O governo resolveu agir no sentido de corrigir alguns dos erros gritantes do Banco Central. O Conselho Monetário Nacional decidiu enterrar de vez o cadáver, já em estado de decomposição, da meta inflacionária de 8,5% para este ano de 2003. Embora morta, esta meta estava sendo usada pelos duros do Copom e do mercado financeiro para justificar a manutenção dos juros Selic nos absurdos 26,5% ao ano. De agora em diante o Banco Central esquece este objetivo inatingível e passa a trabalhar apenas com uma meta de 5,5% ao ano para 2004, com uma margem para cima e para baixo, de 2,5%.
As outras surpresas vieram quando da publicação da ata que resumia as discussões havidas na última reunião desta verdadeira confraria de sábios sem sabedoria que se transformou o Copom no governo Lula. Sem alarde e sem pedidos de desculpas à sociedade, o Copom informou que abandonava o método chamado de médias aparadas para calcular o núcleo da inflação. Fiz referência, em várias ocasiões, ao experimentalismo econômico que tal mecanismo de médias aparadas representava e o custo altíssimo que a economia brasileira estava pagando por isto. O Banco Central passa a usar, a partir de agora, a metodologia de cálculo do núcleo da inflação seguida na maioria dos países de economias avançadas.
Outra informação contida na ata do Copom, mais escondida e de difícil leitura, acompanha minha posição até agora solitária de que a chamada inércia inflacionária - e que também vinha sendo usada para justificar a manutenção da taxa Selic - já há muito deixou de existir. Estas três novidades, mais a divulgação recente de índices de deflação ou inflação próxima de zero certamente abrem caminho para juros mais baixos nos próximos meses.
As especulações que os principais analistas econômicos começam a fazer a partir de agora buscam encontrar uma explicação racional para esta guinada da equipe econômica de Lula. Sua motivação teria sido apenas um repentino ataque de bom senso econômico ou foram as pressões, acumuladas ao longo dos últimos meses, que levaram o comando político do governo a colocar o ministro Palocci contra a parede? Somente o tempo e o vazamento de informações vai permitir que possamos responder a esta dúvida.
De qualquer maneira não tenho dúvida que a seqüência de novos índices de inflação, agora libertos das amarras irracionais do sistema de médias aparadas, vai forçar o Banco Central a acelerar o ritmo de redução de juros, abrindo com isto, a possibilidade de um 2004 melhor para todos nós! (O autor, Luiz Carlos Mendonça de Barros, é economista, publicador do site e da revista Primeira Leitura, ex-ministro das Comunicações e ex-presidente do BNDES)