Pesca & Lazer

Mulheres surpreendem e batem recordes mundiais

Roberta Mathias
| Tempo de leitura: 6 min

Além do grupo de aventureiros, o Rancho Xingu tinha mais um hóspede: capitão da IGFA Carlos Eduardo Coelho Magalhães, 64 anos, o Kdu. Ele assumiu um desafio com o proprietário do Racho Xingu: as mulheres vão bater recordes mundiais. Foi dito e feito.

Éramos, digo éramos pois me incluo nesse grupo, em cinco mulheres, das quais apenas uma pescadora de verdade. Kdu, que é PhD em economia e após se aposentar tornou-se guia de pesca oceânica no Rio de Janeiro (www.fishing-in-rio.com), decidiu que as mulheres que desejassem pescar iriam à procura de cachorras e cacharas, pois eram espécies que estavam abertas para a modalidade feminina na IGFA. O capitão tem mais de 25 recordes homologados, o que o faz o maior recordista brasileiro.

O mais difícil era fazer com que mulheres, que nunca haviam pescado, conseguissem cumprir todo o procedimento para a homologação de um recorde, que impede qualquer ajuda durante a pescaria. E assim foram batidos quatro recordes, um de cachara, dois de cachorra e um de jurupensen. Capitão Kdu explica: “As mulheres tiveram um comportamento normal, talvez se fossem três homens não teriam feito o que elas fizeram. E sabe por quê? Elas prestaram atenção.”

Kdu comenta que o fato de nunca terem pescado fez com que elas seguissem exatamente suas orientações. “Receberam as instruções de uma maneira racional, enquanto que um homem, por suas características, seria menos receptivo. Eles não gostam de conselhos de ninguém”, brinca Kdu Magalhães.

Recorde de cachara foi de 10Kg

No dia seguinte, foi a vez das novas pescadoras Maria Laura Nogueira Pires, 43 anos, a Bilala, pesquisadora do departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo, e da produtora de teatro e jornalista Vânia de Godoy, 41 anos, saírem para pescar com o capitão Kdu.

“Quando resolvemos ir para o Xingu, nem imaginava que voltaria recordista mundial”, brinca Bilala. A proposta de Vânia e Maria Laura era apenas aproveitar a beleza do local, o contato com a natureza. De repente, o bichinho da pesca atacou a dupla. “Eu sou totalmente urbana e agora me vejo com vontade de bater um recorde mundial também”, comenta Vânia.

“Quando saímos, eu, Vânia, Kdu e o piloteiro Jair, jamais imaginava o que iria acontecer”, lembra Bilala. Kdu deu uma aula para as novas pescadoras e seguiram rio abaixo. “Kdu dizia: você deve ter calma, o peixe pesa muito menos. É ter mais paciência do que força. Ele foi um ótimo mentor”, lembra a pescadora. E deu certo.

Bilala fisgou uma cachara de 10 quilos, que lhe deu bastante trabalho. “O peixe brigou bastante, um bicho daquele tamanho não se rende sem lutar. Aí que entra a paciência.” Bem-humorada, Bilala comenta: “Acho que Deus falou assim, para essa pisciana: vou deixar um peixe separado! E foi isso, peguei um peixe só, que me deu muito prazer.”

Para a pescadora, tudo contribuiu para o sucesso de sua pescaria: “um piloteiro, um instrutor do nível do Kdu incentivando, na hora que aquele peixe apareceu, a emoção tomou conta. Acho que até o peixe é ímpar, ele também me escolheu”, finaliza.

É bem provável que isso tenha ocorrido, pois exemplares com o mesmo porte, foi capturado apenas mais um, pelo pescador Oscar de Azevedo Nolf, o nosso Tarzan, homem bastante experiente em pescarias e aventuras na mata.

Vânia também ficou bastante emocionada, até para fazer as fotografias durante a pescaria. “Até comentei com o capitão Kdu que comecei a entender a emoção da Roberta, tremi para tirar as fotos da Bilala”, lembra. Apesar de não ter batido recordes, Vânia não voltou para casa “sapateira”. Ela fisgou dois exemplares de armal, uma espécie de bagre, com mais de 4 quilos cada um. “Pescar é difícil, fiquei tão tensa para não perder o peixe, que segui direitinho as recomendações de Kdu”, conta Vânia. “Tinha que ter calma, abaixar a vara recolhendo a linha sem parar, puxar novamente. Assim até conseguir tirar o peixe da água. Depois, é claro, devolvemos o peixe para o rio.”

Mulheres também devem conhecer a região

Para quem acha que pescaria é apenas para os homens, é preciso rever a questão. Pelo menos no Rancho Xingu as mulheres tiveram bastante conforto e diversão durante uma semana. O espaço é bem equipado, os quartos têm ar-condicionado e toda infra-estrutura necessária para a pesca e lazer.

Uma boa opção para quem não pretende pescar, mas gosta de aventurar-se, é seguir o exemplo da psicóloga Lígia Louzada Ramos, 41 anos. Bauruense de nascimento, Lígia mora em São Paulo e foi ao Xingu acompanhar o marido, Geraldo de Barros Monteiro Filho, em sua pescaria.

“Pescar mesmo, só arrisquei pegar alguns lambaris no pier do rancho, o que é muito gostoso, mas melhor é descobrir a região, conhecer os índios”, comenta Lígia. Todos os dias, Lígia saía acompanhada do piloteiro Marcelo para conhecer as águas do Alto Xingu, seus animais e população indígena.

“No começo, o piloteiro ia me explicando e mostrando os animais, com o tempo, aprendi a enxergar nas margens do rio, encontrar jacarés, capivaras, antas e, finalmente, os índios kalapalo. O piloteiro Marcelo é extremamente sensível à beleza do Xingu.”

Ela comenta que a primeira vez que avistou os índios não sabia o que fazer, mesmo assim foi até eles. “Fizemos amizade, conversamos. Estávamos no limite da reserva e eles foram amistosos.” Ela pôde conhecer o artesanato e a culinária indígena enquando navegava pelos rios Sete de Setembro, Kuluene e Xingu. “O curioso de passear de barco é que os lugares mudam com o horário. Pela manhã o passeio é de um jeito, à tarde é de outro.”

O pôr-do-sol no Xingu é um espetáculo à parte. Todos os dias, os visitantes eram contemplados com a beleza do pôr-do-sol e depois com a infinidade de estrelas que povoam o céu.

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Penélope Charmosa do Xingu

A verdadeira recordista, na verdade, seria a pescadora Mari Watanabe Matsumoto, 33 anos, que é dentista no Rio de Janeiro. Ela começou a pescar para acompanhar o marido Kensuke e não parou mais. No fly ou na isca artificial, Mari pescou uma cachorra com mais de quatro quilos que com certeza seria um novo recorde, mas ela preferiu devolvê-la ao rio.

Com seu “aparato” cor-de-rosa, Mari mostrou que ser feminina na pescaria é compensador. “Quando comecei a pescar, escolhi uma maleta cor-de-rosa e todas as iscas dessa cor que encontrava, comprava. Depois, nas pescarias, descobri que os peixes também gostam de rosa”, brinca Mari.

Preparada com chapéu, luvas, óculos polarizados, que reduzem o reflexo da luz na água, e roupas de supplex, Mari saiu todos os dias ao lado de Kensuke, pescando e registrando em fotografia e video as belezas da região.

“Peguei sete espécies diferentes na isca artificial cor-de-rosa: cachorra, piranha, bicuda, palmito, facão, tucunaré e matrinxã. A que mais me impressionou foi a cachorra. É uma espécie bastante esportiva, pula bastante. Eu nunca tinha pescado essa espécie”, diz Mari. Todos os peixes foram devolvidos para o rio, apenas um palmito foi levado para ser consumido no rancho.

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