Um vereador cassado em 1997, dois neste ano, somados a mais duas renúncias. Um prefeito cassado em 1998 e o atual, Nilson Costa (PTB), correndo sério risco de também perder o mandato nos próximos dois meses. Bauru é uma cidade predestinada a viver convulsões na área política? Para três professores - dois da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e um da Universidade do Sagrado Coração (USC) - a resposta é não.
Os docentes são unânimes em afirmar que o atual quadro político da cidade é puro reflexo do estágio de consciência e amadurecimento conquistado pela comunidade e pela própria classe política ao longo dos últimos anos.
Para a professora-doutora Maria Teresa Kerbauy, docente da Unesp, a classe política de Bauru tem demonstrado nesses últimos cinco anos a coragem necessária para enfrentar “as mazelas”, tanto no Poder Legislativo quanto no Executivo. “A população de Bauru deve ter orgulho de enfrentar essas questões, evitando que toda essa situação seja enfiada debaixo do tapete ou empurrada com a barriga. Uma das funções da Câmara Municipal é a fiscalização. Se outras Câmaras não cumprem com suas funções, é uma questão a ser melhor avaliada”, analisa.
Ela defende a investigação de denúncias sempre que necessária, independentemente do tempo de mandato e do político envolvido. Para Maria Teresa, as cassações do ex-vereador Hélio Pires, do ex-prefeito Antonio Izzo Filho, de Osvaldo Paquito (PPS), José Humberto Santana (sem partido), além das renúncias de Roberto Bueno (PTB) e Walter Costa (PPS), demonstram o grau de amadurecimento da cidade.
“Eu acredito firmemente nisso. Isso é um exemplo. A cidade teve a oportunidade de renovar suas lideranças na última eleição municipal e não a fez. Hoje, ela tem outra oportunidade de renovação. Eu acho que a população não deve ter medo da renovação. Às vezes, a renovação pode se mostrar muito mais frutífera do que a manutenção do que está aí. Esse é um cenário que deve ser construído”, prega.
Consciência política
A situação do atual quadro político da cidade movimenta as projeções para a eleição municipal do ano que vem. E nesse sentido, o professor de filosofia da USC, Carlos Alberto Albertuni, associa o lado positivo das articulações políticas que começam a ser desenhadas para 2004. “A eleição municipal do ano que vem, na verdade, já está sendo pensada através das articulações. Na minha opinião, aquilo que pode parecer uma coisa negativa é motivo de uma maturidade maior do pensamento e da consciência política dos cidadãos de Bauru. É nos momentos de debates mais intensos que começa a se ver as posições da classe política; quem são os oportunistas, que pregam a filosofia do caos”, avalia.
Albertuni busca na cassação e condenação do ex-prefeito Izzo Filho o divisor que mudou a política em Bauru. “Eu vejo que a partir da cassação do Izzo foi possível visualizar uma maturidade na comunidade. E o atual momento também mostra isso. Em outras épocas, devido ao poder das forças políticas, mais organizadas e poderosas, falar em cassação era uma heresia. Hoje, é muito fácil falar em cassação. O povo já sabe qual governante é improbo, negligente, omisso e que merece ser cassado. E sabe também que há mecanismos para isso.”
Mas ele também avalia que a “facilidade” com que hoje se fala em processo de cassação abre as portas para os oportunistas. “É lógico que já há um discurso próximo à eleição do ano que vem. O discernimento será fundamental para a população. Vejo, por todas as manifestações pró e contra a atual administração municipal, uma certa maturidade na sociedade. Isso mostra que há um debate político. As pessoas tomam posições, usam a defesa, pregam argumentos. Isso, em épocas passadas, com certeza não era tão vivaz como hoje. Se hoje o debate político é vivaz, é porque há maturidade”, afirma Albertuni.
Mais autonomia
Já na avaliação do professor-doutor da disciplina de história da Unesp, Maximiliano Martin Vicente, a Constituição votada e aprovada em 1988 também ajudou a compor o atual cenário político de Bauru. “Após a Constituição de 1988, mudou-se a concepção do que é um município, que passou a ter mais autonomia e foi obrigado a elaborar uma lei orgânica. Isso permite que o município tenha muito poder de fiscalização em relação a seus representantes públicos”, diz.
Ele analisa, ainda, que a atual situação política da cidade também está relacionada a problemas estruturais. “Temos que avaliar porquê atravessamos essa situação e o que está faltando ao município. Creio que o que está faltando é uma rediscussão da nossa Lei Orgânica e a elaboração de um plano diretor mais sério, com muita participação popular, que a meu ver é inexistente. A partir daí, com certeza será possível trabalhar com mais transparência e maior possibilidade de fiscalização.”
O professor explica que, na medida em que a Lei Orgânica e o plano diretor da cidade não funcionam, qualquer governo fica livre para administrar o município da maneira como lhe convier. “A Constituição de 1988 deu total liberdade para que o município ditasse o que lhe é peculiar. Isso demandaria uma discussão dentro do próprio município para que a sociedade como um todo se organizasse e dissesse o que queria do Poder Público. A partir daí, criaria-se um plano diretor sério. E isso não aconteceu. E então, de quem dependemos? Do prefeito”, comenta.
Formado esse quadro, Vicente afirma que o chefe do Executivo acaba se afastando da sociedade. “Mas a sociedade não tem representatividade no prefeito, e conseqüentemente, tudo fica rodando igual a peão. Tem buraco, vai o prefeito e tapa o buraco. Enquanto isso, não ataca-se a causa do incêndio.”