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Brasileiro desconfia do que entende


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O discurso de Lula tem as suas ambigüidades como a de qualquer outro chefe de Estado na condução da coisa pública. As reformas estruturais da Previdência e da tributação, apesar de mal encaminhadas, estão sendo tocadas pelo governo com uma aparência de coragem e austeridade. Ele poderia, sem dúvida, ter sucumbido à velha prática de fazer concessões em troca de aplausos. Lula, porém, mantém-se firme na defesa do seu projeto.

Quando o vejo na televisão bem produzido, com terno de grife e gravata de seda italiana entendo porque setores da burguesia não o aceitam. Gesticula, sorri, anda de um lado para o outro com o microfone na mão, fala com a intimidade de quem conversa com a gente de casa, chama os brasileiros de amigos e amigas.

As reações variam. Alguns falam em viés autoritário do discurso porque o pronome eu é a vedete. Às vezes, quando o presidente usa o nós majestático, os membros das chamadas “classes produtoras” acham que vale por eu. A inflação caiu, o dólar despencou, o risco-Brasil foi para baixo, os investidores estrangeiros voltaram. Mas é impossível contentar a todos com 180 dias de governo. Os juros estão altos. Meio por cento de redução é muito pouco. Há desemprego. Se Lula fala dos plantadores de cana obrigados a trabalhar até os 60 para uma aposentadoria de salário mínimo, dizem que ele está fazendo “fogo de barragem” contra o funcionalismo.

É evidente que para entrar na tal Fase 2 desenvolvimentista e distributiva alguém vai ter que perder alguns privilégios. As partes fazem o todo. As aposentadorias milionárias não serão mais possíveis assim como os ganhos pantagruélicos dos banqueiros. É impossível que tudo fique sempre em cima do povo assalariado que sustenta a Receita Federal com o imposto de renda descontado no contracheque do salário.

Lula diz claramente que a meta é essa. Para chegar até lá de nada adiantam as porraloquices dos tempos de sindicato. Infelizmente o brasileiro adora gente que fala bonito. Manipular palavras com esmero é pura sedução. Abre portas. Dirime controvérsias. Conquista adeptos. O orador desenvolvo conquista platéias. Dizem que o professor, para ser valorizado precisa ser entrópico. Se os alunos entenderem tudo não terão o que perguntar e vão achar que o professor só diz o óbvio. Quando Lula conta que engravidou a sua “galega” e teve que esperar nove meses para ser se o bebê era bonito ou feio a sociedade fica indignada.

Como explicar a nossa tendência para a verbolatria? “O brasileiro desconfia do que entende”, diagnosticou Nelson Rodrigues. Antônio Cândido chamou o fenômeno de deslumbramento do colonizado. É mais ou menos isso: quando os portugueses chegaram aqui, encontraram índios. Depois, vieram os escravos. Uma massa de analfabetos formava o grosso da população.

Os poucos que iam à Europa estudar voltavam com a cabeça feita. Sentiam vergonha do que viam aqui. Sonhavam com Lisboa, Paris ou Londres. Como seria impossível exercer esse cosmopolitismo aqui fizeram uma mágica. O corpo ficaria aqui. Os olhos, lá. Quando falavam e escreviam, dirigiam-se a um público imaginário – culto e refinado. A realidade ficava cada vez mais longe. A moda quase se perpetuou. Agora, aparece um presidente que todo mundo entende e acham que ele não sabe nada. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC).

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