A primeira reunião da Comissão de Agroindústria (CAI) da Fiesp/Ciesp realizada ontem na sede do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) em Bauru, no distrito industrial I, discutiu várias propostas relativas ao setor. Entretanto, uma delas dominou os debates entre os especialistas e entidades representativas de segmentos da atividade: a busca pela agregação de valores durante as etapas da cadeia produtiva.
Segundo o coordenador da CAI, Fioravante Scalon, o fato de Bauru obter bons resultados nesse sentido foi um motivos que levaram a comissão a optar pelo encontro na cidade. “O município possui uma participação grande dentro do cenário agrícola e pecuário estadual. Exemplo disso é que a cadeia de produção, desde a matéria-prima até o produto ao consumidor, vai agregando valor em todas as etapas”, afirma.
Mas o que se entende por agregação de valor? Um entusiasta da idéia, Francisco Oliveira, assistente da Secretaria de Política Tecnológica Empresarial do Ministério da Ciência e Tecnologia, dá um exemplo prático da funcionalidade do processo.
“O objetivo não é vender café verde à Alemanha para ela transformá-lo em torrado e moído. Queremos exportar cada vez mais o torrado e moído para lá. Os alemães não têm um pé desta planta, mas obtêm um lucro anual de US$ 1 bilhão com o produto, enquanto nós atingimos pouco mais de US$ 1 milhão”, esclarece.
Mas para se atingir tal nível, Oliveira sustenta ser necessário que as fazendas produtoras sejam encaradas como empresas rurais. “Não interessa se a propriedade ou o agricultor é pequeno ou grande, e sim saber ocupar determinado nicho de mercado”, enfatiza.
Outra medida fundamental citada por Oliveira na busca pela valorização produtiva é o investimento em tecnologia, que poderia ser obtida mesmo sem muitos recursos financeiros. “Há condições do agricultor acompanhar o desenvolvimento tecnológico sem muito dinheiro, pois isso depende muito mais da mentalidade da empresa e de sua necessidade de crescimento”, frisa.
Oliveira argumenta que há linhas de financiamento governamentais, como o Financiador de Estudos e Projetos (Finep), criadas especificamente para estimular o desenvolvimento tecnológico.
O coordenador da CAI é outro a defender o estímulo à tecnologia como meta para agregar valor aos produtos. “Temos de criá-la para nossos produtos ou buscá-la fora. Por isso já há microempresas exportando, pois conseguiram dominar uma tecnologia requerida mundialmente. É uma evolução constante que não pode parar nunca”, destaca Scalon.
Ele considera, ainda, que o pequeno produtor rural deve deixar a “timidez” de lado e encorajar-se para buscar as informações que necessita a fim de fazer seu negócio “decolar”. “Muitos não conhecem o que o governo ou entidades representativas do segmento oferecem em termos de assessoria e até linhas de financiamento”, salienta o coordenador.
Além disso, Scalon defende que os dirigentes de entidades, associações comerciais e sindicatos busquem tais informações e as repassem aos agricultores. “Para ser um bom vendedor a informação é mais importante que o dinheiro”, enfatiza.
Couro
Outros setores presentes à reunião também defenderam a necessidade da agregação de valores aos seus produtos. Alberto Skliutas, diretor executivo do Sindicato da Indústria do Curtimento de Couros e Peles no Estado de São Paulo (Sindicouro), foi um deles.
Ele reconhece que a atividade a qual representa precisa melhorar nesse aspecto. Segundo Skliutas, São Paulo exporta 50% do couro produzido, o que significa dizer que das 8 milhões de unidades/ano, o Estado vende a metade. Além disso, cerca de 60% do couro vai para o Exterior em estágio inicial de transformação.
“Exportamos um produto com baixo valor agregado para países que irão industrializá-lo, fazer o acabamento e gerar empregos, enquanto temos, ainda, de preocupar-nos com todo o problema ambiental”, explica o sindicalista.
Skliutas ressalta que um dos grandes problemas para se contornar a situação é a falta do consumo. “Nosso setor se ressente na cadeia porque o lojista não vende o calçado, a fábrica de calçados não produz e assim sucessivamente”, diz.
O diretor do Sindicouro enfatiza que se a economia melhorar será possível transformar tal perfil. “Somaríamos três condições ótimas: exportaríamos a carne, aqueceríamos o consumo interno e agregaríamos valor em um produto a fim de gerar maior número de empregos no Estado”, afirma Skliutas.