Ser

Crianças felizes sem segredos

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 8 min

Os conselhos do terapeuta familiar inglês Steve Biddulph viraram uma febre no mundo todo. Seus livros se tronaram best-sellers traduzidos em mais de 15 línguas.

Para se ter uma idéia, mais de um milhão de pessoas leu “O Segredo das Crianças Felizes” (Editora Fundamento), que recentemente chegou ao Brasil e já causa furor entre pais e terapeutas.

Há quem discorde, mas Biddulph, que tem 50 anos e é pai de um garoto de 19 anos e uma menina de 11, define que sua obra contribui, definitivamente, na comunicação entre pais e filhos, do nascimento à adolescência. Segundo ele, seu trabalho há 30 anos, muitas vezes com a colaboração da esposa Shaaron, que é enfermeira e assistente social, visa dar mais confiança aos pais para que ajam de forma mais inteligente, com mais carinho e menos tensão.

“Você hipnotiza sua criança todo santo dia. Podia, pelo menos, fazer isso direito!”, afirma Biddulph no primeiro capítulo do livro.

O alerta aos pais refere-se às inúmeras afirmações feitas diariamente às crianças e que acabam fazendo com que elas assimilem determinados conceitos ou comportamentos e carreguem os equívocos por muito tempo.

Para o terapeuta, o que pode ser inofensivo e comum para alguns pais, pode ser altamente nocivo aos filhos no futuro.

Ele cita que jamais os pais ou qualquer pessoa do convívio da criança deveriam falar para ela frases como estas:

Você não tem jeito.

Deus, você só amola.

Você vai se arrepender, espere só para ver.

Você é tão ruim quanto seu tio Merv (que está na cadeia).

Você é igual à sua Tia Eva (que é alcoólatra).

Você é louco, está ouvindo?

Burro!

Deixe de ser uma peste.

Você me deixa louca!

Você é muito egoísta.

Meu Deus, como você é preguiçoso!

Seu idiota, pare com isso!

Estas informações, de acordo com Biddulph, acabam ficando programadas no inconsciente das crianças e quando se tornam adolescentes é esse o tipo de programação e de conceito que terão de si mesmos.

O terapeuta define estas mensagens como sendo uma maldição familiar, que atravessa gerações de pais estressados e se torna uma “profecia auto-realizadora” quando o processo se torna repetitivo.

Isso não quer dizer que se vez ou outra dissermos algo torto aos nossos filhos eles ficarão imediatamente traumatizados. Mas se sempre nos dirigirmos a uma criança como burra, mais cedo ou mais tarde, ela vai assimilar isso. Por mais que tire boas notas ou tenha um comportamento exemplar. Um dia, quando se sentir acuada, ela vai disparar que sempre foi burra.

“A mente de uma criança é cheia de perguntas. Talvez as maiores sejam: Quem sou eu? Que tipo de pessoa eu sou?, Onde me encaixo? Essas são as questões de autodefinição, ou identidade, nas quais baseamos nossas vidas como adultos e a partir das quais tomamos todas as decisões importantes. A mente de uma criança é incrivelmente afetada por declarações que comecem com a palavra ‘você é’”, sentencia Biddulph, ressaltando que muitos adultos chegam ao seu consultório tomados por uma crise existencial provocada pelo que lhes foi dito na infância.

Steve Biddulph trabalha com o princípio de que a audição, consciente e inconsciente, acaba determinando padrões de comportamento no futuro, mas nada supera as relações de carinho. Nesse sentido, dosar as palavras, entender os medos, atribuir tarefas, agir com firmeza e estar sempre presente é o grande segredo das crianças felizes.

No início da semana, Biddulph respondeu, de Sidney, na Austrália, por e-mail algumas questões com exclusividade para o Caderno Ser.

Jornal da Cidade - Qual o principal erro cometido pelos pais modernos em relação à educação de seus filhos. Eles repetem erros dos pais de outras gerações? Steve Biddulph - No início do meu trabalho com pais, 30 anos atrás, eu pensava que a questão principal fosse a falta de conhecimento. Então, escrevi livros para explicar a psicologia infantil a leigos. Isso era importante, mas não era tudo. Cada vez mais, acredito que as pessoas são bons pais e mães naturalmente e amam seus filhos, mas o mundo atual nos impede de dar amor. Nós que vivemos em países desenvolvidos somos pressionados a trabalhar, ganhar mais e mais dinheiro e pensar que bens materiais são a chave da felicidade. Todos os dias, nós e as nossas crianças somos bombardeados pela mídia com idéias desse tipo. No entanto, amor e felicidade estão ligados ao tempo. A pressa é inimiga do amor. Quando corremos atrás do sucesso, fracassamos, porque deixamos morrer os nossos relacionamentos. A pressa destrói o amor entre marido e mulher, entre pais e filhos. As famílias pobres carecem de esperança e os pais se afastam acreditando que não têm o que oferecer. Nos países onde há muita pobreza, estamos trabalhando para ensinar aos pais o quanto são importantes para os filhos e para manter os homens envolvidos na vida das crianças - tios, avós, mentores etc, para que os garotos em especial, mas as garotas também, mantenham a esperança e a crença em si mesmos.

JC - Na rebeldia da adolescência, costumamos dizer que quando formos pais faremos tudo o que nossos pais não nos deixaram fazer. Permitiremos tudo às nossas crianças? Isso vai acabar ficando programado no nosso inconsciente ou vamos perceber que estávamos errados? Biddulph - Acredito que crescemos muito quando temos filhos. De repente, compreendemos a luta dos nossos pais. A paternidade (e a maternidade) nos torna adultos. Muitos adultos sem filhos são eternos adolescentes que só pensam em si mesmos. Os jovens pais precisam de apoio nos primeiros meses ou anos, para que se faça a transição. A alegria de colocar outras vidas à frente da própria vida gera um bem muito mais precioso. Na verdade, as crianças são bem mais felizes quando não têm tudo que querem. Nos Estados Unidos, existe uma “doença” chamada affluenza, que significa “ter tudo”. A pessoa não aprende a apreciar ou dar valor; não aprende a esperar ou trabalhar objetivos a longo prazo. A vida perde o significado, e ela se deprime. Não tem perseverança. As crianças “curtem” mais a vida quando têm menos.

JC - Nos seus livros, você cita a importância da família estar sempre por perto. Mas como fazer isso num mundo moderno onde tudo é tão corrido e complicado? Neste contexto, como ficam os pais e mães solteiros? Biddulph - A tarefa do pai ou mãe que cria o filho sozinho é muito árdua. Mas a tarefa do casal também é árdua. A maior descoberta da moderna psicologia é que as famílias não podem existir sozinhas, que precisam de uma rede em torno delas, de amigos atenciosos, mais velhos e mais jovens, homens e mulheres, como se criássemos para nós “um vilarejo dentro da cidade”. Isso significa fazer escolhas quanto à organização do tempo, ao relacionamento com os amigos, de modo que as crianças cresçam sabendo que podem confiar em uma rede mais ampla. Significa não deixar que as viagens ou a ambição nos afastem das nossas redes. Então, nos sentindo mais apoiados e relaxados, podemos manter a perspectiva, sabendo que nossos filhos têm quem ajude a cuidar de seus valores e interesses.

JC - Principalmente nos países menos favorecidos, as crianças acabam tendo que colaborar com tarefas domésticas. A partir de quando isso pode ser feito e qual a melhor maneira de fazer isso? Existem tarefas que podem ser experimentadas primeiro e que acabem demonstrando à criança um senso de prazer e responsabilidade? Biddulph - Aos 3 anos, a crianças já podem ajudar - alimentar o gato, guardar os pratos. Aos 10, o menino ou a menina devem preparar a refeição da família uma vez por semana. (9 é a idade a partir da qual são capazes de lidar com facas e água quente, depois de uma boa conversa sobre segurança).

JC - Quando você cita a questão da programação mental das crianças pelos pais, acabamos por entender que elas serão um reflexo dos adultos. Como perceber se estamos agindo corretamente ou não? Biddulph - Não há como saber. Sempre vamos cometer erros. O segredo é prestar atenção em si mesmo, reservar um tempo todo dia para pensar. Quando disser ou fizer alguma coisa de que não goste, peça desculpas e procure agir de modo diferente. Não tenha pressa, porque o processo dura a vida toda.

JC - Se educamos uma criança de maneira errada, conseguiremos reverter o processo mais tarde? Biddulph - Quando eu era mais jovem, vivia estressado pelo trabalho. Às vezes, gritava com meus filhos sem motivo. Decidi pedir desculpas toda vez que isso acontecesse. Eles custaram a me desculpar, mas viram que eu tentava mudar e manter o tom de voz. Espero que tenham aprendido com isso. O bom é que, conforme vão crescendo, as crianças cada vez mais vêem você como um ser humano. Em meu livro “Manhood” (“Por que os homens são assim?”), falo sobre mulheres e homens adultos resolvendo problemas com os pais depois de anos de afastamento. Portanto, nunca é tarde demais. Os pais sempre cometem erros, mas se não desistirem, no fim acabam chegando lá. O único verdadeiro erro é desistir. Quando nossos filhos tiverem 80 anos e nós 100, ainda estaremos acertando as coisas!

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