Louco por futebol, especialmente pelo Noroeste, ele não imaginava na época de garoto, na Bela Vista e Duque de Caxias - onde passou sua infância e adolescência - que um dia seria o dirigente máximo do clube vermelho e branco. Por sinal, o Norusca foi fundado no mesmo dia, mês e ano que o Corinthians - 1º de setembro de 1910 -, sua outra paixão.
Hoje, o bem-sucedido empresário Damião Garcia, um dos “cardeais” do Alvinegro do Parque São Jorge, começa a entrar para a história do Noroeste como um dos presidentes mais eficientes e entusiasmados pelo clube - é chamado até de “salvador da pátria” pelos funcionários, integrantes da comissão e grande parte da crônica esportiva bauruense.
Exagero dos admiradores? Não. No segundo semestre do ano passado, o Norusca estava cheio de dívidas e era “saco de pancada” na Copa Estado de São Paulo. E o pior ainda: corria o risco de ser desfiliado da Federação Paulista de Futebol (FPF). Mas, graças ao prestígio de Damião Garcia junto a Eduardo José Farah, o presidente da FPF “quebrou o galho”. Se a desfiliação tivesse acontecido, o Norusca teria que disputar a Série B3 (Sexta Divisão) neste ano.
A Kalunga - considerada a maior empresa de artigos de escritório e papelaria da América do Sul -, que patrocinou o Corinthians de 1983 a 95 - teve sua logomarca na camisa do Noroeste, quando o time do então ‘matador’ Ronaldo Marques foi o décimo colocado do Paulistão de 1988. Era a entrada extra-oficial do dono da Kalunga no clube de sua terra natal.
Para o benemérito do futebol profissional bauruense, ajudar o clube é uma honra. Diz ele que sonhar e ver o Noroeste brilhando não é uma obsessão, mas sim uma questão de razão, de obrigação.
“Gosto do Noroeste, farei tudo o que puder por ele; estou para servir o clube e não para me servir dele. Temos que fazer alguma coisa para que um time nascido em 1910, continue. E mais: volte ao lugar que sempre lhe pertenceu, a Primeira Divisão”.
O presidente do Noroeste está satisfeito com a colaboração dos companheiros. Dos mais antigos no clube, como o vice de Finanças, Érico Braga, e Francisco Simões Miraglia Barbosa, o Kiko, da Flag - patrocinadora oficial do Noroeste. Kiko é o presidente do conselho.
O gerente de Futebol, Celso Zinsly, é também elogiado, assim como os que chegaram mais recentemente para somar. Entre eles o vice-presidente do clube, Fernando Vieira de Carvalho, e seu pai, Haroldo de Carvalho; Júlio César Francisco, novo diretor social e de marketing; e Andrea Mello, que responderá pelo departamento jurídico. Em entrevista ao Jornal da Cidade, Damião Garcia falou sobre o que vem sendo feito no Alfredo de Castilho, e principalmente dos planos para o futuro, sempre acreditando no sucesso.
Jornal da Cidade - O que o senhor imagina fazer pelo Noroeste, além do que tem feito? Damião Garcia - Bem, nós pegamos o clube numa situação falimentar, ameaçado de desfiliação da Federação Paulista de Futebol, no final de setembro do ano passado. O clube estava desacreditado, com seis meses de salários atrasados de jogadores, funcionários e 24 ações trabalhistas. O Noroeste estava totalmente largado, patrimônio deteriorado. Esse é um dos maiores crimes que uma administração pode cometer. A maior responsabilidade do dirigente é zelar pelo patrimônio que já existe. Esse patrimônio foi construído com muito sacrifício e com dinheiro do povo. É preciso ter respeito com o clube, que pertence à sociedade, carente de lazer, principalmente os menos favorecidos. Nós, da direção do Noroeste, não temos um centavo de receita. Não temos corpo associativo, venda de placas no estádio, patrocínio na camisa. Não temos cotas de televisão, como os clubes de São Paulo. Como as dificuldades são grandes, pedimos o apoio dos empresários e do povo em geral, de acordo com sua condição. Apesar de a agremiação não ter fonte de renda, eu e o Érico Braga nunca deixamos de cumprir nossos compromissos com os jogadores e funcionários. Estamos em dia com o INSS, Fundo de Garantia e fornecedores. Não devemos nada na praça, portanto. Resgatamos a credibilidade do clube e a auto-estima do torcedor pelo Noroeste.
JC - E as melhorias no estádio? Damião - Estamos fazendo uma reforma, na pintura e melhorias em outras dependências do nosso complexo esportivo. Vamos inaugurar nos próximos dias um alojamento para os juniores e depois construiremos um refeitório, amplo e moderno, para os atletas profissionais e amadores. O que estamos fazendo hoje é também um trabalho social. Nós estamos tambem montando no estádio, uma academia para a preparação física do elenco. O Jean vai supervisionar essa academia que terá equipamentos modernos. Para os entendidos no assunto, será de primeiro mundo. Já comprei computadores e vamos informatizar totalmente o Noroeste. Eu pretendo, com a ajuda dos bauruenses recuperar a iluminação, a parte social, como piscinas. É uma judiação o que aconteceu com as piscinas. Mas o Noroeste nunca teve guardas, um administrador para o dia-a-dia, seguranças à noite para rondas no estádio. Os ladrões já entraram em nossos vestiários, inclusive em nossa administração. Nas administrações anteriores, roubaram toda a fiação, nos deixando sem refletores. Para consertar tudo isso, a gente vai precisar de muito dinheiro, e por isso, solicitamos o apoio de todos.
JC - O senhor acha que há o reconhecimento pelo trabalho que vem fazendo à frente do Noroeste? Damião - Essa pergunta eu não tenho como responder. Eu espero que sim, mas só vou sentir esse reconhecimento no dia em que lançarmos a campanha para associados e que os noroestinos respondam positivamente, passando a ser sócios do Noroeste. Mas por enquanto, tenho esperança, certeza que nós vamos ter sucesso. E o sucesso não seria meu, e sim, de todos. Do Noroeste e da cidade de Bauru.
JC - E a diretoria temporária? Damião - O Noroeste, não é de hoje, como muitos clubes do País, estão irregulares; nossa administração, e as anteriores também. Quem elege o presidente e o conselho são os sócios, mas o Noroeste não tem quadro associativo. Aliás, nunca ouvi falar que houve interesse de alguém em promover uma campanha de sócios no Noroeste. Mas eu tenho esse interesse. Vou examinar os documentos e com o apoio de gente competente faremos uma reforma estatutária. Será uma coisa decente, transparente e democrática, dando todas as condições aos que desejarem ser sócios. Eu estou aqui hoje, mas não fui escolhido pelos associados, pelo povo. Estamos cumprindo um mandato-tampão, mas vamos fazer uma reforma estatutária o mais rápido possível. Esperamos que no final do ano, ou no início de 2004, teremos eleições. Os sócios elegem o conselho, e o órgão deliberativo escolhe o presidente do clube.
JC - A prefeitura de Bauru ajuda? Damião - A colaboração da prefeitura é praticamente zero. Até vou conversar com o prefeito Nilson Costa. A prefeitura, em 2002, segundo me consta, teria que colaborar com R$ 5.000,00 por mês, mas do ano passado ela ainda deve ao Noroeste, R$ 5.000,00. E neste ano, de janeiro até agora, a prefeitura não deu nada. O que ela fez foi pagar de vez em quando R$ 5.000,00 de parcela atrasada.
JC - E a parceria com o Internacional? Damião - Eu já recebi três ou quatro minutas do contrato, mas não concordei com nenhuma delas. E dessas minutas, até brinquei com dirigentes do Inter, dizendo que eles estão colocando o Noroeste na condição de réu. Se eles quiserem mandar sete ou oito jogadores, tudo bem, mas não assino nada, só depois que tudo for bem analisado. Se o Inter não confiar na nossa palavra, as coisas continuarão difíceis. Portanto, a parceria, pode vingar, como também pode não vingar. A parceria tem que ser coisa boa para as duas partes, mas eu vou torcer para que dê tudo certo.
JC - E as categorias de base? Damião - Como você sabe, temos as equipes infantil, juvenil, júnior, profissional e pretendemos dinamizar ainda mais as categorias de base. Já dispomos de um alojamento para 33 garotos no estádio, alugamos seis kitinetes e uma casa aqui perto do Noroeste para mais atletas, além de um alojamento ao lado do nosso ginásio de esportes. Gastamos com vitaminas adequadas para nossos jogadores amadores, que inclusive, recebem uma ajuda de custo. Deveremos contratar também uma nutricionista. O atleta tem que ser bem preparado tecnicamente, fisicamente e psicologicamente para entrar nas quatro linhas (campo de jogo). Posso garantir que mesmo com todas as dificuldades financeiras, o Noroeste tem porte de clube grande nas divisões de base.
JC - Cadeiras cativas deram certo? Damião - Vai dar certo, estamos estudando tudo detalhadamente. O que fica sempre na imagem é o início. A gente quer começar isso com organização. Vamos intensificar a campanha associado de cativa, que terá sua cadeira numerada, pagando apenas R$ 30,0 por mês, por um contrato de um ano. Nós pretendemos também outro tipo de campanha, por um preço simbólico. Para isso, contamos o apoio da imprensa.
JC - Faça uma referência a Érico Braga Damião - Se eu tivesse umas cinco ou seis pessoas que colaborassem como o Érico, seria ótimo. E não é só na parte financeira. Érico, com seu prestígio, apresenta amigos, ajuda em tudo. É um grande bauruense e noroestino. Érico Braga é o parceiro que eu tinha imaginado. Vem correspondendo totalmente à minha expectativa.
JC - E quando será a volta do Norusca ao grupo de elite? Damião - Essa pergunta é difícil de responder. Acho que não é só o meu desejo. É de todo povo bauruense, em especial dos noroestinos. Para o Campeonato Paulista do proximo ano haverá tempo para a gente se preparar, mas o que eu posso dizer é que se depender de mim, voltaremos ao grupo de elite o mais rápido possível. Com muito trabalho da diretoria e colaboração dos empresários e torcedores, poderemos ganhar a Série A3 no ano que vem, disputar a Série A2 em 2005 e voltar para a divisão maior do futebol estadual em 2006. Não prometo, mas quem sabe! Nada é impossível quando se tem um objetivo, desde que se faça um trabalho sério.