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Vítimas do HIV crescem em Bauru

Da Redação
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O número de pessoas em Bauru contaminadas pelo HIV, vírus causador da aids, cresceu 26% entre 2001 e 2002, em comparação com os dois anos anteriores. Foram 216 casos notificados em 1999 e 2000, contra 272 casos em 2001 e 2002. Os dados são da Diretoria Regional de Saúde (DIR-10) e indicam um preocupante avanço da aids entre pessoas de todas as idades, mas principalmente entre jovens de 15 a 30 anos e adultos de 40 a 60 anos. De acordo com a DIR-10, o aumento do número de pessoas contaminadas em Bauru corresponde à realidade brasileira.

A coordenadora municipal do Programa de Doenças Sexualmente Transmissíveis e Aids, Eliane Monteiro, explica que esses dados apresentam o número de casos registrados, visto que a aids é uma doença de notificação obrigatória à DIR-10. “Hoje, o Ministério da Saúde coloca Bauru como a 33.ª cidade do País com maior incidência de aids. Em 1999, ano-base da pesquisa, em cada 100 mil habitantes havia 35 pessoas com o vírus”, afirma Eliane. Estima-se que o Brasil possua hoje 600 mil pessoas com HIV, e destas, 400 mil não saberiam que são soropositivas, de acordo com o site www.aids.gov.br.

Do total de casos notificados em Bauru, cerca de 38% é de heterossexuais, seguidos por usuários de drogas injetáveis (34%), homossexuais e bissexuais (13%) e contaminados sem identificação do motivo (10%). “Nós estamos passando por uma heterossexualização da aids no mundo todo. Ela começou como uma doença restrita aos antigos grupos de risco - os homossexuais e usuários de drogas. Mas hoje não há mais grupos de risco. A aids atinge toda a população”, diz Eliane.

Outro dado preocupante é o crescimento da doença entre as mulheres, que normalmente são infectadas por seus parceiros, namorados ou maridos, de acordo com o psicólogo Ricardo Mokdici, que é voluntário na Sociedade de Apoio a Pessoas com Aids de Bauru (Sapab).

“Antes, a proporção de 10 ou 15 homens infectados para uma mulher. Hoje, em algumas cidades o número de homens e mulheres com o vírus é igual. Isso ocorre porque as mulheres confiam nos namorados e maridos ou não têm coragem de pedir para eles usarem camisinha. Então, o homem acaba levando o vírus para dentro da relação”, afirma.

Jovens

Entre os jovens de 15 a 30 anos, 68 casos foram notificados entre 1999 e 2000. O número subiu para 96 casos entre os anos 2000 e 2001, um aumento de mais de 41%. O psicólogo Mokdici analisa que este aumento deve-se à displicência do jovem, e não à falta de informação sobre a doença. “É muito triste, porque as pessoas dessa idade são aquelas que cresceram com uma camisinha na carteira, sabendo o que era a aids. E hoje, elas têm a falsa impressão de que a doença está controlada, mas não está”, ressalta.

Mokdici afirma que a falta de proteção nas relações sexuais entre os jovens pode ser demonstrada pelo crescente número de gravidez não planejada. Ele também defende a idéia de que a pessoa que tem “comportamento promíscuo” não é, necessariamente, portadora do vírus.

“Uma garota ou garoto de programa sabe do vírus e da importância da proteção. Afinal, o próprio corpo é o instrumento de trabalho deles. Já uma pessoa que transou com poucos parceiros pode não ter essa preocupação com a proteção e acabar contraindo o vírus”, alerta o psicólogo.

“Nós vemos um aumento grande de adolescentes do sexo feminino com o vírus. Elas têm que se valorizar mais como mulheres, que são parte integrante da relação, com direito a discutir e a exigir que o parceiro use preservativo”, afirma Mafalda Sparapan, diretora da Sapab.

Adultos

Entre 1999 e 2000 foram notificados 44 casos de pessoas entre 40 e 60 anos de idade infectadas pelo vírus HIV. Em 2001 e 2002 o número passou para 62 pessoas, o que representa um aumento de 40% na quantidade de infectados.

“Ao contrário dos jovens, os adultos não tinham a cultura estabelecida de usar preservativo, não cresceram com isso. Muitos reclamam que a camisinha é desconfortável, que perde-se a sensibilidade e por isso eles não gostam de usar”, explica o psicólogo Mokdici.

Para Maria da Graça Ghiselly, que é enfermeira do Programa Municipal de Atenção ao Idoso (Promai), o problema é a falta de orientação e publicidade voltada não só aos idosos, mas aos adultos em geral. “As campanhas são sempre para alcançar os jovens. Os adultos não se identificam com aquilo, e acabam pensando que não fazem parte de um grupo de risco e que não há necessidade de se proteger”, observa.

Outra coisa comum, segundo Mokdici, são casais, tanto hetero quanto homossexuais, que só utilizam preservativo nos primeiros encontros, mas deixam de usá-lo assim que adquirem confiança no parceiro e o relacionamento fica “mais sério”. Ele orienta que ambos devem fazer o exame anti-HIV, mas lembra a existência da janela imunológica - o período em que a pessoa já está contaminada com o HIV mas o exame ainda não consegue acusar.

Isso ocorre porque o exame detecta os anticorpos produzidos pelo ser humano para combater o vírus, e só existe uma quantidade de anticorpos cerca de três meses após a contaminação. “O certo, então, é o casal fazer um exame e continuar usando a camisinha. Depois de alguns meses, fazem outro exame, comprovam que os dois não estão com o vírus e podem ficar tranqüilos”, diz o psicólogo.

Na opinião de Mokdici, a aids é uma doença “ética”, pois cada pessoa necessita de sinceridade para encarar seu comportamento frente ao vírus. “Não adianta ficar mentindo para si mesmo. Se aconteceu uma traição sem proteção, volte a usar camisinha por algum tempo com o parceiro ou parceira e procure fazer o teste de novo, depois de alguns meses, para garantir que não está infectado e que não vai contaminar a outra pessoa”, alerta.

Com os medicamentos antiretrovirais, conhecidos como coquetel, a vida dos portadores do vírus é diferente do que há dez ou 15 anos. “Hoje, o portador não é mais aquele cara magro, pálido. Os coquetéis têm muitas vitaminas, que deixam a pessoa até mais corada, mais forte, com uma boa aparência. Além, é claro, da qualidade de vida muito melhor que o portador de HIV pode ter”, afirma Mokdici.

A aids ainda é uma doença sem cura, mas o coquetel de medicamentos deixa a vida do portador mais longa, com grandes chances de diminuição da quantidade de vírus no organismo. “Eu digo que a aids é uma doença difícil de pegar, porque ao contrário de outras doenças, tomo mundo sabe como se pega. Não é pelo ar, não é pelo toque, pelo espirro. Se a pessoa usa camisinha e não compartilha seringas, não vai pegar aids”, conclui Mokdici.

Pré-natal

Bauru tem hoje uma taxa de 2,8% de recém-nascidos portadores do vírus HIV. A coordenadora municipal do Programa de Doenças Sexualmente Transmissíveis e Aids, Eliane Monteiro, alerta que o diagnóstico da doença durante o acompanhamento pré-natal e o início do tratamento com o coquetel de medicamentos podem reduzir a chance do bebê ser contaminado pela mãe.

“No parto, a mãe toma uma dose do coquetel e o bebê toma outra logo nas primeiras horas de vida. Até os 18 meses, ele ainda tem os anticorpos da mãe. A partir disso, podemos fazer o exame e verificar se ele possui o vírus. Se o pré-natal foi bem feito, a chance é cada vez maior da criança não ter o vírus”, explica.

O acompanhamento pré-natal é realizado em todas as unidades do Sistema Único de Saúde (SUS).

O teste anti-HIV pode ser realizado gratuitamente em Bauru no Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA), que fica na rua Quintino Bocaiúva, 5-45. O telefone do CTA é (14) 234-5331 e o atendimento é realizado sempre no período da tarde, das 14h às 17h. Não é necessário identificar-se para fazer o teste. Pode-se fornecer um pseudônimo e retirar o resultado no próprio CTA.

“Eu não vou desperdiçar a chance de continuar vivo”

Pedro (nome fictício), 36 anos, é portador do vírus HIV e acredita que tenha sido contaminado durante relação sexual sem proteção com alguma menina, há cerca de dez anos. Casado há nove anos, ele passou por momentos difíceis algum tempo atrás, quando uma toxoplasmose o deixou em coma por 43 dias.

“Eu estava com a imunidade muito baixa, mas não sabia que tinha o vírus. Quando minha esposa me disse que eu estava com aids, minha vontade era morrer. Eu achava que a doença só matava, não sabia dos remédios, do coquetel”, conta.

O casal já estava junto há seis anos quando Pedro ficou hospitalizado, e mesmo mantendo relações sexuais sem proteção, a esposa não havia sido infectada. “Foi ela quem tomou conta de mim. A gente vive um pelo outro, ela ficou do meu lado quando eu estava doente e estava quase entregue à doença. Ela foi muito forte, assim como meu pai e minha família. É bom receber essa ajuda das pessoas que gostam de você; ajuda na recuperação”, emociona-se.

Hoje, Pedro está em tratamento com o coquetel de antiretrovirais e diz que a taxa de vírus em seu sangue é tão baixa que quase não é detectada no exame anti-HIV. Ele está procurando ajudar e dar apoio a pessoas que estão internadas nos hospitais da cidade.

“Eu tenho que ocupar a cabeça e não ficar pensando besteira. Então, vou conversar com quem está internado, para contar a minha história e dar uma força. Muitas pessoas estão desanimadas, mas outras vêem que eu estou bem e dizem que vão continuar lutando, como eu faço. Se Deus me deu essa chance de me recuperar, eu não vou desperdiçar. Vou continuar vivo”, finaliza.

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