Bairros

Chácaras são refúgios alternativos

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 4 min

Uma alternativa para quem quer um pouco de sossego mas não mora na zona rural são as chácaras. Geralmente localizadas em bairros distantes do centro, mas dentro do perímetro urbano da cidade, elas aliam proximidade e tranqüilidade.

Maria Isabel Rodrigues mora há dez anos em uma chácara localizada no caminho para Piratininga. Antes de afastar-se do agito de Bauru, ela morava no Jardim América. Depois de ter a casa assaltada duas vezes, resolveu mudar-se com a família e construiu uma casa grande na chácara, onde o preço seria reduzido.

“Ou eu construía uma bela casa no sítio ou eu comprava uma casa mais ou menos na cidade”, conta.

Hoje, Maria Isabel não troca a qualidade de vida por uma morada mais próxima do Centro, apesar de deslocar-se todos os dias para a cidade a trabalho. Em casa, ela tem horta com verduras frescas, frutas diversas no pomar, ervas para chás e água pura retirada do poço. “Nós não bebemos água com cloro e nem tomamos banho com água com cloro”, destaca.

Outra vantagem é a liberdade que seus filhos e sobrinhos têm para brincar aos fins de semana. “Tem bastante verde, árvores, cavalos. Na cidade, não dá para deixar a criançada na rua, com preocupação de carro. Aqui eles estão livres”, afirma.

Quando fica muito tempo trabalhando na cidade, Maria Isabel fica ansiosa por voltar para casa. “À noite, nós sentamos na varanda e ficamos vendo a natureza. Não escutamos barulho nenhum”, diz.

O delegado Abel Fernando Marques experimentou pela primeira vez a vida na chácara há 20 anos. Desde então, nunca mais trocou seu refúgio no Jardim Tangarás pela casa em que morava antes, nos Altos da Cidade.

A motivação da mudança foi a busca de tranqüilidade. “Aqui na cidade raramente ouve-se um passarinho cantar. Em casa, cantam vários tipos e qualidades de passarinhos”, conta.

Abel acorda com o canto dos pássaros. “Tem sempre um bem-te-vi na minha janela. Isso eu não troco por nada do mundo. É muito melhor que os barulhos ensurdecedores dos carros na cidade”, compara.

Na opinião do delegado, a mudança foi um salto positivo na qualidade de vida da família e uma boa saída para o estresse. “O contato com a natureza propicia dar mais valor à vida, ao relacionamento humano. As pessoas ficam mais isoladas nesses locais e, quando têm contato, certamente são mais fraternas”, avalia.

Pela manhã, Abel sai para trabalhar no Centro e só retorna no final da tarde. Ele garante que o deslocamento diário vale a pena. “O entardecer (na chácara) é muito gostoso. Percebemos o manto da noite caindo e ficamos acompanhando os raios solares à distância. A vida se torna melhor e mais saudável”, enfatiza.

Outra vantagem que ele aponta é a possibilidade de fazer reuniões com amigos. “Parece que a união entre as pessoas é maior que na cidade”, opina.

Mais adeptos

Há três anos Adilson Roberto Bighetti mora em uma chácara no Jardim Manchester. O que antes era uma opção para os fins de semana tornou-se a morada oficial da família.

Adilson morava no Jardim América e conta que convivia com barulho intenso. A busca por melhoria de qualidade de vida impulsionou a mudança. “Foi muito boa. Meus filhos também gostaram muito”, diz.

A família cultiva horta e cria galinhas, patos, vacas de leite, cavalos, porcos e carneiros, entre outros animais. “Lá, eu tenho meu leite, minha horta, ovos. Tem um pouquinho de cada coisa”, expõe.

Os filhos levam colegas da escola para brincar na chácara e os pais sentem-se tranqüilos pela segurança do local. “Eles têm contato com as criações e não ficam restritos ao ambiente de apartamento. É um lugar que ajuda a recarregar as energias”, explica.

Adilson garante que não voltaria a morar na cidade. “Em última instância”, acrescenta.

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Falta de escola prejudica

Segundo o presidente do Sindicato Rural de Bauru, Maurício Lima Verde, a falta de escolas na zona rural de Bauru prejudica a ocupação dos bairros.

“O que prendia as famílias nas áreas rurais era a condição de educar os filhos. Agora, eles têm que ir para a cidade. Fica mais fácil o chefe da família se deslocar como bóia-fria”, avalia Lima Verde, que também é vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp).

Na opinião de Lima Verde, a tendência natural é que as pessoas mudem-se para a cidade. “Com a eliminação das escolas rurais, tornou-se mais difícil a vida no campo e nas comunidades rurais”, reforça.

Ele afirma que o transporte escolar é prejudicado pela precariedade dos mais de 500 quilômetros de estradas municipais, principalmente no período de chuvas. “Às vezes, acontece de ficar 20 ou 30 dias com estradas interrompidas. Elas praticamente não têm nenhuma conservação”, critica.

Para Lima Verde, esse processo dificilmente será revertido porque a demanda do trabalho rural diminuiu. “Esvaziando as propriedades rurais, esvazia-se os bairros rurais. Isso não vai mudar, a não ser que surja algum fato novo. Não tem estrutura. Não foram criados fatos novos”, diz.

“O homem não volta mais ao campo porque o campo precisa muito menos dele do que precisava antigamente”, acrescenta o presidente do sindicato.

Lima Verde avalia que atualmente há menos de 5 mil pessoas morando nos bairros rurais (número fornecido pela Prefeitura de Bauru). “De forma nenhuma. É um número completamente superado. A população rural diminuiu demais. Tem gente que trabalha na zona rural, mas que mora na cidade”, explica.

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