líricas) foi gravada por telefone. Aquela música do Ary Barroso e do Lamartine Babo é a música da vida dela, traz uma lembrança muito forte de sua infância e eu queria trazer isso para o disco. Mas ela é muito antenada mesmo. E como na minha casa o ambiente era muito musical, quando adolescente eu comecei a tocar violão e aí foi.

JC – E as balas? Ainda fazem parte da sua vida? Zeca – Ainda fazem, até mesmo porque eu tenho dois filhos pequenos, mas acho que não como antes. Era bem inveterado.

JC – Mas eram balas de quê? Tinham um sabor específico? Zeca – Eram balas, balas como essas daqui. (revolve os bolsos e tira balas de menta). Isso na infância no Interior do Nordeste era muito mágico. Era uma diversão comprar bala na venda, na quitanda, daquele baleiro que girava, que era colorido. Lembranças de uma infância inocente. Hoje até as crianças que nascem lá não vivem mais assim.

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