“Desci ao barco para limpar os peixes. O seu José sentou no barranco de dois metros de altura. Começamos a conversar, o seu José ainda falou novamente sobre os seus desejos que estavam sendo realizados depois de tantos anos de espera. O tempo foi passando, pedi licença para acender os lampiões enquanto dava para enxergar, assim, com os lampiões acesos, as onças não chegariam no acampamento. O seu José até riu, dizendo que era bom as onças chegarem para ele vê-las bem de perto.
Acendi os lampiões já colocados em pontos estratégicos, peguei um deles, levei ao barco para continuar limpando os peixes. A conversa estava boa, escureceu. Macacos na árvore à procura de um lugar para dormir. Grilos, sapos, rãs, curiangos já formavam uma orquestra, quando atrás do acampamento uma onça pintada soltou aquele miado rouco, enroscado na garganta, que mais parecia uma rugido.
O som, apesar de grave, ecoou na mata por quilômetros. A mata transformou-se num silêncio. Macacos, sapos, rãs, curiangos, eu, seu José, tudo parou, parecia que a natureza se curvava diante da superioridade. No meio daquele silêncio, seu José escorregou barranco abaixo caindo no barco com dificuldade. No esforço para que ele se equilibrasse no barco, quase caímos no rio. Vejam a situação, onça no barranco e piranha na água. Foi aí que ele, apavorado, perguntou o que era aquilo.
Na luz do lampião, seu José mostrou que estava todo arrepiado, os pelos dos braços pareciam um porco-espinho. Eu também estava arrepiado, o som rouco, o miado ainda parecia correr com o sangue pelas veias. Expliquei para o seu José que aquilo era a onça pintada que ele queria ver viva e solta na mata. O seu José nunca tinha visto uma onça pintada, não sabia o que era aquele miado, mesmo assim, quase morreu de susto (para não dizer outra coisa).
Quase passado o susto, seu José disse que se aquele bicho estivesse mais perto dele, ele atravessaria o rio Miranda andando, sem molhar os pés. O desejo de tantos anos, que era de ver uma onça pintada, viva e solta na mata foi esquecido, tanto que ele jurou por Deus: Nunca mais queria ver uma onça pintada.
Esta história de pescador foi verdadeira.” (Antonio Roldão de Abreu gosta de pescar e tem muitas histórias para contar)