Anhembi – “Eu cheguei aqui para pescar e nunca mais fui embora. Apesar das dificuldades, eu não troco a vida de pescador. Eu criei meus filhos e netos pescando.” É assim que Acácio Sales de Oliveira, 76 anos, um dos mais antigos moradores da colônia de pescadores de Anhembi (130 quilômetros a Sudeste de Bauru), resume sua relação com um ofício, que é a base da economia local há cerca de 40 anos.
A colônia, localizada entre os rios Piracicaba e Tietê, no bairro Matão, é habitada atualmente por oito famílias de pescadores, o que representa cerca de 40 pessoas. A estabilidade dessa comunidade, na qual o ofício é passado de pai para filho, chamou a atenção do médico dermatologista Vidal Haddad, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu. Haddad estabeleceu contato com os pescadores, a partir de uma pesquisa sobre os acidentes provocados por peixes em sete colônias da região.
“Esse pessoal está aí na beira do rio há muitos anos. Isso preservou aspectos do folclore, culinária, aspectos culturais”, observa o médico dermatologista.
Na opinião do pescador Acácio de Oliveira, o tempo passou, mas a rotina da comunidade não sofreu muitas transformações, apesar da chegada da energia elétrica no início da década de 90 e da ‘invasão’ de turistas nos fins de semana.
Na colônia, segundo ele, a organização social é bem definida e a pescaria ocorre no âmbito das famílias. Os homens partem para o rio quando o dia está nascendo, e voltam no fim da manhã, com o resultado da pesca. As mulheres ajudam a limpar os peixes, que em seguida são repassados para os compradores e escoados para cidades da região e São Paulo. Quando o trabalho “aperta” e a mão-de-obra é escassa, algumas esposas acompanham os maridos nos barcos.
A maioria das crianças da colônia freqüenta a escola mais próxima, a cerca de 10 quilômetros, e é levada ao local em um veículo cedido pela prefeitura da cidade vizinha de Santa Maria da Serra. Os meninos começam a aprender o ofício da pesca por volta dos 15 anos.
Seguindo uma característica das comunidades tradicionais, os moradores mais antigos são uma referência para o grupo. O líder natural é Acácio, o pescador mais velho. “Todo mundo me procura porque eu sou o mais velho do local. Alguns falam: “O seu Acácio é o prefeito daqui”. Mas não sou. Sou um pescador igual aos outros”, afirma.
Toda essa relação de respeito encontra explicação no passado. Acácio é considerado um dos fundadores da colônia. Ele chegou pela primeira vez ao local em 1965, aos 33 anos, num acampamento com um grupo de amigos pescadores. Em 1967, Acácio voltou ao reduto e criou raízes. “Não tinha nada aqui. O primeiro que construiu uma casa foi o meu irmão”, conta.
Depois de algum tempo, Acácio trouxe a esposa, Maria dos Santos Oliveira, 73 anos. Sua casa, a princípio, era apenas um barraco, que com o tempo foi sendo ampliada, assim como a família, que hoje chega a seis filhos, 15 netos e dez bisnetos. “Eu tenho um neto hoje com 28 anos que nasceu aqui. Meus filhos e três netos vivem da pesca”, orgulha-se.
“Eu não tenho vontade de sair daqui. Eu gosto do meu lugar e do meu serviço. Enquanto eu tiver saúde eu quero continuar pescando”, afirma.
Resto da vida
A mesma relação com a comunidade pode ser observada no discurso de Maria Izabel Mancini Evangelista, 49 anos, que veio ao local ainda menina. “Eu não mudaria daqui, quero terminar o resto da minha vida neste lugar.”
Maria chegou na colônia em 28 de abril de 1969. Ela trabalhava numa fazenda da região, casou-se aos 14 anos com um pescador e ajudou a escrever a história da comunidade. Segundo Maria, a vida na colônia sempre foi marcada pela união e pelo respeito às tradições. “Todo mundo tem amizade, um ajuda o outro e nunca tem briga. As pessoas mais velhas são bastante respeitadas”, afirma.
Para Ondina Franco Alves, 54 anos, o ritmo de vida voltado para a pesca fez com que as famílias criassem vínculos muito fortes.
“Meu marido ensinou para o meu filho e vai passando. Aqui é sempre a mesma coisa. O tempo não mudou muita coisa. Mesmo assim, eu não sairia daqui. Eu acho que aqui é melhor do que a cidade”, afirma.
Apesar disso, Ondina lembra que a vida de pescador é marcada por periodos de dificuldades. “Tem época que fica ruim de peixe e aí a gente fica sem ganhar.”
Colônias mantém vínculo
Quando os peixes se tornam escassos em determinada região, é costume dos pescadores acamparem em outras colônias, instaladas ao longo do rio Tietê. Esse contato, segundo os pescadores, acaba gerando uma mobilidade e um vínculo entre as comunidades ribeirinhas.
“Alguns ficam acampados lá até quatro e cinco meses. E muitos levam a família”, conta o pescador Francisco Golveia, 41 anos, morador da colônia de Anhembi, há 26 anos.
O irmão, João Golveia, 51 anos, afirma que durante sua trajetória de pescador muitas vezes trocou a casa por uma barraca de lona. “A gente se mudava porque não estava dando peixe. A vida sem ponto fixo é difícil. Agora eu não saio mais para fazer isso. São mais os jovens”, afirma.
Durante o desenvolvimento de sua pesquisa, o professor Vidal Haddad constatou a existência dessa comunidade de pescadores que se locomove ao longo do rio. “Esta população, mais ou menos estável, circula entre os diversos pontos de pesca e mantém relações familiares”, afirma.