Ninguém confunde vontade de urinar com vontade de dormir. Somos movidos por sensações e a diferença que faz a diferença é saber interpretá-las e atendê-las. Agradáveis ou desagradáveis, as sensações não são boas ou más, são apenas avisos do nosso corpo. Disse avisos do nosso corpo porque as percebemos no corpo, mas os avisos não são apenas a respeito do corpo (vida biológica). São também de nossa vida emocional, intelectual e espiritual. Não dá para ignorar uma sensação, e não aceitá-la é impossível.
Uma sensação nunca vem sozinha, por isso é comum confundi-las: frustração com decepção, medo com raiva, cansaço com desânimo, tristeza com desmotivação, e assim por diante. Diante de uma situação nova podemos ficar ansiosos, e medrosos, e inseguros, e decepcionados consigo próprio, e com raiva, e tristes, e etc. Dessa forma, facilmente podemos nos sentir confusos, perturbados, e com uma sensação bem conhecida, do tipo: “algo está errado, algo vai acontecer e não sei o que é”. Ficamos vulneráveis e, usualmente, a atitude escolhida é fugir, mudar de objetivo, desistir, qualquer uma que “de alguma forma nos dê a impressão de: “tudo bem assim”. É comum optarmos por deixar do jeito que está mesmo não estando bom, pois embora a sensação seja desconfortável, ela é conhecida. Isso cessa as sensações desagradáveis e ameaçadoras que surgiram diante da possibilidade de mudança, do desconhecido, e volta a falsa impressão de “agora está tudo bem outra vez de novo como antes, né?!!!!!”.
Assim vamos aprendendo a lidar com nossos desafios, nossas oportunidades: fugindo. Acabamos incorporando e automatizando essa atitude num programa de vida, e nem percebemos que estamos nos enganando, que essa segurança não passa de um descaso consigo próprio, subestimação, resignação, que torna a vida chata e previsível.
Para calar a sensação de insatisfação e “mágoa não sei do quê”, mergulhamos em uma religião, entramos em algum clube, arrumamos um grupo de pessoas e uma rotina social semanal para nos livrar da rotina diária, e dá-lhe cerveja, baralho, futebol... Pelo amor de Deus não interpretem que freqüentar uma religião, um clube, um grupo de amigos, pescar, seja sempre fugir e estar inconsciente de sua vida. Só estou dizendo que “isso” pode ser usado como opção de fuga, e que, embora melhor do que se drogar, não deixa de ser fuga, e como fuga nenhuma opção resolve nada. O perigo é chegar no ponto onde “o remédio pra curar ressaca é tão bom que a pessoa não se toca o quanto está bebendo, nem porque, nem pra quê”.
Acredite, 90% das pessoas que optaram por fugir, se encararem seus motivos os resolverão, então poderão continuar com esses hábitos puramente por lazer, crescimento espiritual, etc. A diferença é que participariam e teriam nas famílias suas principais atenções, seriam exemplos, sentiriam e proporcionariam muito mais prazer, representando a certeza de paz e harmonia mesmo durante as tempestades. Não haveria mais espaço para sensações de solidão e baixa auto-estima, e sensações como confiança, solidariedade e amor seriam a regra, e não a exceção. (O autor, Manuel Castro Lahóz, é médico psicoterapeuta cognitivo)