Regional

Aldeias se adaptam aos novos tempos

Michelle Roxo
| Tempo de leitura: 4 min

Avaí - “Quando nós chegamos aqui as terras eram melhores. Tudo aqui era mata. Hoje que eu estou com essa idade (66 anos) olho em volta e pergunto cadê a mata? A mata acabou.” Para o cacique Jazoni de Camilo, da aldeia Ekeruá, muita coisa mudou no cenário das terras de Avaí (39 quilômetros a Noroeste de Bauru), desde que os primeiros terenas chegaram ao local na década de 30.

“Naquele tempo a gente jogava a semente e nascia. Hoje em dia não, tem que ter adubo, agrônomo, medir o mês que tem que plantar, tudo complicou.”

Na opinião do cacique Reginaldo Marcoline, a paisagem foi modificada pela retirada de madeira irregular e o desmatamento da região. “Em parte pela influência do homem branco, os próprios líderes dos índios tiravam a madeira para poder vender. E com isso foi acabando com as matas”, afirma.

Por conta disso, parte das típicas rotinas de auto-sustentação dos índios foram perdendo espaço, como a atividade de pesca e a caça. “Hoje em dia não existe nem condições de caça. Às vezes é até proibido. Mesmo assim a gente caça ainda o tatu e a capivara.”

Dentro desse processo, não só a natureza foi modificada, mas também os costumes. Luz elétrica, rádio, televisão e partidas de futebol fazem parte hoje do dia-a-dia dos índios de Avaí. Alguns possuem até automóvel e as lideranças não se intimidam em manusear um telefone celular. No âmbito da religião, católicos e crentes dividem as aldeias.

“Para nós não é muito bom, mas nós temos que acompanhar os tempos. Com a televisão, por exemplo, a nossa criançada fica entretida e é influenciada. Mas agora não tem como tirar mais. A criançada de hoje aqui quase não fala o idioma. É por isso que eu estou preocupado. Porque se a língua morre, morre muita coisa com ela”, lamenta o cacique Jazoni.

A guarani Maria Rocha, 56 anos, afirma que também o paladar indígena foi modificado ao longo do tempo, com a introdução de novos hábitos alimentares, por influência dos homens brancos. “Os mais velhos ainda mantêm os hábitos, mas os mais novos não. Comida para nós era assim: mandioca assada, uma batata, caça, peixe. Antigamente não tinha sal, tempero; a gente não sabia o que era açúcar. Não se preocupava com dinheiro. Hoje não, a gente já pensa: mas se eu tivesse um dinheirinho iria buscar uma mistura.”

Outra transformação começa a ser sentida no papel das crianças e mulheres na sociedade. Para as primeiras, segundo o cacique Jazoni, as salas de aula tornaram-se uma alternativa para um futuro menos marginalizado.

“Hoje em dia, por exemplo, se não souber escrever passa até fome. Antigamente não era assim. Hoje as nossas crianças são obrigadas a estudar, porque é isso que vai defender o futuro mais tarde”, afirma.

Já as mulheres, que antes desempenhavam um papel especificamente voltado para a família, têm buscado a profissionalização e já participam de um curso de corte e costura ministrado dentro da aldeia. “Às vezes, isso assusta um pouco a gente, mas é bom a gente deixar elas trabalharem um pouco também”, afirma o cacique Reginaldo Marcoline.

Democracia também é uma palavra que tem sido valorizada nas aldeias. O próprio cacique, apesar de ser a autoridade central, não possui mais a mesma estabilidade do passado.

“Antigamente, o cacique era passado de pai para filho. Hoje se não dá certo um cacique a comunidade faz eleição e eles trocam”, conta Jazoni.

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Defesa

Apesar de todas essas transformações, o cacique destaca o esforço de se preservar a cultura indígena. “A nossa cultura e o nosso idioma são os nossos documentos.”

Pensando na defesa dessa identidade, o cacique afirma ser contra o casamento de índios com brancos e a mudança de índios para as cidades. “Nós somos contra isso, porque começa a misturar. Eu acho certo casar índio com índio, porque aí o idioma e a cultura não vão acabar. Além disso, quando os índios vão para fora da aldeia, eles são mais marginalizados.”

Já o cacique Reginaldo, da aldeia Pyhau, é mais radical e faz uso de um tom nostálgico quando o assunto são os costumes do passado. “Se fosse por mim, eu continuaria sem energia, com a água gelada. Muita coisa a gente deixa de viver dentro da cultura da gente para ficar em frente a um programa de TV.”

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